quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

O CONFLITO ACADÉMICO DE 1907


"Com a greve dos estudantes que em 1907 emocionou profundamente o País, revelou-se uma geração republicana que teve influência decisiva para a proclamação do novo regime e fez-se o processo da Universidade de Coimbra, especialmente da sua Faculdade de Direito que deixara de corresponder à sua missão"

[in Historia da República, Editorial Século, 1960]

J.M.M.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

BREVE RESUMO DA REVOLTA ESTUDANTIL DE 1907


Os acontecimentos iniciaram-se no dia 28 de Fevereiro de 1907, quando José Eugénio Dias Ferreira foi reprovado no seu acto de doutoramento(Conclusões Magnas), em plena Sala dos Capelos. O candidato era desconhecido para a maioria dos estudantes da época porque tinha terminado o bacharelato em Direito em Outubro de 1903. Enquanto estudante não tinha assumido papel de destaque na comunidade estudantil conimbricense, mas como eram poucos os estudantes que se candidatavam a este acto, alguns tiveram curiosidade em assistir ao acto solene, especialmente porque começou a correr o boato que o candidato seria reprovado. Este facto acabou por provocar a enchente na Sala dos Capelos que assistiram, como refere Alberto Xavier:

[os professores da Faculdade de Direito] concluiados, combaterem o candidato, desqualificá-lo perante a assistência e conduzi-lo a uma situação de estenderete retumbante. Cada membro do júri, incumbido de intervir no exame, desenvolvia o interrogatório com questões de mesquinho interesse, enunciadas com voz e vivacidade teatral de gestos. O candidato propunha-se responder, esboçava a sua defesa. Mas os professores arguentes interrompiam-no constantemente, não o deixando prosseguir; aguçavam o timbre das suas vozes de sorte a abafar, totalmente, a voz do arguido. Os examinadores continuavam a bradar. Em dado momento, um deles, já sem consciência da sua incompreensível exaltação, chegou a gritar para José Eugénio Ferreira, estupefacto e humilhado:
- Cale-se, senhor, cale-se!
Foi o cúmulo! Não podia ter sido mais desoladora e incrível cena dramática desenrolada na solene e majestosa Sala dos Capelos, diante dum público pasmado, prestes a manifestar-se, mas esforçando-se por dominar o seus sentimentos de indignação. Esboçaram-se murmúrios, logo abafados pela intervenção do Reitor.
[p. 67]

Os estudantes de Coimbra, em primeiro lugar assumiram a revolta como uma questão política e não concordaram com a decisão dos professores de Direito que, por unanimidade reprovaram o acto do candidato. Organizaram uma manifestação que conduziu José Eugénio Dias Ferreira desde o pátio da Universidade até à sua residência na Arregaça, em Coimbra.

Os estudantes que foram punidos com a pena de expulsão da Universidade,na sequência destes acontecimentos foram: Carlos Olavo, Campos Lima e Amilcar Ramada Curto [por dois anos lectivos].

Expulsos por um ano foram: Alberto Xavier, Pinto Quartim, Francisco Mendes Preto, José Rebelo de Pinho Ferreira Júnior.

Nove estudantes que foram indiciados acabaram por ser considerados isentos de culpa por falta de provas: Adelino Furtado, Júlio Dias da Costa, Adriano de Sousa e Melo, Ernesto Carneiro Franco, Vasco Correia da Rocha, Manuel Gregório Pestana Júnior, Francisco António do Vale, Afonso Henriques Duarte de Vasconcelos, Ernani Rebelo Peixoto de Magalhães, Fernando de Reboredo.

Na sequência dos acontecimentos de 28 de Fevereiro a 1 de Março a Academia reuniu-se e pediu a realização de um inquérito ao acto de conclusões magnas, enquanto João Franco solicitava a intervenção do Reitor para punir os estudantes que se manifestavam.

[Na imagem acima os estudantes expulsos por dois anos: da esquerda para a direita Campos Lima, Ramada Curto e Carlos Olavo]

Nos próximos dias continuaremos.

A.A.B.M.

JOSÉ EUGÉNIO FERREIRA


O dr. José Eugénio Ferreira

"O movimento iniciado pelos estudantes da Faculdade de Direito de Coimbra teve a sua origem na reprovação do candidato ao doutoramento Dr. José Eugénio Dias Ferreira [o acto de 'Conclusões Magnas' para a obtenção do título de Doutor decorreu na Sala dos Capelos, no dia 27 e 28 de Fevereiro de 1907, perante um imenso público académico] e propagou-se a todas as escolas superiores do país. É a esse episódio, de decisiva influência na vida nacional, que se refere esta caricatura [que reproduzimos acima] de Francisco Valença ...]

[in Historia da República, Editorial Século, 1960]

J.M.M.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

CENTENÁRIO DA QUESTÃO ACADÉMICA - COIMBRA 1907


"Abaixo a Universidade Fradesca, a Universidade Inquisição

A Universidade de Coimbra não viverá enquanto não morrer. A Universidade de Coimbra, verdadeiramente, já não vive. A Universidade de Coimbra é um espectro, é um corpo gangrenado, é um foco de infecção, é uma vergonha, como documento da nossa civilização ...
"

[in Suplemento do Jornal de Coimbra, A Verdade, 27 de Fevereiro de 1907]

O Almanaque Republicano comemora, a partir de hoje, o Centenário dos célebres acontecimentos que, a partir do movimento académico em Coimbra e na sua Universidade, agitaram o país e inquietou seriamente os diferentes poderes, arrastando consigo repercussões políticas graves e insanáveis. Na Questão Académica de 1907 ou na Greve Académica de 1907, há toda uma geração académica ilustrada, entusiasta e fraterna, que com a maior das generosidades e espírito livre, participa significativamente na "gestação" da mudança que se verificaria anos depois. O conjunto de homens que participaram nesse conflito académico e que ousaram exigir a "reforma" da sua Universidade, de tão ilustres, falam por si. Iremos, por isso mesmo, assinalar aqui, devidamente, essa data histórica. Porque o assunto é de maior interesse, estimação e actualidade.

J.M.M.

TEÓFILO BRAGA DISCURSANDO


Discurso num Comício Republicano do Dr. Teófilo Braga [in, Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

TEÓFILO BRAGA


Ontem, dia 24 de Fevereiro, assinalou-se o aniversário de nascimento de Joaquim Teófilo Fernandes Braga. No ano de 1843, em Ponta Delgada, nascia o filho de Joaquim Manuel Fernandes Braga (1804-1870) e de Maria José da Câmara Albuquerque (fal. 1846). No arquipélago açoriano inicia o seu percurso pelas letras colaborando com alguns jornais regionais e publica a sua primeira obra poética, Folhas Verdes (1859). No ano seguinte deixa os Açores e vem estudar para a Universidade de Coimbra onde permanece entre 1862 e 1867, envolvendo-se na famosa Questão Coimbrã.
Ao longo do tempo, torna-se uma das figuras da cultura portuguesa mais respeitadas, publicando inúmeras obras e influencia grande parte do pensamento político em Portugal na segunda metade do século XIX até inícios do século XX. Foi professor no Curso Superior de Letras e
Podem consultar-se úteis biografias desta personalidade aqui ou aqui ou aqui.
Como político aderiu desde muito cedo aos ideais positivistas e republicanos. Em 1878 apresentou-se como candidato a deputado pelos republicanos federalistas, mais tarde integrou o Directório do partido, sendo escolhido como presidente do Governo Provisório da República em 5 de Outubro de 1910.
Faleceu em Lisboa 28 de Janeiro de 1924.

Em jeito de curiosidade, a crer no que foi publicado, Teófilo Braga concedeu a sua última entrevista a Julião Quintinha, que o mesmo reproduz na sua obra Imagens de Actualidade, Editor Nunes de Carvalho, Lisboa, 1933, p. 57-71.

Alguns estudos interessantes sobre Teófilo Braga disponíveis na net:
- Barbosa, Luísa Maria Gonçalves Teixeira, O Brasil e o Movimento Republicano Português, 1880-1910
- Luz, José Luís Brandão da, A Positividade das Ciências Sociais em Teófilo Braga
- Matos, Sérgio Campos, História e identidade nacional.A formação de Portugal na historiografia contemporânea

Podem ainda indicar-se estudos fundamentais de:
- Carreiro, José Bruno, Vida de Teófilo Braga. Resumo Cronológico, Coimbra, 1955.
- Cidade, Hernani, Doutor Teófilo Braga. As directrizes da sua obra de História Literária, Lisboa, 1935.
- Homem, Amadeu Carvalho, A Ideia Republicana em Portugal. O Contributo de Teófilo Braga, col. Minerva História, Livraria Minerva, Coimbra, 1989.
- Pimenta, Alfredo, Teófilo Braga, V.N. Famalicão, 1943.

A.A.B.M.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

IN MEMORIAM JOSÉ AFONSO [1929-1987]



"A balada coimbrã - matriz de origem, ela própria radicada no cancioneiro tradicional beirão e açoreano - foi o veículo formal de um poderoso assumir das suas raízes poético-musicais. Anos mais tarde, a vivência africana provoca-lhe uma verdadeira explosão de formas melódicas, rítmicas e tímbricas, e - talvez mais que tudo - da função musical da palavra cantada.

O chão desta fonte de música era a sua profunda cultura humanística, assimilada e vivida. Praticar a liberdade dá asas à criação, eis o que a vida e a obra do Zeca nos ensinam
"

[José Mário Branco, ler aqui]


José Afonso - Balada do Outono [via Almocreve das Petas]

J.M.M.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

AGATÃO LANÇA NO FEVEREIRO 1927


O Tenente Agatão Lança e os marinheiros revoltosos de Fevereiro de 1927

[Foto: Revista História, Fevereiro de 2007, p.51]

J.M.M.

[AINDA] A MONARQUIA (1917-1922)

A Monarquia (1917-1922)- Subtítulo: Diário Integralista da Tarde.

