quinta-feira, 5 de março de 2026

IN MEMORIAM DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942-2026)

 


“Quando a gente houve o Sinatra cantar, o que o torna ainda mais extraordinário é o silêncio. Como aquele homem gere as pausas! Outro dia estava a ouvir (tanto quanto consigo ouvir) os Impromptus de Schubert, pelo [Alfred] Brendel, salvo erro. Aquilo está cheio de silêncio, meu Deus! Se calhar toda a arte devia tender para o silêncio. Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é.”

“Achava-me investido de uma grande autoridade. Achava que ia ou que estava a renovar a arte do romance. E então, embriagado pelo sucesso, comecei desajeitadamente e de uma maneira injusta, a ser arrogante e violento para pessoas que não o mereciam. Inclusivé para pessoas de quem depois me tornei muito amigo, como o Zé [Cardoso Pires]. A literatura não existia, começava comigo. Há maneiras mais delicadas de se pensar isso [ri]. Tinha necessidade de o dizer - 'Vejam, vejam, vejam!' -, como o menino que achou a bola.”

“Outro dia a minha tradutora sueca, a propósito da doença de uma pessoa muito amiga, dizia: "Deus está a chorar" Para ela, Deus é uma entidade que sofre, a braços com uma criação que muitas vezes o excede. Eu julgo que Deus está presente em todos nós. Nunca vi ninguém morrer e chamar pelo pai. Chamavam pela mãe ou por Deus.”

P - Se pudesse escolher os convidados desta noite da homenagem, quem gostava de ver?]

R - Charlie Parker. Alguns músicos de jazz. A gente aprende a frasear com eles. John Lester. Johnny Rodgers. Thelonious Monk. Gostava de ouvi-los a tocar. Não sei se gostaria de falar com eles. Eu tenho muito medo, sabe. A gente mitifica as pessoas. Lembro-me de ter ido ter com um escritor que me convidou para almoçar. Eu disse "Bom dia", ele disse "Bom dia", e fiquei logo desiludido. A gente espera que um escritor diga sempre coisas inteligentes e é muito raro aparecer um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o segredo da longevidade e ele - "A ginástica, que nunca pratiquei"; um De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de chocolates que visitava diz - "Ora deixa tomar nota aqui na minha tablette"...»

“Sinto-me em paz comigo. Fiz o melhor que pude. Trabalhei muito e fiz o melhor que pude. Se não fiz melhor foi porque não fui capaz. Isto parece a linguagem de um futebolista no fim de um jogo. Mas fiz o melhor que pude. Se os livros não são melhores a culpa é minha.”

«[P - Vai querer que a literatura o recorde como quê?]

R - Vai-me ser igual - porque tenho a boca cheia de terra, não é? - que me ponham nos Jerónimos ou que me deixem na vala comum. Aqui há tempos tive um sonho. Era um pesadelo horrível. Tinha morrido há 20 ou 30 anos, e as pessoas estavam a discutir os livros. E eu queria voltar porque não era nada daquilo. Não imagina como foi desconfortável. Só para explicar: "Não é, não é!»

“Gostava que me acontecesse como ao Tolstoi. Naquela gare onde ele morreu, puseram-lhe um lençol por cima. Ele estava deitado e no lençol a mão dele continuava a desenhar as letras. Era assim que eu gostaria de acabar...”

[António Lobo Antunes, in Entrevista com António Lobo Antunes nos Seus 25 Anos de Carreira: "Acho Que Já Podia Morrer", Público, 9/11/2004]

J.M.M.

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