sexta-feira, 17 de junho de 2011

ARTUR MARINHA DE CAMPOS (Parte I)


Oficial da Armada, nasceu em Lisboa em 1871 e m. em I9-X- I930.

Teve um certo relevo na política dos últimos anos da monarquia. Tendo seguido João Franco quando este fazia oposição, combateu-o energicamente quando passou a governar em ditadura.

Aquilino Ribeiro refere-se ao oficial da Marinha portuguesa Artur Marinha de Campos nas suas memórias, onde refere que este franquista, depois irredutível inimigo de Franco quando enveredou pela ditadura, dando à estampa uma carta onde o criticava de forma violenta. Nessa carta, Marinha de Campos, atacava as medidas ditatoriais de João Franco, acusava-o de responder aos parlamentares no Diário do Governo, aos jornalistas no Tribunal da Boa Hora e ao povo o forte de Caxias ou o cemitério dos Prazeres.
Aquando da preparação do golpe que devia terminar com a ditadura de João Franco, Marinha de Campos tornou-se porta-voz do grupo dos revoltosos. Este contactou com Alfredo Luís da Costa onde afirmou que a tropa não sairia enquanto João Franco não fosse afastado ou mesmo eliminado [Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se, Bertrand, Lisboa, 1974, p. 337-338].

Marinha de Campos, um dos mais intrépidos conspiradores contra a Monarquia e tornou-se num dos principais chefes da marinha na revolução de 5 de Outubro de 1910, juntamente com José Carlos da Maia, Ladislau Batalha, Mariano Martins, Vasconcelos e Sá ou Machado Santos. Mostrou-se um grande organizador, demonstrando coragem e tenacidade. Combateu a Monarquia colaborando em diversos órgãos da imprensa escrita, como a Pátria, a Luta e O Mundo, para além de ter sido o director do efémero jornal O Radical entre outras colaborações na imprensa, que adiante referiremos com maior detalhe.

Integrou também o comité revolucionário em que participou Mascarenhas Inglês e os chefes republicanos Alexandre Braga, França Borges e Afonso Costa, além do próprio José de Alpoim e Egas Moniz, facto que lhe permitiu alcançar alguma notoriedade.

Caracterizava-se pelo seu espírito combativo, com poder de liderança, facto que lhe provocou problemas com o Ministro da Marinha Amaro de Azevedo Gomes, já que não reconhecia no ministro qualidades para representar a Marinha no primeiro governo republicano, no entanto devido às suas relações de amizade com Afonso Costa conseguiu a nomeação para Governador de Cabo Verde.


Em 29 de Outubro de 1910 foi feita a nomeação de Marinha de Campos para o cargo de Governador da Província de Cabo Verde, onde tomou posse em 14 de Novembro de 1910, e foi exonerado pelo ministro Azevedo Gomes, em Abril de 1911, facto que provocou profunda polémica entre Brito Camacho e Afonso Costa.

Ao aportar á cidade da Praia, capital da província, o governador, Marinha de Campos, proibiu o desembarque de D. José Alves Martins, sob o falso pretexto de que o povo assim o exigia, por acreditar que o desembarque do Bispo suspenderia algumas das medidas que tencionava implementar.
Tendo chegado à Praia em princípios de Dezembro de 1910, o primeiro Governador da República, Marinha de Campos, proíbe-lhe o desembarque na capital e os seus amigos e correligionários vexam-no de todas as formas, a bordo.

Como resultado, veio a demissão do governador Artur Marinha de Campos. As dificuldades económicas, sociais e políticas do arquipélago permaneciam, quando não agravavam.

Nos cerca de quatro meses e meio do governo de Marinha de Campos em Cabo Verde foi necessário ultrapassar e decidir em momentos delicados, como:
- acabar com a tentativa de revolta da guarnição do Zambeze, que se recusava a cumprir a cerimónia da continência;
- enfrentar a greve dos trabalhadores das carvoeiras;
- combater a intransigência dos gerentes das mesmas companhias, tendo mesmo instruções de Lisboa, para o não fazer;
- o motim dos nativos de Santa Catarina, na ilha de Santiago, que tinham feito saques e roubos em plantações e que se enfrentaram com as forças militares;
- conflitos com o juiz da comarca, Dr. Emérico de Alpoim, com o delegado Gomes de Pinho e com o inspector da fazenda Fontoura de Carvalho que o acusavam de abuso de autoridade e, sobretudo, de fomentar um movimento que podia conduzir ao separatismo;
- expulsão de alguns funcionários coloniais;
- uma sindicância ao seminário-liceu e a suspensão de um professor, o cónego Ferreira Coimbra;
- a prisão do padre Duarte da Graça;
- proibiu a prática dos responsos;
- mandou prender as Irmãs da Caridade, apesar de já estarem secularizadas;
- mudou as elites municipais locais.

Marinha de Campos enquanto governador causava bastante polémica com os seus discursos, com a sua acção política e com as suas convicções. Um dos aspectos que também suscitou bastante polémica durante a sua permanência em Cabo Verde foi com o seu anticlericalismo. Este aspecto fê-lo, no entanto, conseguir o apoio de alguns sectores da sociedade local. Alguns desses apoiantes encontrou-os no jornal A Voz de Cabo Verde. Surgiram também organizações que o apoiaram como os Bombeiros Voluntários da Praia; Centro Democrático Marinha de Campos, no Mindelo, o Clube Republicano Marinha de Campos (Brava).

Toda a acção de Artur Marinha de Campos provocou muita celeuma em Cabo Verde e o próprio acabou por alimentar mais polémica ao afirmar publicamente que, “se estivesse no arquipélago em 1903, aquando da grande fome, se teria revoltado” [Célia Reis, “Cabo Verde”, O Império Africano. 1890-1930, Coord. A. H. de Oliveira Marques, Nova História da Expansão Portuguesa, Dir. Joel Serrão e A.H. de Oliveira Marques, Editorial Estampa, Lisboa, 2001, p. 105 apud João Nobre de Oliveira, A Imprensa Cabo-Verdiana, Macau, 1998, p. 180 e 245 ]

[Em continuação]
A.A.B.M.

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