Director: Conde de Monsaraz; António Sardinha (entre 15 de Maio de 1922 e 26 de Outubro de 1923); Hipólito Raposo (a partir de 10 de Fevereiro de 1925). Redactor-em-Chefe: João do Amaral (até 9 de Agosto de 1917). Redactor Principal: António Sardinha (entre 10 de Agosto de 1917 e 1 de Setembro de 1921). Subdirector: Ayala Monteiro (entre 27 de Janeiro e 15 de Maio de 1922)

Propriedade: Sociedade Integralista Editora, Lda. Escritórios e Tipografia: Rua de S. Paulo, 20; a partir de 1 de Agosto de 1919: Rua Serpa Pinto, nº 39; nºs 1196, 1197 e 1198: Largo do Directório, 8 - 3º.

Colaboradores: G. de Ayala Monteiro, Alfredo de Freitas Branco, João Froes, Caetano Beirão, A. Campos Figueira, R. de Bettencourt, Júlio de Melo Matos, João do Amaral, Rui Enes Ulrich, M. Vieira da Silva, César de Oliveira, José Pequito Rebelo, Félix Correia, Cabral do Nascimento, Pires de Lima da Fonseca, Francisco Veloso, Rolão Preto, Afonso Lucas, Augusto da Costa, Luís de Almeida Braga.

O primeiro número foi publicado a 12 de Fevereiro de 1917. Sucedeu à revista Nação Portuguesa, cuja a acção pretendia continuar a divulgar mais amplamente. Tinha 4 páginas a 6 colunas. Fazendo a sua apresentação, em artigo de fundo intitulado "Pela Lei e Pela Grei" (...)

O jornal interrompe a publicação entre o nº 502 e 503, isto é, entre 25 de Outubro de 1918 e 21 de Dezembro de 1818. Volta a interromper a publicação no nº 524, de 18 de Janeiro de 1919. Regressa a 18 de Agosto de 1919 e comunica que o Conde de Monsaraz condenado em tribunal pela sua participação no movimento monárquico de Monsanto e com António Sardinha fora do país, as funções de redactor-principal seriam entregues a Hipólito Raposo e Augusto da Costa, respectivamente, embora os nomes de Monsaraz e Sardinha não tivessem sido substituídos do cabeçalho. (...)

O ultimo nº parece ter sido o 1194, de 5 de Maio de 1922, onde se fez uma grande notícia com a declaração da Junta Central do Integralismo Lusitano, na sequência do acordo dinástico celebrado entre os representantes de D. Manuel II e de D. Duarte Nuno, tendo suspendido a publicação e a actividade de organização política. Neste número o Conde de Monsaraz publicou a sua carta de demissão do lugar de director da 'Monarquia', por este jornal não ter aceite o pacto dinástico celebrado em Paris.

Publicou-se um suplemento a este número a 15 de Maio, com duas páginas e tendo como Director António Sardinha.

Publicaram-se ainda os nº1195, de Dezembro de 1922; 1196, de 5 de Abril de 1923, com 6 pág.; 1197, de 26 de Outubro de 1923, com 8 páginas;1198, de 5 de Abril, dirigido por Hipólito Raposo.

[Fonte: Jornais Diários Portugueses do séc. XX, de Mário Matos e Lemos, Ariadne Editora, Coimbra, 2006, p.432-435. Foto: Luís Almeida Braga e Hipólito Raposo, Tadim, 1933, retirada da "Unica Semper Avis", com a devida vénia.

J.M.M.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A MONARQUIA - DIÁRIO INTEGRALISTA DA TARDE


«... apareceu em Lisboa [nº 1, 12 Fevereiro de 1917] e foi durante alguns anos órgão do movimento integralista (...)

'Em 1916, conta Hipólito Raposo, reconhecemos a necessidade de editar um jornal, porta-voz que diariamente difundisse a doutrina e por ele se aferisse a actuação da política e da administração republicana. Seriam as melhores lições de propaganda da realeza. Dados os passos que tal empreendimento exigia e reunidos os poucos capitais de alguns subscritores, foi possível começar a publicação do diário em 12 de Fevereiro de 1917. Fizeram-se anúncios e afixaram-se cartazes, que a muitos pareciam bandeirolas de rapaziada literária. O director era Alberto Monsaraz e o redactor principal António Sardinha' ('Folhas do meu cadastro'). Escrevendo certamente de memória, Hipólito Raposo equivocou-se nesta citação. No primeiro numero de 'A Monarquia', além do nome de Alberto Monsaraz (Conde de Monsaraz) como director, figura o de João do Amaral como redactor em chefe (...)

... tecnicamente 'A Monarquia' era um decalque da 'Action Française', estando a rubrica da Política, nesta confiada a Maurras, e no jornal português a Sardinha depois de João do Amaral, nele publicando a primeira parte dos seus trabalhos, mais tarde reunidos em volumes (...)

O primeiro número desse diário, ao contrário das promessas feitas na altura do seu aparecimento, foi um modelo de virulência e incompreensão: com a primeira visava adversários e correligionários, indistintamente, desde que não aceitassem como verdades reveladas as divagações dos chefes do Integralismo; com a segunda lamentavelmente exibida numa hora de perigo para a sobrevivência da Nação, reeditava a súmula das aspirações do movimento, aparecida na 'Nação Portuguesa' com o titulo 'O que nos queremos' e a rubrica genérica que englobava os seus objectivos teóricos: 'monarquia orgânica, tradicionalista e anti-parlamentar' ...»

[Carlos Ferrão, in O Integralismo e a Republica autopsia de um mito, Inquérito, vol. 2, 1964 - sublinhados, nossos]

J.M.M.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

BERNARDINO PEREIRA PINHEIRO

Assinala-se hoje a data de nascimento de um dos elementos já esquecidos do directório do Partido Republicano: Bernardino Pereira Pinheiro. Nascido em Coimbra a 20 de Fevereiro de 1837, veio a falecer em Lisboa a 3 de Março de 1896. Seus pais eram Joaquim José Pinheiro e Maria da Trindade Pereira. Frequentou a então denominada Aula de Comércio, mais tarde emigrou para o Brasil onde se dedicou a actividades comerciais. Foi um dos fundadores do Grémio Literário Português, começou a colaborar na imprensa e tornou-se redactor do jornal A Reforma, e no jornal A Semana mas colaborou ainda noutros periódicos brasileiros. Quando regressou a Portugal, nos meados dos anos 50 do séc.XIX, voltou aos estudos e matriculou-se na Universidade de Coimbra onde vai concluir o bacharelato em Direito no ano lectivo de 1862.

Inicia a carreira como conservador de registo de hipotecas no distrito de Coimbra e, em 1872, é nomeado para secretário do Supremo Tribunal de Justiça, conseguindo ascender ao cargo de director-geral deste órgão.
Em 1870 foi eleito deputado pelo círculo de Monção integrado nas listas do Partido Reformista. Mais tarde, foi novamente eleito deputado pelo círculo uninominal de Lagos (1890), onde obteve somente 44 votos, mas como o candidato mais votado foi considerado inelegível por acordão do Tribunal de Verificação de Poderes de 22 de Maio de 1890, acabou por se tornar o representante do Partido Republicano no Parlamento.

Bernardino Pinheiro desempenhou as funções de presidente da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, que tinham sido fundada por Casimiro Freire em 1882.
Como publicista conhecem-se os textos publicados no Jornal do Comércio de Lisboa.

- A Saudade publicação literária e instrutiva, instituída pelo Gremio Literário Português. Primeiro semestre. Rio de Janeiro, Typ. de Fortunato Antonio de Almeida. Começou em 5 de Agosto de 1855, e findou em 8 de Fevereiro de 1857. Foram principais redactores e colaboradores: Bernardino Pinheiro, Antonio Xavier Rodrigues Pinto, João Dantas de Sousa, Reinaldo Carlos Montoro, Delfim Augusto Maciel do Amaral, Manuel Leite Machado, entre outros;
- Arzila, Romance Histórico do século XV, Lisboa, 1862;
- Sombras e Luz. Romance do Reinado de D. Manuel, Lisboa, 1863;
- "El-Rei Perdoa", Estreias Literárias, Coimbra,
- "A Filha do Povo", Revista Contemporânea, 1846;
- "D. Guiomar Coutinho", Revista Contemporânea;
- "Ensaio sobre a Organização da Sociedade Universal", O Instituto, Coimbra, 1862-1863;
- Amores de um visionário, Coimbra, 1874;
- Projecto de lei sobre corporações e bens eclesiásticos, Lisboa, 1871;
- História de Portugal, 6 vols., 1876-1877 (outros colaboradores António Ennes, Manuel Pinheiro Chagas, Luciano Cordeiro, Eduardo Vidal, Gervásio Lobato);
- A Renascença. Orgão dos trabalhos da geração moderna. Publicação mensal. Porto, na imp. Portugueza, 1878. Colaboraram entre outros, os srs. Tomás Ribeiro, Guilherme de Azevedo, Bernardino Pinheiro, A. Filipe Simões, Gabriel Pereira, Júlio César Machado, Guerra Junqueiro, Antonio Papança, Antero do Quental, Luís Guimarães Junior, entre outros;
- Revisão da sentença crime: projecto de lei apresentado na Câmara dos Senhores em sessão de 11 de Janeiro de 1892, Lisboa, 1892;
- Recordações Parlamentares, Lisboa, 1892.

Bibliografia consultada:
-Manuel Bandeira Jerónimo, "Bernardino Pereira Pinheiro", Dicionário Biográfico Parlamentar, Dir. Maria Filomena Mónica, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, Lisboa, 2006, p. 301-303.
-Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. II, Coord. Eugénio Lisboa, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1990, p. 198-199.

A.A.B.M.

