“Quando a gente houve o Sinatra
cantar, o que o torna ainda mais extraordinário é o silêncio. Como aquele homem
gere as pausas! Outro dia estava a ouvir (tanto quanto consigo ouvir) os Impromptus de Schubert, pelo [Alfred] Brendel, salvo erro. Aquilo
está cheio de silêncio, meu Deus! Se calhar toda a arte devia tender para o
silêncio. Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é.”
“Achava-me investido de uma
grande autoridade. Achava que ia ou que estava a renovar a arte do romance. E
então, embriagado pelo sucesso, comecei desajeitadamente e de uma maneira
injusta, a ser arrogante e violento para pessoas que não o mereciam. Inclusivé
para pessoas de quem depois me tornei muito amigo, como o Zé [Cardoso Pires]. A
literatura não existia, começava comigo. Há maneiras mais delicadas de se
pensar isso [ri]. Tinha necessidade de o dizer - 'Vejam, vejam, vejam!' -, como
o menino que achou a bola.”
“Outro dia a minha tradutora
sueca, a propósito da doença de uma pessoa muito amiga, dizia: "Deus está
a chorar" Para ela, Deus é uma entidade que sofre, a braços com uma
criação que muitas vezes o excede. Eu julgo que Deus está presente em todos nós.
Nunca vi ninguém morrer e chamar pelo pai. Chamavam pela mãe ou por Deus.”
[«P - Se pudesse escolher os
convidados desta noite da homenagem, quem gostava de ver?]
R - Charlie Parker. Alguns
músicos de jazz. A gente aprende a frasear com eles. John Lester. Johnny
Rodgers. Thelonious Monk. Gostava de ouvi-los a tocar. Não sei se gostaria de
falar com eles. Eu tenho muito medo, sabe. A gente mitifica as pessoas. Lembro-me
de ter ido ter com um escritor que me convidou para almoçar. Eu disse "Bom
dia", ele disse "Bom dia", e fiquei logo desiludido. A gente
espera que um escritor diga sempre coisas inteligentes e é muito raro aparecer
um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o
segredo da longevidade e ele - "A ginástica, que nunca pratiquei"; um
De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de
chocolates que visitava diz - "Ora deixa tomar nota aqui na minha
tablette"...»
“Sinto-me em paz comigo. Fiz o
melhor que pude. Trabalhei muito e fiz o melhor que pude. Se não fiz melhor foi
porque não fui capaz. Isto parece a linguagem de um futebolista no fim de um
jogo. Mas fiz o melhor que pude. Se os livros não são melhores a culpa é minha.”
«[P - Vai querer que a literatura
o recorde como quê?]
R - Vai-me ser igual - porque
tenho a boca cheia de terra, não é? - que me ponham nos Jerónimos ou que me
deixem na vala comum. Aqui há tempos tive um sonho. Era um pesadelo horrível.
Tinha morrido há 20 ou 30 anos, e as pessoas estavam a discutir os livros. E eu
queria voltar porque não era nada daquilo. Não imagina como foi desconfortável.
Só para explicar: "Não é, não é!»
“Gostava que me acontecesse como
ao Tolstoi. Naquela gare onde ele morreu, puseram-lhe um lençol por cima. Ele
estava deitado e no lençol a mão dele continuava a desenhar as letras. Era
assim que eu gostaria de acabar...”
[António Lobo Antunes, in Entrevista com António Lobo Antunes nos Seus 25 Anos de Carreira:
"Acho Que Já Podia Morrer", Público, 9/11/2004]
J.M.M.


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