terça-feira, 5 de setembro de 2017

LUÍS GUERREIRO


Provavelmente, como muitos, posso dizer que conhecia o Luís Guerreiro desde sempre, já que pouco mais de uma década nos separava em idade. Cresci em Clareanes, a meio caminho entre Loulé e Querença e os meus familiares conheciam o Luís. Além disso, a colaboração regular que ele mantinha na “Voz de Loulé” era sempre lida com atenção lá em casa, ou não houvesse uma assinatura do jornal local há muitos anos.

Na já longínqua década de oitenta, do século XX, encontrava-o por Loulé. Lembro-me que a sede da “Voz de Loulé”, em dada altura (penso que nos últimos anos da década de oitenta), esteve instalada numa sala das Galerias D. Leonor e ele andava por lá juntamente com o Neto Gomes, até porque já tinha regressado dos seus estudos de engenharia em Lisboa e já trabalhava na Câmara Municipal de Loulé.

No início da década de noventa fui eu que abandonei Loulé para ir estudar História, na Faculdade de Letras, em Coimbra. Logo no meu segundo ano de curso, 1991/1992, aproveitei as férias de Natal e de Páscoa para realizar uma pesquisa no Arquivo Municipal de Loulé, sobre as “Migrações internas a partir do concelho de Loulé (1810-1820)” com base nos livros de passaportes. Texto que alguns anos mais tarde foi publicado na revista Al-Úlyá. No ano letivo seguinte fiz uma abordagem ao final da Monarquia Constitucional e aos confrontos políticos em Loulé nos anos conturbados da transição entre a Monarquia Constitucional e a I República, artigo também publicado na mesma revista com o título “Publicidade, Política e Cultura na Imprensa Louletana (1907-1912)”.

Este gosto pela história local, os livros e publicações antigas sobre o Algarve foram os pontos de contacto que acabaram por nos aproximar. A partir de meados da década de noventa passei a contactar regularmente com o Luís. Depois começamos da contactar via telefone, mais tarde via email e depois via facebook.

Durante as férias fazíamos sempre os nossos encontros. Desculpem a inconfidência, mas excepto dois ou três amigos mais chegados e a família, era dos poucos com quem mantinha um contacto regular e gostava muito das nossas trocas de ideias e de conhecimentos. Um café aos sábados no Calcinha, em Loulé, ou noutros espaços eram habituais durante os meses de Verão e, muitas vezes, no período do Natal, e conversas que eram como as cerejas, sobre os mais variados temas, incidindo quase sempre sobre as figuras, os episódios e as fontes sobre a história de Loulé e do Algarve. As edições que cada um de nós tinha e que encontrávamos nas nossas deambulações pelas feiras de velharias e pelos alfarrabistas. Numa dessas conversas começou a falar-se da necessidade de existir de forma acessível um local onde se reunissem as publicações periódicas algarvias. Nós que adoramos os papéis velhos, que para muitos são lixo, sentíamos que era importante reunir e estudar essa informação/documentação. Os arquivos e museus do Algarve, tal como a própria Universidade do Algarve, na maior parte dos casos, são recentes e a informação da imprensa regional onde se encontra informação inestimável está muitas vezes em Lisboa, Coimbra e Porto, longe dos investigadores que têm vindo a aumentar. Pode parecer estranho, para alguns menos informados, mas alguma colecções mais antigas de periódicos não existem no Algarve, ou se existem são muito incompletas. Esta situação obriga os investigadores a partir para a Biblioteca Nacional, em Lisboa, para a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra ou para a Biblioteca Pública Municipal do Porto, para se poder consultar os jornais e revistas que se publicaram pelo Algarve. Não fazia e não faz sentido!!! Isto tornava e torna bastante onerosa qualquer investigação que obrigue a estas deslocações.

Estes interesses comuns e o gosto pelos mesmos temas levaram a que me convidasse a participar para uma conferência no Arquivo Municipal de Loulé, em Abril de 2003, numa altura em tentava ultimar o texto da dissertação de mestrado sobre “Os Republicanos e o Republicanismo no Algarve (1870-1910)”, que infelizmente acabou por nunca ser concluída. O texto dessa conferência acabou por nunca ser publicado, mas existe em papel e já foi citado em vários trabalhos sobre a temática “A Organização do Partido Republicano no Algarve: o caso de Loulé (1881-1910)”. Mais tarde, através do Luís, participei no I Curso Livre de História Contemporânea do Algarve (2008), organizado pela Fundação Manuel Viegas Guerreiro. Encontramo-nos também entretanto na última edição do Congresso do Algarve em 2007 e, mais tarde, no Congresso Outras Vozesna República, realizado na Figueira da Foz em 2011, entre vários outros.

Foi este interesse do Luís pela I República, em particular no Algarve, que o terá levado a convidar-me para o ajudar na realização da Exposição sobre “Mendes Cabeçadas e a República no Algarve”[ver nota AQUI.]. O seu entusiasmo neste empreendimento, o sucesso que a mesma teve na época e a edição do catálogo da mesma foram momentos que partilhamos entre nós. Fica a memória dos episódios, das conversas e das partilhas de informação.

Pessoalmente, estivemos juntos pela última vez no Verão de 2016, quando a doença já se tinha manifestado. Estivemos juntos durante um bom bocado à conversa. Chegou acompanhado pela esposa, com um sorriso nos lábios, aquele sorriso simpático, afável que cativava, e trazia um conjunto de livros para oferecer. Eu estava um pouco temeroso na abordagem, era normal, depois de saber da doença, mas a conversa à volta de um chá e de um café foi normal. Porém, a dada altura manifestou o seu cansaço. Os tratamentos ainda duravam, mas havia esperança.

Trocamos algumas mensagens até Maio de 2017, na altura da 2ª edição do FLIQ, quando através de amigos comuns soube que tudo se tinha complicado. Infelizmente, apesar do combate, da resistência, dos tratamentos, o Luís partiu. Perdi um AMIGO, mas a família perdeu um ente querido. É estranho estar em Loulé e não fazermos as nossas tertúlias…


Cabe-nos a nós levarmos a bom termo alguns dos projectos que tinha entre mãos, sobretudo a questão da Hemeroteca Digital do Algarve, obtendo financiamento através do orçamento participativo.

Este texto e muitos outros que foram convidados a participar na homenagem por ocasião do aniversário do nascimento de Luís Guerreiro podem ser consultados AQUI.


A.A.B.M.

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