GREVE DOS FERROVIÁRIOS EM JANEIRO DE 1911


Estação de Santa Apolónia: greve dos ferroviários em Janeiro de 1911

[Estação de Santa Apolónia guardada pela Guarda Nacional Republicana durante a greve ferroviária de Janeiro de 1911 - Foto de Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

EFEMÉRIDES DE FEVEREIRO II

Dia 15
1900 - O jornal O Mundo publica um manifesto da Academia de Coimbra ao povo.
1908 - São pronunciados o professor Brito Betencourt e o caldeireiro Manuel Rebordão por fabrico de explosivos.

Dia 16
1882 - Morre o operário João da Cruz, um dos fundadores do Clube Razão e Justiça, de Alcântara (Lisboa).
1908 - Grande comício republicano em Aldeia Galega (Montijo).

Dia 17
1873 - Declaram-se em greve os charuteiros das fábricas do Porto, exigindo aumento de salários.
1881 - Recebe-se a notícia em Lisboa do falecimento, no Rio de Janeiro, de José Augusto Martins, um dos fundadores do movimento republicano nos Açores e responsável pelo jornal A Republica Federal, de Ponta Delgada.
1897 - As autoridades proibem a reunião das Comissões Paroquiais Republicanas de Lisboa, sob a presidência do Dr. Eduardo de Abreu.
1900 - Realiza-se no Palácio de Cristal, no Porto, um comício republicano presididido pelo Dr. Nunes da Ponte.
1906 - Reunem no Centro Republicano de S. Carlos, a Comissão Municipal Republicana de Lisboa e a Junta Directora do Sul, os antigos membros do Directório, antigos deputados republicanos e vereadores, e os directores dos jornais republicanos.
1907 - Realiza-se em Évora, um comício republicano.
1907 - Inaugura-se o Centro João Chagas, no Poço do Bispo.



1908 - A direcção da Associação Propagadora da Lei do Registo Civil promove uma romaria ao cemitério do Alto de S. João, às sepulturas dos seus consócios, o professor Manuel Buiça e Alfredo Costa, empregado de comércio. Os jornais, mesmo os mais conservadores e de grande circulação calcularam a assistência em 80 000 pessoas[???].

1908 - É colocado na disponibilidade o tenente de cavalaria Álvaro Poppe, preso em 28 de Janeiro, no elevador da Biblioteca.

Dia 18
1880 - Morre em Tomar, Carlos Campeão dos Santos, iniciador do movimento republicano e livre-pensador naquela cidade.
1897 - Reune a assembleia geral o Centro Fraternidade Republicana.


1900 - São novamente eleitos pelo Porto os deputados republicanos Drs. Afonso Costa, Paulo Falcão e Xavier Esteves.

Dia 19
1881 - Reunião da imprensa de Lisboa a convite do Grande Oriente Lusitano Unido, para se resolver a forma de comemorar o Centenário do Marquês de Pombal.
1900 - Organiza-se em Lisboa a Liga Académica Republicana, constituída por estudantes das escolas superiores de Lisboa. Esta organização republicana teve entre os seus fundadores: Luís Derouet, Carlos Olavo, Arnaldo Mendo, Francisco António Vicente, Júlio Martins, entre outros.

Dia 20
1837 - Nasce em Coimbra o Dr. Bernardino Pinheiro.
1881 - Em consequência da propaganda feita pelo Trinta, começa a agitar-se a opinião pública por constar que estava próxima a discussão do Tratado de Lourenço Marques, e o Século, declarando tomar parte activa no protesto contra a aprovação do tratado, anuncia a realização de um comício.
1891 - Realiza-se o julagamento dos jornalistas republicanos Heliodoro Salgado e Alves Correia. Foram condenados a seis meses de prisão, 500$000 réis de multa e no pagamento das custas do processo.
1903 - Reunem os corpos gerentes do Grémio Comercial Democrático.
1906 - Morre em Tomar, o Dr. Joaquim Cândido, antigo médico do municipio e ex-vogal da Junta Geral do Distrito de Santarém.

Dia 21
1871 - Nasce em Viseu, o Dr. José Antunes de Castro, fundador de vários jornais republicanos.
1881 - Resolve-se num comício efectuado na Covilhã, sob a presidência de Tomás António Ribeiro, fundar uma associação anti-jesuítica.
1902 - A autoridade impede a circulação do jornal O Mundo.
1906 - As empresas jornalísticas de Lisboa publicam um manifesto contra a censura prévia à imprensa.
1907 - Inaugura-se o Centro Alexandre Braga.

Dia 22
1902 - É proibida pela polícia a circulação do jornal O Mundo.
1906 - Reunem no Centro Republicano do Largo de S. Carlos, sob a presidência do Dr. Manuel de Arriaga, as comissões paroquiais republicanas de Lisboa.
1906 - É processado o Dr. Bernardino Machado por um artigo publicado no Mundo de 13 de Fevereiro desse ano, intitulado França e Portugal.

Dia 23
1882 - Sai em Lisboa o primeiro número do semanário republicano O Estandarte Republicano.
1906 - Morre em Lisboa o livre-pensador Miguel José Mendes, fundador e director da Voz do Operário.
1908 - Inaugura-se no Beato (Lisboa), a Escola Heliodoro Salgado.

Dia 24



1843 - Nasce em Ponta Delgada o escritor e historiador da literatura portuguesa Joaquim Teófilo Braga.
1890 - A autoridade afixa editais proibindo a realização do cortejo cívico promovido pela Maçonaria em honra de Camões e de Vasco da Gama.
1907 - Realiza-se em Lisboa um imponente comício de protesto contra a lei de imprensa, à qual assistem os principais vultos do Partido Republicano.
1907 - No Centro Republicano Rodrigues de Freitas realiza-se uma sessão solene em homenagem ao Dr. Teófilo Braga.
1907 - É eleita a comissão municipal republicana da freguesia de S. Victor (Braga).
1907 - Inauguram-se em Lisboa os Centros Republicanos Latino Coelho e Castelo Branco Saraiva.

Dia 25
1869 - É abolida completamente a escravidão em território português, ficando os escravos existentes ao serviço dos patrões até ao dia 29 de Abril de 1878.
1897 - É eleita a comissão municipal republicana de Lisboa.



1902 - O deputado Augusto Fuschini interpela o Governo na Câmara dos Deputados sobre as violências e arbitrariedades exercidas sobre o jornal republicano O Mundo.

Dia 26
1904 - Morre em Belém (Lisboa), vítima de tuberculose, o estudioso do movimento libertário, Tiago Ferreira, que foi sepultado civilmente.
1906 - É proibida a circulação no Porto do jornal O Norte.
1908 - O Dr. Afonso Costa retoma o seu lugar de professor na Universidade de Coimbra, sendo aclamado entusiasticamente pelos estudantes republicanos.

Dia 27
1882 - Comemorações no Clube Henriques Nogueira e Centro Eleitoral Republicano Federal, do 80º aniversário de Victor Hugo.
1907 - Reune extraordinariamente a comissão paroquial republicana de S. Nicolau.

Dia 28
1896 - Morre no Porto o general Correia da Silva, que tomou parte activa nos acontecimentos revolucionários de 31 de Janeiro.
1907 - O Mundo publica a carta dos republicanos de Benguela (Angola) aos deputados republicanos de Lisboa, em que protestam contra a sua expulsão do Parlamento.

A.A.B.M.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

COLÓQUIO: RESISTÊNCIA REPUBLICANA


A revista História vai promover, no próximo dia 26 de Fevereiro, pelas 18 horas, em Lisboa, no Espaço Café, na FNAC do Chiado,uma apresentação com o Doutor Fernando Rosas no âmbito da iniciativa Conversas Com História.
Mais uma iniciativa que serve para assinalar a revolta de Fevereiro de 1927, contra a Ditadura Militar. Esta revolta, a que o Almanaque Republicano tem dedicado bastante atenção durante este mês de Fevereiro, foi um dos acontecimentos que marcaram o destino de alguns dos principais envolvidos: as prisões, exílios e deportações foram realidades concretas para muitos dos homens envolvidos neste evento.
O conceito de reviralho, a afirmação das linhas de força da Ditadura e a necessidade de recuperar e estudar melhor a memória dos acontecimentos para se conhecer melhor a História do fim da Primeira República e a efectiva entrada no regime que ficou conhecido como Estado Novo são aspectos que nos levam destacar esta iniciativa.

No dia 28 de Março de 2007, também pelas 18 horas no mesmo espaço, o Doutor José Medeiros Ferreira vai tratar Os 30 anos de Portugal na Europa.

Esperamos que estas iniciativas da revista História se revistam do maior sucesso e sejam concorridas por todos aqueles que, afirmando-se republicanos, não conhecem muitas vezes os factos que conduziram ao fim da 1ª República em Portugal.

A.A.B.M.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

CARTA DE ÁLVARO DE CASTRO AO GENERAL SOUSA DIAS


"Paris, 1-4-1927

Meu Caro Camarada:

Embora esta carta vá dirigida a uma pessoa certa e amiga, pode ser também recebida por outra qualquer, em virtude da indicação que leva, visto não haver a certeza onde se encontram os deportados pois o Governo tem feito o possível para ocultar os locaes de deportação.
É certo que a matéria da carta se destina a qualquer oficial deportado. Esta carta tem por fim levar aos deportados as minhas vivas e entusiásticas saudações pela sua heróica actuação em Lisboa e no Porto [‘durante a revolta de 3-9 de Fevereiro de 1927’] e transmitir-lhes a certeza de uma próxima vitória em que se está trabalhando. Portanto, a quem esta carta receber peço-lhe para comunicar o que deixo escrito e o mais que vae seguir-se.
Está-se preparando o movimento e tudo nos faz prever que a vitória não vem longe. Estamos aqui preparando o manifesto que se há-de dirigir ao país quando a revolução rebentar e entendemos que esse manifesto deveria ser assinado também por todos os oficiais deportados. Logo que esteja pronto se enviará, mas antes é preciso que venha resposta a esta carta. É urgente. Tem-se aqui reunido todos os exilados e com a presença do Dr. Afonso Costa e Jayme de Moraes, Álvaro Poppe (...), etc. O 1º ponto que se resolveu foi o seguinte: Saber se se devia, depois da revolução vitoriosa, convocar o Parlamento que foi dissolvido pela Ditadura; ou antes, organizar um Governo Provisório com amplos poderes para governar um período determinado até à reunião do Futuro Parlamento, abrindo-se o período eleitoral em prazo previamente marcado. Votou-se por unanimidade que se organizasse um governo provisório. Concordaram com esta solução todos os exilados que se encontram em Aymonte, Vigo, Badajoz e Madrid. De Portugal temos tido opiniões no mesmíssimo sentido. Aqui, a deliberação foi tomada porque se partiu do princípio que é necessário proclamar a Segunda República e que, portanto, não há que atender ao que existiu anteriormente ..."

[Carta de Álvaro de Castro ao general Sousa Dias, in "O General Sousa Dias e as Revoltas Contra a Ditadura 1926-1931", por A. H. de Oliveira Marques, Dom Quixote, 1975]

J.M.M.

DEPORTADOS DA REVOLTA DE FEVEREIRO DE 1927


"Transporte 'Infante de Sagres'

Em 6 [6 de Março de 1927], saiu de Lisboa, às 16 H 45, transportando forças descritas no 'Século' de 17.
Chegou a Leixões às 13 H de 7, começando o desembarque às 14 H. - o qual se concluiu às 21 H 30. Entraram os prisioneiros para bordo, permanecendo em Leixões até ao dia 13 às 19 H; quando foi levantado ferro para Lisboa, ancorando a O. Da Torre de Belém às 10 H do dia 14.
às 21 H 40 do dia 17 levantamos de Lisboa com rumo ao Sul indo fundiar na Baía da Baleeira (Sagres) às 11 H 35 de 18. Levantamos ferro em 19, às 13 H, com ordem superior para o Comandante de bandeira perder de vista terra e só então caminhar para Norte (?). O Com.te explica que é por causa dos boatos que circulam em Lisboa, e, portanto, para que, ao longo da costa, não se consiga seguir o 'Infante de Sagres' - dando margem a boatos de revolta no navio (!!!...).
Fundeamos a O. Da Torre de Belém às 4 H 30 de 20. Efectuei transbordo para o 'Lourenço Marques' às 10 H 45 deste dia.
Às 15 H, o meu filho, com os pequenos, vieram visitar-me, sendo-lhe recusada a entrada pelo Com.te João Batista de Barros (um 2º ten. foi-lhe pedir dizendo-me que estava renitente)"

[A Deportação para S. Tomé (Notas do general Sousa Dias), in, "O General Sousa Dias e as Revoltas Contra a Ditadura 1926-1931", org. por A. H. de Oliveira Marques, Dom Quixote, 1975, p. 55.

FOTO - 'Deportados políticos. Lazareto, Funchal, Dezembro de 1927. O general Sousa Dias é o 4º (sentado) a contar da esquerda' - retirada do livro, com a devida vénia]

J.M.M.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

NEVES ANACLETO E A REVOLTA DE FEVEREIRO DE 1927


António Neves Anacleto, advogado, natural de S. Bartolomeu de Messines (Silves) publicou na sua obra A Longa Luta: preso, algemado e deportado, ed. do autor, s.d., com prefácio de António Almeida Santos algumas notas interessantes de memórias sobre a actividade oposicionista em Portugal e em Moçambique. O prefaciador menciona os vinte anos de amizade que o uniam a Neves Anacleto, ambos viveram em Moçambique, e, juntos se envolveram em campanhas de oposição ao governo da ditadura, quando fizeram parte da comissão, que naquela antiga colónia portuguesa, apoiou o General Humberto Delgado à presidência da República.
Porém, nesta altura o que nos interessa nesta obra são as referências que o autor faz ao seu envolvimento na Revolução de 3 e 7 de Fevereiro de 1927. Assim, entre as páginas 110 e 124, afirma:

Conspirava-se, mas com cautela. [...]
A contra-revolução estava marcada para 3 de Fevereiro e um dos subcomités, de que eu fazia parte, reuniu-se na habitação onde eu residia.
Do Porto já tínhamos a notícia da revolta dos quartéis com o general Sousa Dias à frente. Lá estavam Raul Proença, Jaime Cortesão e outros intelectuais. Mas, em Lisboa, os militares mantinham-se nos quartéis e nós esperávamos a todo o momento o sinal da sua vinda para a rua. Sobre isto o nosso subcomité recebia constantemente notícias desencontradas, pelo que não podíamos cumprir a missão que nos fora confiada. Durante todo o dia aguardámos a ordem certa, mas chegou a noite sem a havermos recebido. Como só a aceitaríamos de determinado canal, impunha-se-nos verificar as razões e as circunstâncias da falta de acção, pelo que os membros do nosso subcomité eram destacados alternadamente para recolha de notícias. [...]


Segundo Neves Anacleto, o exame de conclusão do curso de Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, decorreu no dia 4 de Fevereiro de 1927, quando decorria a revolta no Porto e se aguardava a decisão dos militares na capital.

P.S. - Lamentamos a fraca qualidade da imagem apresentada, mas era a única que tínhamos disponível.

A.A.B.M.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

[AINDA] A REVOLTA DO PORTO: O 3 DE FEVEREIRO DE 1927


"A revolta militar de 3 de Fevereiro de 1927 foi organizada por democratas nortenhos com a intenção de travar a marcha da Ditadura Militar saída do levantamento de 28 de Maio de 1926, nove meses antes. Com ela, dava-se início ao período que ficou conhecido como do reviralho, que, particularmente entre 1926 e 1940, procurou a reposição do regime democrático e das liberdades individuais e públicas.

À frente dos revoltosos do Porto estavam prestigiados militares e democratas, como o general Sousa Dias, o comandante Jaime de Morais, o capitão Sarmento Pimentel e o tenente João Pereira de Carvalho, ao lado dos quais se colocaram figuras gradas da república e da democracia, como Jaime Cortesão, capitão-médico à altura, e José Domingos dos Santos (...)

A revolta começou na madrugada daquele dia 3, com a saída do seu quartel, do Regimento de Caçadores 9, a que se juntou uma companhia da Guarda Republicana, aquartelada na Bela Vista; uma parte do Regimento de Cavalaria 6 de Penafiel, que, entretanto, chegara ao Porto; e vários núcleos de outros regimentos da cidade. No dia seguinte (...) vieram juntar-se aos revoltosos os militares do Regimento de Artilharia de Amarante.

Fiel ao Governo e, portanto, contra o movimento do general Sousa Dias, manteve-se parte bastante reduzida do Regimento de Infantaria 18, que tinha como comandante o coronel Raul Peres, o Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5, da Serra do Pilar (Gaia).

A GNR fizera saber, através do seu comandante, major Alves Viana, que se manteria neutral e garantia o policiamento da cidade "em defesa das vidas e dos haveres dos cidadãos ..." [ler mais, aqui]

[Germano Silva, in Jornal de Notícias, 3/02/2007. Na Foto, em cima, a artilharia "que fez fogo sobre o Porto", do alto do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia - in Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

JOÃO MARIA SARMENTO PIMENTEL (1888-1987)

"O capitão João Sarmento Pimentel não só foi testemunha como participou em alguns actos da tragi-comédia que se representou entre nós no decurso desse agitado período que vai desde a implantação da República em Portugal e dos anos conturbados que se lhe seguiram até à instauração da ditadura que o movimento militar de 28 de Maio de 1926 nos impôs. Acompanhou ou tomou parte, mesmo durante a sua permanência no Brasil, onde se exilou após o malogro da revolta militar que teve começo no Porto em 3 de Fevereiro de 1927 e foi tardiamente secundada pelas forças que em Lisboa tinham dado a sua adesão, comprometeu-se, como íamos dizendo, em todos os movimentos que se tentaram para derrubar o regime autocrático instituído em 28 de Maio e que Salazar consolidou e endureceu quando assumiu, mais tarde, a presidência do Conselho. Sarmento Pimentel lutou, depois, sem descanso, em todas as frentes, na Pátria e no exílio, pela palavra e pela acção, para ajudar a libertar o País do longo cativeiro que nos privou dos direitos inerentes à condição humana e acarretou outras calamidades que desacreditaram o sistema, criando-nos, deploravelmente, uma vergonhosa situação de povo tutelado ao qual foi negada a maioridade política ..."

[Norberto Lopes, in Sarmento Pimentel ou a uma Geração Traída, 1976]

Locais: João Maria Sarmento Pimentel / Sarmento Pimentel ou a uma Geração Traída / Biblioteca Municipal Sarmento Pimentel

J.M.M.

SARMENTO PIMENTEL E O FEVEREIRO DE 1927


"[Norberto Lopes] ... Em que circunstâncias tomou parte no 3 de Fevereiro?

- [Sarmento Pimentel] A convite de amigos e companheiros da Flandres. O Jaime Cortesão e o Jaime de Morais foram ao Porto falar comigo. Disse-lhes que só tomaria parte do movimento, se as coisas fossem organizadas com cabeça, se Lisboa secundasse o grito de revolta do Porto, onde tudo parecia estar bem preparado de modo a assegurar a vitória. Não aconteceu assim. Lisboa hesitou, não aderiu logo e a revolta falhou. Por culpa de quem? Dos conjurados de Lisboa, que não vieram logo para a rua, como estava combinado, e que comprometeram, assim, irremediavelmente, o levantamento do Norte. Por culpa dos tímidos, dos pusilânimes, dos cobardes e daqueles que viram que a revolução não servia os seus interesses, e, sendo republicanos, contrariaram o movimento. Arrependeram-se depois. Mas já era tarde. Quando o general Simas Machado me procurou, alegando que a minha adesão traria para o lado dos revolucionários dois amigos meus com influência decisiva na guarnição militar de Lisboa - o major Ribeiro de Carvalho e o capitão Francisco Aragão -, voltei a dizer que a revolta só podia triunfar se rebentasse simultaneamente em Lisboa e no Porto. Não aconteceu assim e a revolução perdeu-se. Ribeiro de Carvalho e Aragão não saíram, alegando que a revolta do Porto era nitidamente partidária, contra o exercito, e que, além disso, o momento não se prestava para tomarem qualquer atitude. Anos depois, tanto o Aragão, demitido e exilado, como o Ribeiro de Carvalho, que chegou a passar fome, tiveram a franqueza de me dizer que se haviam enganado e que a revolta do Porto se perdeu por falta de apoio dos republicanos de Lisboa. A capital acordou quatro dias depois, mas já não serviu de nada. Àquele levantamento tardio chamámos nós, mais tarde, 'a revolução do remorso'. Quando me encontrei com o Aragão no exílio, ele caiu-me nos braços a chorar, dizendo: 'Tu é que tinhas razão!' E eu limitei-me a responder-lhe: 'Agora é tarde e Inês é morta', como se dizia em Suçães quando se representava o drama da mísera e mesquinha ..."

[in Sarmento Pimentel ou uma Geração Traída. Diálogos de Norberto Lopes com o autor das ‘Memorias do Capitão’ pref. de Vitorino Nemésio, Áster, 1976 - sublinhados nossos]

J.M.M.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

PRISIONEIROS - FEVEREIRO DE 1927


Fevereiro de 1927 - Condução de presos para o Arsenal

[in, Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

AINDA A REVOLTA DE FEVEREIRO DE 1927: OS MILITARES DE AVEIRO



Segundo o jornal O Democrata, semanário republicano de Aveiro, datado de 12 de Fevereiro de 1927, apresenta a seguinte notícia que pode ser confirmada aqui, na página 2, coluna 1 e 2, refere as baixas militares, em causa as baixas em cavalaria, registadas nos regimentos de Aveiro (Regimento de Cavalaria nº 8 e Regimento de Infantaria nº 19)que colaboraram na repressão da revolta do Porto.

A.A.B.M.

REVOLTA DE FEVEREIRO DE 1927


Revolta de Fevereiro de 1927

"Parlamentários dos revolucionários, o comandante Jaime Morais e o major Severino vendados a caminho do quartel general do Ministro da Guerra, tenente-coronel Passos e Sousa, instalado num prédio da Avenida das Devezas, em Fevereiro de 1927" [foto Arquivo Fotográfico]

J.M.M.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

EFEMÉRIDES DE FEVEREIRO I

Dia 1

1849 - Nasce em Lisboa, o escritor e Par do Reino, vereador municipal em Lisboa e adepto das ideias republicanas Anselmo Braamcamp Freire.

1878 - Sai em Coimbra o 1º número do jornal republicano A Justiça.

1878 - Realiza-se o Congresso Nacional Socialista, na cidade do Porto.

1886 - A Associação Anti-Jesuítica resolve convidar o jornal A Ideia Nova, de Barcelos, a realizar um comício para representar às Cortes pedindo a execução das leis do país acerca das congregações religiosas.


1907- Partem de Lisboa os Drs. António José de ALmeida e Bernardino Machado para tomar parte em comícios em Constância, Vila Nova da Barquinha e Abrantes.


1908 - Regicídio de D. Carlos. No regresso de Vila Viçosa é morto a tiro no Terreiro do Paço o rei D. Carlos, que na véspera assinara o decreto contra os que procuravam defender a Pátria e a liberdade. Na mesma ocasião é morto seu filho D. Luís Filipe, herdeiro do trono. Caem, abatidos pelas balas da polícia os dois regicidas, Manuel Buiça e Alfredo Luís da Costa, e um popular que nada tinha a ver com os acontecimentos, de nome João Sabino da Costa.

Dia 2

1856 - Nasce Henrique Lopes de Mendonça, dramaturgo e autor da letra do Hino Nacional : A Portuguesa.


1872 - Nasce em Quintãs, Tomé de Barros Queirós, político republicano.

1882 - Sai em Tomar o 1º número do semanário republicano A Emancipação.

1900 - Realiza-se, no Porto, um comício presidido pelo Dr. Nunes da Ponte, de protesto contra a exclusão do Parlamento do legítimos representantes do Porto, deputados republicanos, pelo Tribunal de Verificação de Poderes.

1907 - Morre no Porto, o democrata e antigo companheiro de José Fontana, Conceição Fernandes.

1907 - Realizam-se em Constância, Barquinha e Constância importantes comícios republicanos onde discursam Bernardino Machado, António José de Almeida, Ramiro Guedes, Anselmo Xavier, etc.

Dia 3

1882 - A Academia de Coimbra resolve, para comemorar o Centenário do Marquês de Pombal, pedir o estabelecimento da liberdade de ensino, a substituição da faculdade de Teologia por uma de Letras, e a celebração das festas religiosas, independentemente, do corpo docente que manda dizer missas.

1897 - Reunem-se os estudantes republicanos de Lisboa para organizarem um Grémio Académico Democrático.

1897 - Morre o médico Eduardo Maia, que é enterrado civilmente.

1903 - Reune-se a comissão eleitoral republicana da freguesia das Mercês (Lisboa).

Dia 4

1879 - Realiza-se o primeiro Registo Civil de nascimento no 1º bairro do Porto, de um filho de José Vianna Quintella e Maria Silva Lopes, que recebeu o nome de Trajano.

1881 - Nasce João de Barros, na Figueira da Foz, poeta, jornalista e Ministro da Educação durante a República.

1891 - Entra na cadeia da relação do Porto o capitão Leitão, um dos principais implicados no movimento do 31 de Janeiro.

1892 - Sai do Limoeiro, onde cumpriu a pena de seis meses de prisão, o jornalista, escritor e propagandista do livre pensamento, Heliodoro Salgado, autor de diversas obras como: Culto da Imaculada Conceição e tradução da obra de Malvert, Ciência e Religião.

1895 - No Barreiro, nasce Henrique Galvão, oficial de Marinha e escritor que se destacou na oposição ao Estado Novo.

1905 - Registam-se tumultos em Lisboa, por ocasião da chegada de Bernardino Machado.

1906 - Parte de Coimbra o Dr. Bernardino Machado, vindo a Lisboa para presidir à sessão solene do 6º aniversário da Escola 31 de Janeiro.

Dia 5

1881 - Manifestação de livres pensadores em Grandola, acompanhando ao cemitério Felisbella das Dores Logrifa, que foi enterrada civilmente.


1896 - É publicado o notável livro do poeta Guerra Junqueiro, A Pátria.

1906 - Encerra a Câmara dos Pares entre grandes protestos a propósito do escândalo dos Tabacos.

Dia 6

1890 - Antero de Quental chega ao Porto para assumir a presidência da Liga Patriótica do Norte.

1907 - O Dr. Afonso Costa profere um importante discurso na Câmara dos Deputados sobre a questão do descanso semanal.

1908 - O Mundo publica a primeira lista de subscrição para apoiar os filhos do professor Buíça, abatido pela polícia aquando do regicídio.

1908 - São postos em liberdade Afonso Costa, João Chagas, António José de Almeida, Alfredo Leal, Visconde de Ribeira Brava, França Borges, Egas Moniz e outros presos políticos que foram mantidos incomunicáveis durante vários dias na cadeia de Caxias.

Dia 7

1892 - Sai da cadeia do Limoeiro, depois de ter cumprido três meses de prisão, por suposto crime de liberdade de imprensa, o Dr. João de Menezes.

1906 - Reune a comissão republicana do Beato (Lisboa).

Dia 8

1878 - Sai em Coimbra o número-programa do semanário republicano O Partido do Povo.

1891 - Sai da cadeia da relação do Porto, Gonçalves Cruz, redactor do jornal O 31 de Janeiro. Tinha sido condenado a seis meses de prisão por suposto abuso de liberdade de imprensa.

1897 - Morre no Sabugal, o ex-sargento da revolta republicana do Porto de 1891, José Maria Diniz.

1897 - Reune o Directório do Partido Republicano, resolvendo a continuação da abstenção eleitoral.

Dia 9

1906 - Os estudantes republicanos de Coimbra protestam contra a prepotência de que foi vítima o secretário da Universdade Dr. Cerqueira Coimbra.

Dia 10

1882 - Realiza-se o primeiro Registo Civil em Lagos.

1883 - Sai em Luanda o 1º número do semanário republicano O Farol do Povo.

1906 - Reunem o Centro Rodrigues de Freitas, Grémio Comercial Democrático e Comissão Paroquial Republicana de Santo André e S. Vicente.

1910 - Início da publicação da Alma Nacional, semanário republicano dirigido por António José de Almeida.

Dia 11

1880 - Nasce, no Peso da Régua, Augusto Tito de Morais, oficial de Marinha e político republicano.

1886 - Morre em Lisboa e é enterrado civilmente o poeta operário Dionisio Sampaio.

1888 - Sai o jornal republicano A Luta, publicado no Funchal, órgão do Partido Republicano da Madeira.

1889 - Regista-se no Porto uma pequena tentativa de revolta republicana.

1890 - Por levantarem vivas à liberdade e à Patria são presos no Rossio, e pouco depois metidos no porão do navio Vasco da Gama, os Drs. Manuel de Arriaga e Jacinto Nunes.

1906 - Reunem a Comissão Organizadora do Centro Republicano Botto Machado e a Comissão Paroquial Republicana da freguesia do Sacramento.

1908 - De madrugada, são sepultados no cemitério do Alto de S. João, os cadáveres do professor Buíça e de Alfredo Luís da Costa, mortos pela Polícia na tarde de 1 de Fevereiro. Ao enterramento, realizado no maior secretismo, assistem apenas dois representantes do Mundo e guardas da polícia.

Dia 12

1883 - Instala-se em Évora, em casa de Bernardo de Matos, o Centro Eleitoral Democrático Eborense.

1906 - O empresário do Teatro do Príncipe Real é intimado a substituír o guarda-roupa do quadro da revista do ano ali em cena, intitulada O Tribunal do Santo Ofício.

1908 - Chega a Lisboa, o visconde de Pedralva, preso em Espanha à ordem de João Franco.

Dia 13

1871 - Realiza-se em Lisboa o primeiro casamento civil entre Alexandre António Alves e Andreza Maria da Conceição.

1903 - Morre o jornalista portuense João César Pinto Guimarães.

Dia 14

1856 - Nasce no Porto, Basílio Teles,economista, escritor e propagandista do Partido Republicano.

1876 - Nasce João Maria Ferreira do Amaral, oficial do exército e reorganizador da Polícia durante a República.

1894 - Morre no Rio de Janeiro, o jornalista Crispiano da Fonseca, companheiro de Higino de Sousa na Pátria.

1900 - O Dr. Higino de Sousa, após concurso público, é nomeado lente da Escola Médica de Lisboa.

A.A.B.M.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

SOUSA DIAS: " O RESISTENTE QUE FEZ TREMER A DITADURA"


"... O General Sousa Dias encontrava‑se no Porto, sob prisão e com baixa no Hospital Militar, quando eclodiu naquela cidade a revolta militar de 3 de Fevereiro de 1927, iniciada com a saída, pelas 04h30, do Regimento de Caçadores 9, seguido por uma Companhia da Cavalaria 6 e outra de Infantaria 18, por forças de Sapadores Mineiros e da GNR da Bela Vista, parte da Polícia Civil do Porto e muitos civis armados. Não considerando as prematuras e pontuais tentativas de revolta militar de 11 de Setembro, em Chaves, e de 21 do mesmo mês, em Lisboa, pode considerar‑se que o movimento de 3 de Fevereiro foi o primeiro, e o único, a constituir uma verdadeira ameaça para o novo regime emergente. Sendo um dos mais prestigiados generais opositores ao novo regime, Sousa Dias foi convidado pelos revoltosos a assumir a chefia da revolta, comando que de imediato aceitou.

O Comité Militar Revolucionário então formado integrava outras figuras de republicanos ilustres, como o Coronel Fernando Freiria, José Domingues dos Santos, o Comandante Jaime Morais, o Capitão‑médico Jaime Cortesão e o Capitão Sarmento Pimentel. Os propósitos da revolta são claramente expressos no manifesto «Ao Povo Português», assinado e divulgado por aquele comité:

'Os oficiais revoltosos decidiram reintegrar o País dentro do regimen democrático constitucional, com a formação de um Governo Nacional que afirmasse a supremacia do poder civil, guardado e defendido pela força armada, que assim teria restituído as funções de que a desviaram' ..." [ler todo o texto, aqui]

[Augusto José Monteiro Valente, in Em Memória do General Adalberto Gastão de Sousa Dias, Revista Militar, Dezembro 2005]

J.M.M.

A IMPRENSA CLANDESTINA [1926-1928]




Imprensa clandestina [1926-1928]

1926

- O Libelo, Lisboa, nº1 (Out. 1926) ao nº 8 (23 Agosto 1927). Director 'Doutor X' e redactor 'Libert Bell'.

- A Revolta (1ª série), Lisboa, nº 1 (2 Nov. 1926) a nº 3 (5 Dez. 1926). Colab. de Álvaro de Castro.

- O Pelourinho, Lisboa, nº 1 (21 Nov. 1926) a nº 2 (9 Dez. 1926). Era impresso nas oficinas gráficas da Biblioteca Nacional.

1927

- A Revolução, Lisboa, nº 1 (único?, 20 Jan 1927).

- Avante!, Lisboa, nº 1 (único?, 4 Fev. 1927).

- A Revolta (2ª série), Lisboa-Paris, nº1-2 (23/30 Abr.1927) ao nº 7-8 (5 Out. 1927). O nº 6 (Agosto de 1927) é editado em Paris, com "textos de António Sérgio, Álvaro de Castro, Lopes Martins, Gumercindo Soares, Afonso Costa, Jaime Morais, Bernardino Machado, Pina de Morais, Américo Buisel". Era órgão da Liga da Defesa da República.

- O Rancho, Lisboa, nº 1 (Jun. 1927).

- O Dever, Lisboa, nº 1 (22 Jul. 1927).

- A Lanterna, Lisboa, nº 1 (25 Jul. 1927) ao nº 2 (1 Ag. 1927).

- O Reviralho, Lisboa, nº 1 (Ag. 1927) ao nº 7 (Dez. 1927). A partir do nº 2 (20 de Agosto 1927), "passa a órgão do Comité de Defesa da República".

- Rebelião, Lisboa, nº 1 (18 Ag. 1927) ao nº 2 (4 Set. 1927). Órgão do grupo "Rebelião".

- O Chicote, Lisboa, nº 1 (Ag. 1927).

- O Facho, Porto, nº 1 (Ag. 1927) ao nº 3 (Set. 1927). Com subtítulo: 'Um por todos, todos pela República'.

- O Rebelde, Lisboa, nº 1 (10 Nov. 1927) ao nº 3 (20 Dez. 1927).

- A Victoria, nº 1 (Nov. 1927) ao nº 2 (19 Nov. 1927).

1928

- O Combate, Portugal, nº 1 (Jan. 1928).

- Fogo Vivo, Lisboa, nº 1 (7 Fev. 1928). Subtítulo: 'Panfleto contra a tirania'.

- A Camorra, Lisboa, nº 1 (Abr. 1928).

Fonte: A. H. de Oliveira Marques, A Literatura Clandestina em Portugal 1926-1932, Ed. Fragmentos, 1990

J.M.M.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

BENTO GONÇALVES E O "REVIRALHISMO"



A propósito do Colóquio, "A Revolução de Fevereiro de 1927 contra a ditadura: oitenta anos depois", foi dito, aqui, que haveria "muitas questões por esclarecer". Uma delas referia-se ao modo como os comunistas (PCP) olharam esse acontecimento. Ora, num texto policopiado, datado de Setembro de 1969 e que circulou clandestinamente no país, de autoria de Bento Gonçalves, intitulado "Elementos para a História do Movimento Operário Português" [desconhecemos quem a editou ou que organização a apadrinhou, mas trata-se do livro de Bento Gonçalves saído em 1973 (antes em 1969), na Editorial Inova mas sob responsabilidade de Virgínia de Moura, com o título "Palavras Necessárias. A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927”". Aliás, conforme está expresso nas sucessivas notas em ulteriores edições, também sob edição da Inova, a sua origem é bem curiosa], lê-se:

"... Até Março de 1927, o Partido [PCP] não em história. A gente de Rates

[Carlos Rates (?-1945), trabalhador rural e antigo militante operário sindicalista, tem a cargo a "responsabilidade" do partido "nos começos do Verão de 1924". Após as divergências entre o grupo Caetano de Sousa-José de Sousa e o grupo denominado "Ratistas" se agravarem, o delegado da I.C. para Portugal, Humberto-Droz, decide a favor do grupo de Rates. A teorização e doutrinação politica torna-se crucial para o "esperançoso" dirigente comunista. Assim, Rates assume como tarefa teórica importante tratar a questão agrícola, ao mesmo tempo que reflecte sobre a questão colonial (em que preconiza a venda das colónias, para efeitos de futuro investimento agrícola e comercial). De outro modo, face às insinuações existentes, refuta publicamente qualquer ligação do PCP com a "Legião Vermelha". Ao mesmo tempo mantêm "guerra" aberta com a CGT e avança numa coligação eleitoral com a "Esquerda Democrática" (onde não consegue qualquer deputado). Entretanto, face à derrota eleitoral e política havida - diz-nos Bento Gonçalves - a "debandada" começava no Partido. O próprio Rates abandona a Maçonaria (Rates foi "regularizado em 1922 na Loja Renascença, com o nome simbólico de Babeuf" - infª de Oliveira Marques) e, depois do convite do jornal O Século, afasta-se do PCP, em 1925. Em 1931 adere à União Nacional, apresentando nas páginas do Diário da Manhã, de 16/07/31, as razões que o motivaram. Morre em 1945]

foi quem lá ficou (...)

... desde que Rates abandonou o Partido até Março de 1927, a actividade comunista não era notada porque, na realidade, não existia. Apenas em 7 de Fevereiro, quando se deu o primeiro ‘putsch’ contra a ditadura fascista, o Partido publicou um manifesto convidando os trabalhadores a persistirem na luta – a não abandonarem as armas – até que o ‘putsch’ ficasse vitorioso. A incapacidade dos dirigentes do Partido era tal que foi preciso que elementos não dirigentes lhes houvessem lembrado a necessidade da publicação referida. Foram esses elementos, com José de Sousa à cabeça, quem editou e fez circular o citado manifesto ..."

[Bento Gonçalves, in Elementos para a Historia do Movimento Operário Português, aliás in Palavras Necessárias, 1974]

J.M.M.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

AINDA A REVOLTA DE FEVEREIRO DE 1927: OS ACONTECIMENTOS NO ALGARVE

No dia 4 de Fevereiro de 1927, rebenta a revolta no Algarve. Ao largo de Faro, a canhoneira Bengo, comandada pelo 1º tenente Sebastião José da Costa e tendo a bordo o comité revolucionário constituído ainda pelo Dr. Manuel Pedro Guerreiro e o Dr. Victor Castro da Fonseca, começa a bombardear a cidade de Faro. Estes seriam os principais elementos revoltosos que comandavam alguns militares da marinha, da GNR, elementos do regimento de caçadores nº 4, de Tavira e algumas dezenas de civis.

Esta revolta começou cerca das três horas e meia da tarde de dia 4 e continuaram pela noite dentro até cerca da uma hora da madrugada de dia 5. Os principais alvos desta revolta foram a estação do caminho-de-ferro, o quartel do regimento de infantaria nº 15 e a estação de telegrafia sem fios.

Segundo a imprensa da época foram disparados 58 tiros contra os alvos supra referidos causando elevados estragos pela cidade de Faro, em particular o quartel. Foram feridos três cidadãos e registou-se um morto.

As forças fiéis ao Governo, especialmente os elementos do regimento de infantaria nº 15, ofereceram grande resistência. Destacou-se nesta operação de repressão da revolta o tenente do exército Manuel Caetano de Sousa, que já tinha colaborado com o movimento do 28 de Maio de 1926. No dia 5 e 6 de Fevereiro iniciam-se as prisões dos implicados e dos presumíveis implicados na revolta. Sebastião José da Costa só foi detido alguns dias após estes acontecimentos, no dia 9 de Fevereiro, quando a polícia e os militares o encontraram escondido em casa da Torre, pertencente a Filipe Celorico Drago Madeira, na freguesia de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António.

Segue-se então uma simples listagem [certamente incompleta e com muitos elementos omissos, mas feita com base nas informações recolhidos junto da imprensa diária da época] de alguns dos elementos que foram presos como implicados na revolta de 1927, no Algarve:
- Francisco Augusto Ramos, ourives - Olhão;
- Victor Castro da Fonseca, notário - Faro;
- Manuel Pedro Guerreiro, conservador do registo civil - Faro;
- tenente Francisco Ribeiro, oficial de infantaria - Faro;
- tenente Catarino, oficial de GNR - Faro;
- tenente Costa Pereira, oficial do exército - Faro;
- alferes reformado António Manuel;
- sargento-ajudante Encarnação;
- Artur Francisco Neves, professor da Escola Primária Superior;
- capitão Eduardo Santos, oficial da Guarda Fiscal;
- 1º tenente Prestes Salgueiro, oficial da marinha, capitão do Porto de Vila Real de Santo António;
- João da Conceição Almeida Carrapato, comerciante - Faro;
- Francisco Tavares Belo, funcionário público - Faro;
- José Gonçalves Lopes, industrial - Faro;
- Francisco António Alves - Faro;
- Francisco Tibúrcio, empregado no comércio - Algarve [onde ???];
- Raúl Cruz, empregado no comércio - Faro;
- Francisco Mascarenhas Rocha, marítimo- Faro;
- Francisco Costa Lobo, funcionário público - Faro;
- José António Coelho, comerciante - Faro;
- Joaquim Bráz, sapateiro - Faro;
- João dos Mártires Barradas, sapateiro - Algarve [onde ???]
- Carlos Silva Paulo, funcionário público - Faro;
- José Vital, carpinteiro - Faro;
- Emídio Lapinha, ferroviário - Faro;
- Manuel Fonseca, ferroviário - Faro;
- José Tavares Gonçalves, ferroviário - Faro;
- Joaquim António Coelho, ferroviário - Faro;
- Francisco Ernesto Goes, proprietário - Faro;
- José da Piedade, trabalhador - Faro;
- José Nunes da Silva, funcionário público - Faro;
- Francisco António Ramos - Faro;
- João Bráz Costa, criado de mesa - Faro;
- Luís Mendonça Vasques - Faro;
- João Modesto, pedreiro Faro;
- Sebastião Ferreira, sapateiro - Faro;
- Zacarias Guerreiro, antigo deputado pelo PRP- Tavira;
- Francisco Monteiro Entrudo, comerciante - Tavira;
- Joaquim Pires Cruz, proprietário - Tavira;
- Dr. Frederico António de Abreu Chagas, conservador do Registo Civil-Tavira;
- João Gabriel Alegre, pedreiro - Tavira;
- Sebastião Carlos de Jesus, industrial - Tavira;
- Luís dos Santos Sacramento Pereira, sapateiro - Tavira;
- José Joaquim Cândido, marítimo - Algarve [onde???];
- Angelo dos Santos, marítimo - Algarve [onde ???];
- Francisco Possidónio, marítimo - Algarve [onde???];
- Rosário Francisco Lourenço, ferroviário - Algarve [onde ???];
- Francisco Rosa, ferroviário - Algarve [onde ???];
- José Bernardo Pinto Júnior, ferroviário - Algarve [onde ???];
- António das Dores Almeida, pedreiro - Algarve [onde ???];
- Eduardo da Cruz Carepa, marceneiro - Tavira;
- José Francisco Patarata, ferroviário - Algarve [onde ???];
- José Gonçalves Café, ferroviário - Algarve [onde ???];
- Francisco do Rosário, proprietário - Algarve [onde ???];
- Alberto Inácio Lopes, funcionário público - Algarve [onde ???];
- Albino Coelho, funcionário público - Algarve [onde ???];
- José Silvestre Cavaco, proprietário - Algarve [onde ???];
- Armando Luís Veiga, barbeiro - Algarve [onde ???];
- Francisco António Alves Faria, barbeiro - Algarve [onde ???];
- Alexandrino Ramos Cachola, sapateiro - Algarve [onde ???];
- António Gomes Páscoa, sapateiro - Algarve [onde ???].

Segundo se dizia eram 174 detidos: entre eles 61 praças e cabos da GNR, 51 civis, 47 soldados do regimento de caçadores nº 4 e 13 marinheiros que chegaram à Penitenciária de Lisboa no dia 20 de Fevereiro de 1927.

Os acontecimentos tiveram algum impacto na cidade de Faro e de Tavira, no resto da região o exército permanceu fiel à Ditadura Militar e os revoltosos acabaram por se render em pouco tempo. A falta de meios, a superioridade das forças militares fiéis à situação, alguma desorganização e, sobretudo, a ausência de grande envolvimento de militares graduados e de elementos populares condicionaram logo à partida a revolta, que também não foi despoletada ao mesmo tempo em Lisboa, como os revoltosos certamente esperariam.

A.A.B.M.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

A REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO DE 1927


A Revolução de Fevereiro de 1927 contra a ditadura: oitenta anos depois

Realizou-se ontem, pelas 15 horas, no Arquivo da Universidade de Coimbra, o colóquio supra-referido, com o objectivo de assinalar a data da revolta militar no Porto contra a Ditadura Militar. Numa sala que se revelou pequena para a assistência, o que revela o interesse por este assunto, foi possível assistir a um conjunto de interessantes comunicações por parte de alguns reputados especialistas na matéria.

O primeiro painel, coordenado pelo Prof. Dr. Luís Reis Torgal, Director do CEIS 20 [em final de mandato], começou por saudar todos os presentes, e por lançar um voto de pesar pelo recente falecimento do Prof. Oliveira Marques, no que foi acompanhado pelos restantes membros da mesa.

De seguida, apresentou o seu texto o Prof. Dr. Fernando Rosas, que apresentou uma reflexão sobre o conceito de Reviralho. Este reputado especialista no Estado Novo, começou por salientar como o reviralhismo, durante o regime ditatorial, foi considerado algo negativo, pois era associado a desordem. Traçou um quadro com as principais revoltas que marcam o período entre Maio de 1926 e 1933, onde ao contrário do que a historiografia do Estado Novo tentou fazer crer, não foi nada fácil consolidar o regime que Oliveira Salazar dirigiu durante quase meio século. Fernando Rosas considera mesmo que entre 1926 e 1931, época em que o reviralhismo foi mais activo, o País viveu um período de guerra civil intermitente.
A partir da tentativa revolucionária de 26 de Maio de 1931, o reviralhismo entra numa fase de agonia. O processo de liquidação da República estava concluído, alguns dos principais intervenientes tinham sido mortos durante as revoltas, outros foram presos, outros ainda deportados e muitos partiram para exílios mais ou menos longos em diversos países. Na opinião deste historiador, o reviralhismo desaparece completamente em 1940, quando a Alemanha invade a França, e, alguns dos refugiados políticos portugueses se vêem obrigados a "baixar bandeiras" para poderem regressar à Pátria.
Desta conferência ressaltam cinco grandes conclusões:
- o reviralhismo, mais que o comunismo, nesta fase, foi o principal inimigo da Ditadura Militar;
- com a vitória da Ditadura Militar, nestas revoltas, Oliveira Salazar vai consolidando a posição para tomar conta do poder no País;
- a Ditadura Militar, apesar das suas divisões internas, dos seus conflitos de interesses, consegue manter o controlo sobre o grosso das forças armadas;
- as sucessivas derrotas do reviralho, tanto no plano político como militar, até meados dos anos trinta do século XX, vão fortalecer cada vez mais a Ditadura Militar;
- o reviralhismo ainda é, muitas vezes, encarado como uma página esquecida da nossa história, porque a história feita pelos vencedores aponta, em especial, no sentido da força hegemónica do Partido Comunista Português, que foi o principal foco de resistência organizada ao Estado Novo.

A segunda conferência, apresentada pelo Doutor Luís Farinha, abordava a temática das revoltas republicanas contra a Ditadura Militar. Segundo o professor Luís Farinha, dentro do reviralhismo era possível encontrar dois tipos de facções republicanas: os conservadores ou moderados e os revolucionários ou radicais. Estes republicanos revolucionários estabeleceram uma estreita rede de contactos, em particular com Espanha. Outro dos aspectos salientados foi que quase todos estes homens, pelo menos os que apareceram a liderar os processos de revolta, tinham ligações maçónicas. Por outro lado, as tendências que compõem este movimento são muito variadas, íam desde a Esquerda Democrática (José Domingues dos Santos}, alvaristas (seguidores de Álvaro de Castro) e Seareiros (Jaime Cortesão). Estes republicanos traçam um programa mínimo com dados ao nível da justiça social, das reformas estruturais, com o objectivo de restabelecer a confiança no regime republicano. Porém, afastavam-se do Partido Democrático e ao tentarem fazer uma transição entre 1927, com a Liga de Paris e 1930 não conseguiram os resultados desejados. Entre os elementos ligados ao movimento reviralhista cresciam as tensões entre os revolucionários, no exílio em França (Liga de Paris), e os moderados em Portugal (liderados por Cunha Leal). Numa fase posterior, tendo alguns apoios junto da 2ª República Espanhola, os republicanos portugueses fundam a Frente Popular Portuguesa, que chega a elaborar um programa de governo, porém a eclosão da Guerra Civil de Espanha entre 1936 e 1939, termina com mais esta tentativa fracassada. Luís Farinha terminou a sua reflexão concluindo que alguns dos republicanos revolucionários foram evoluindo nas suas posições acabando por aderir a uma tendência socialista ou socializante, mas sempre na defesa das causas da República.

A terceira apresentação coube ao Major General Augusto Valente, que apresentou os traços biográficos do General Adalberto Gastão de Sousa Dias, comandante militar da revolta de Fevereiro de 1927, no Porto e de Abril de 1931, na Madeira. Augusto Valente sublinhou o facto de Sousa Dias ter sido, logo no 28 de Maio de 1926, o único comandante militar regional a tentar opôr-se a Gomes da Costa. Na opinião deste biógrafo de Sousa Dias, o militar estaria muito próximo dos ideais republicanos desde o 31 de Janeiro de 1891, mas nunca afirmou publicamente os seus ideais políticos. Foi eleito uma única vez, como deputado independente, em 1921, pelo Partido Democrático , no círculo do Porto. Procurou manter sempre coerência nas suas decisões políticas, tendo colaborado no combate à segunda invasão monárquica, contra Paiva Couceiro, ao lado do qual alinhava um irmão de Sousa Dias [Mário Sousa Dias]; manifesta a sua oposição ao Movimento das Espadas; opõe-se à ditadura de Sidónio Pais e é preso; em 1919, recusa submeter-se à Monarquia do Norte. Um dos aspectos interessantes e novos que Augusto Valente apresentou foi a comparação feita entre a revolta de 1927 e a que tinha ocorrido a 14 de Maio de 1915, em que mostra a crença que os homens envolvidos na revolta do Porto sentiam que os seus camaradas se revoltariam como eles e venceriam a Ditadura Militar. Porém, as hesitações dos camaradas de Lisboa em pegar em armas contra o regime instituído enfraqueceu muito os revoltosos que, após largos combates, bombardeamentos, mortos e feridos acabaram por se render. Sousa Dias esperava reforços militares vindos do sul que nunca chegaram a aparecer, pois a revolta em Lisboa só arranca a 7 de Fevereiro, quando os revoltosos do Porto já muito abatidos e derrotados pela força da artilharia afecta ao regime os consegue obrigar à capitulação. Outro dos aspectos curiosos foi o facto de esta revolta estar programada para acontecer aquando das comemorações do 31 de Janeiro, mas os atrasos e hesitações atrás referidas acabaram por atrasá-la para 3 de Fevereiro.

Após a realização de um breve intervalo seguiu-se o segundo painel, coordenado pela Prof. Drª. Manuela Tavares Ribeiro. O orador convidado era o Prof. Dr. António Reis, que reflectiu acerca da participação de Raúl Proença e da revista Seara Nova na revolta de Fevereiro de 1927. Segundo este ilustre orador, Raúl Proença teve uma intervenção activa nesta revolta, foi conspirador, organizador e combatente de armas na mão. Através do estudo do espólio de Raúl Proença, especialmente a correspondência e as notas que tomava nos seus cadernos de apontamentos, ficamos a saber que, em 25 de Junho de 1926, isto é, um mês depois do golpe de 28 de Maio já se trabalhava em preparar uma revolta contra a Ditadura Militar. Quem liderava o processo era o denominado grupo da Biblioteca Nacional, onde trabalhavam Raúl Proença, Jaime Cortesão, David Ferreira que também tinham fortes ligações à Seara Nova. A 21 de Janeiro de 1927, Raúl Proença parte para a cidade do Porto, para servir como elemento de ligação. Profundamente envolvido na revolta, Raúl Proença convoca os civis para combaterem ao lado dos revoltosos, mas com pouco sucesso. Na noite de 6 de Fevereiro de 1927 regressa a Lisboa para pedir auxílio e para tentar ajudar a desencadear a revolta que começava a enfrentar sérias dificuldades no Porto. De acordo com António Reis, o fracasso desta revolta permite retirar quatro conclusões fundamentais:
- fortaleceu-se o sector anti-liberal dentro da Ditadura Militar;
- os sectores moderados entre os republicanos sentiram a necessidade de se unirem para tentar combater a Ditadura Militar;
- tornava-se cada vez mais patente a necessidade de reforma profunda do parlamentarismo;
- vence a estratégia de tradição revolucionária, seja com movimentos e actividades internas seja a partir do exterior.
Na opinião do Prof. António Reis, a derrota da revolta, o conjunto de dissabores que provocam em Raúl Proença, são factores que explicam a frustração crescente daquele que combateu de todas as formas que era capaz um regime e que nunca viu vencer as suas ideias e que, conclui, acaba por enlouquecer em finais de 1931, quando o regime ditatorial ía consolidando o seu poder.

O palestrante seguinte era o Mestre Luís Bigotte Chorão que apresentou alguns dados de uma pesquisa ainda em curso sobre o processo judicial do general Sousa Dias e do coronel Fernando Freiria. Através da pesquisa realizada até agora na correspondência daquele que foi escolhido para elaborar este processo de recurso, o então jovem advogado Adelino da Palma Carlos, natural de Faro, e mais tarde primeiro-ministro do I Governo após o 25 de Abril de 1974, foi possível perceber a argumentação utilizada para conseguir obter provimento do recurso apresentado. Nesse espólio encontra-se todo o tipo de documentação que permite conhecer a os vários passos seguidos na elaboração do processo, os despachos, os esclarecimentos, as inquirições realizadas, as testemunhas ouvidas, entre muitas outras coisas. Segundo Bigotte Chorão, a argumentação de Palma Carlos para conseguir obter provimento do processo teve que recorrer à Constituição de 1911, demonstrando que a Ditadura Militar se encontrava numa situação de ilegalidade, porque não havia eleições, nem funcionavam as câmaras legislativas, portanto a lei que condenava os revoltosos não se podia aplicar naquela situação, porque eles reivindicavam no seu programa a reposição da Constituição. Face à argumentação desenvolvida e à evocação da ilegalidade da situação vigente os acusados na revolta de Fevereiro viram o seu processo conseguir provimento a 6 de Fevereiro de 1929, sendo os militares reintegrados nos respectivos postos e funções com as regalias que lhes competiam. Concluindo, Luís Bigotte Chorão, reafirma aquilo que outros oradores já tinham referido: a vitória da facção mais favorável à tomada do poder por Oliveira Salazar foi providencial, pois conseguiu enfraquecer claramente os que reivindicavam o regresso à legalidade constitucional, daí que se torne necessário eleborar uma nova constituição, favorável aos seus interesses, que irá surgir em 1933.

Para finalizar, a principal responsável pela organização deste colóquio, a Doutora Heloísa Paulo, apresentou um interessante estudo intitulado Da Revolução ao Exílio: trajectórias de vida e de combate. Começa por elencar todo um conjunto de personalidades que estiveram na revolta e que são obrigadas a partir para o exílio: Jaime Cortesão, Nuno Cruz, Sarmento Pimentel, Francisco Oliveira Pio, Moura Pinto, Carneiro Franco, Jaime de Morais e muitos mais. Entre estes homens encontra laços e ligações comuns: a universidade, militares, a presença nas colónias, a Maçonaria, o exílio em Espanha, na França e no Brasil. Muito curiosa a rede de contactos de alguns destes resistentes ao fascismo em Portugal, eles tentam elaborar um plano de acção para derrubar o regime a partir do exterior: o Plano Lusitânia. Estabelecem contactos em França, junto do Partido Socialista; em Espanha, junto de vários membros do Governo da 2ª República; na Grã-Bretanha, em particular junto do Partido Trabalhista; mesmo nos EUA existiam contactos com opositores ao regime. Destacou-se particularmente o trabalho desenvolvido por alguns homens que estão hoje muito esquecidos como: Inocêncio Câmara Pires, Abílio Águas, Raul Monteiro Guimarães, Tomé Feteira, entre muitos outros. Heloísa Paulo chamou a atenção para a necessidade de se estudar a acção destes homens, que envolvimento tiveram, qual o seu percurso, onde andam os seus descendentes e os seus documentos. Como era importante conhecer melhor a acção de oposição dos exilados em Argel, na Venezuela, na Argentina, no México, nos EUA e pelo mundo fora. Muitos foram aqueles que ajudaram na luta contra o fascismo em Portugal, mesmo não sendo comunistas, como era importante descobrir a sua acção!!!

Um dos aspectos em que o colóquio pouco avançou, devido ao pouco tempo disponível para a sua realização, foi na participação do elemento civil na revolta de Fevereiro de 1927. Por outro lado, ainda que levemente aflorado ficam ainda muitas questões por esclarecer: a revolta só teve eco em Lisboa e no Porto, e no resto do País? O problema da participação dos comunistas neste movimento já era sentido? Como reagiram os embaixadores colocados em Portugal face a esta revolta? Houve interferências externas na eclosão da revolta?
Muita coisa permanece ainda sem resposta, só o tempo e os investigadores que procuram preservar a memória, reconstruindo-a ou enquadrando-a, mas trazendo-a ao conhecimento de mais pessoas através destas realizações e das publicações destes trabalhos. Estão de parabéns o CEIS 20 e os investigadores presentes pelos trabalhos apresentados.

Concordamos em absoluto com o alerta feito pela Doutora Heloísa Paulo, pois os espólios muitas vezes estão ainda guardados nas mãos dos descendentes que carinhosa, mas gradualmente vão perdendo a memória dos factos do passado, das acções que protagonizaram, das pessoas que conheceram e ajudaram, das ideias que defenderam. Preserve-se a memória dos indivíduos para se construir uma memória colectiva, que sirva para as gerações seguintes as compreenderem e estudarem, nas suas variadas nuances, transformações, vitórias e frustrações. A História constroi-se e reconstroi-se sempre e em cada momento com os elementos que vamos deixando, nunca estará fechada nem terminada, mas será sim uma permanente procura de construir um edifício sempre inacabado.

A.A.B.M.