quarta-feira, 29 de novembro de 2006

A propósito de mais um centenário


Flausino Torres
Encontramos, nas suas quase duas dezenas de obras, alguns elementos de estudo sobre a temática que nos vem ocupando. Assim, nos seus estudos sobre o mundo contemporâneo dedicou várias obras à questão da formação da sociedade portuguesa actual. Destacamos estas obras:

História Contemporânea do Povo Português, col. Cadernos de Hoje, Editora Prelo, 1965, 3 vols.

Leituras Históricas. As Origens da República, col. Cadernos de Hoje, Editora Prelo, 1965, 152 pags.

Particularmente, nesta última última obra, tecem-se algumas apreciações muito curiosas sobre a bibliografia consultada. Como é obvio, sendo ele na altura um membro reconhecido do Partido Comunista, as leituras que realiza são muito centradas nesta área política. Assim, comenta ele sobre outro comunista, Fernando Piteira Santos: "foi buscar novas pedras, como bom arquitecto, deu arranjo novo, pondo em foco principalmente os sectores da burguesia que intervêm no movimento de 1820".

Descobrimos, na blogosfera, que Flausino Torres se dedicou também à tradução das Memórias de Stuart Mill, publicadas pela editora Gleba, Lisboa, 1945, onde se encarregou de elaborar o prefácio e a tradução da obra.

Sobre a historiografia de influência marxista [onde se incluía Flausino Torres], afirma José Amado Mendes, na História da História em Portugal (Sécs. XIX e XX), Temas e Debates, Lisboa, 1998, vol. I, p. 361-362: "Quanto a influências mais directas e profundas - as quais passam também pela adesão à ideologia e ao próprio sistema explicativo, assente no princípio segundo o qual a «luta de classes constitui o motor da história» - elas foram mais evidentes no pós-25 de Abril (1974). Isto sem esquecer, obviamente, o contributo de outros autores cuja investigação já se iniciara no período anterior, como, por exemplo: Flausino Torres, Augusto da Costa Dias, José Tengarrinha, António Borges Coelho [...] e Vítor de Sá".

Sobre a actividade oposicionista de Flausino Torres, especialmente a que desenvolveu na antiga Checoslováquia, veja-se o trabalho de Linda Kundrátóva.

AABM

terça-feira, 28 de novembro de 2006

O DOMINGO ILUSTRADO



Jornais [O Domingo Ilustrado]

J.M.M.

A AVENTURA SURREALISTA EM PORTUGAL


Fizemos referência ao movimento surrealista em Portugal, considerando dois grupos (se assim se pode encarar) fundamentais, o G.S.L. e "os Surrealistas", que originaram toda essa actividade estética, poética e política, que nos finais da década de 40, em pleno Estado Novo, marca a corrente de "transfiguração" das Artes e Letras lusas. De um lado a corrente "neo-realista" e do outro a "aventura surrealista". São sabidas as disputas e controvérsias em torno desses dois movimentos estéticos, sendo que a "aventura surrealista", por razões de ordem política, irrompe tardiamente em Portugal. Mas, as ligações, limites e rupturas havidas entre os dois grupos são bem curiosas e, por isso mesmo, importa referenciar o "estudo do surrealismo na perspectiva da aventura social e cultural", evidentemente de oposição política, atendendo ao quadro político de então, a partir da trajectória dos seus protagonistas e dos seus "combates".

Ora o notável trabalho de Adelaide Ginga Tchen, "A Aventura Surrealista", Edições Colibri, 2001, é indispensável. As fontes bibliográficas cedidas (entre as quais, saliente-se, a anotação de um conjunto vasto de artigos saídos em periódicos), a tábua cronológica apresentada (em Portugal e no Mundo) e a muita informação de carácter político fornecida (quer sejam as referências a membros que participaram no nacional-sindicalismo português, quer às ligações e posições havidas com o P.C.P.), tornam esta obra (a par de uma outra mais global e de cariz poético e interpretativo - O Surrealismo em Portugal, de Maria de Fátima Marinho, ICM, 1987) de referência obrigatória.

J.M.M.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

SURREALISMO E FASCISMO

Eis o cartaz, de Janeiro de 1949, retirado da III Exposição Geral do Grupo Surrealista de Lisboa [onde se dizia: "O Grupo Surrealista de Lisboa / pergunta / depois de vinte anos de Medo/ ainda seremos capazes de / Liberdade? / É absolutamente / indispensável / votar contra / o Fascismo"], dado a proibição governamental. O "voto contra o fascismo" sugeria o apoio à campanha de Norton de Matos para a Presidência da República.

Faziam parte do G.S.L., na altura, António Pedro (fazia parte da comissão de honra de Norton de Matos), José Augusto França, Marcelino Vespeira, Alexandre O'Neill, António DaCosta, Cândido Costa Pinto, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, António Domingues.

O G.S.L., originariamente formado em Julho 1947, teve a dissidência em 1948 de Mário Cesariny Vasconcelos (pelo que não esteve presente na I Exposição do GSL, Janeiro 1949), e que juntamente com Pedro Oom, Cruzeiro Seixas, Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Mário Henrique-Leiria, Carlos Calvet, Fernando José Francisco, forma um Grupo Surrealista (Dissidente), os Surrealistas ou o Surrealismo-Abjeccionismo.

J.M.M.

MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS [1923-2006]


"Toda a água do mar não bastaria para lavar uma mancha de sangue intelectual"

"Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar
E entre nós e as palavras, o nosso querer falar"
[M.C.V.]

"... algo se ganhou contudo: a clarificação do sentido da luta travada em numerosos países (excluídos Portugal e também a Espanha), de 1924 até hoje [1977], pelos surrealistas que, isolados ou em grupo, erguem a voz, quando não a própria vida, contra os pistoleiros da Poesia, os assassinos do Amor, os retaliadores da Liberdade, estejam eles na chamada direita, estejam na chamada esquerda, sinalefas, estas, cada vez mais incapazes de conter a actualmente-claramente visível decadência das ideologias, decadência de que o Surrealismo continua sendo primordial fautor ..."

[Mário Cesariny, in Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial, P&R, 1977]

"Em Portugal nunca houve um movimento surrealista, nem sequer no ano de existência pública (1948-1949) do grupo surrealista de Lisboa, que depois da edição de quatro cadernos, de um protesto público e de uma exposição de pintura se dissolve, dando lugar a outro grupo que também não tardará muito a dissolver-se. Como seria possível subsistir, ou subsistir-se na ditadura? O surrealismo português viveu e morrerá, talvez, clandestino"

[M.C.V., in entrevista ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, 20/2/1990]

J.M.M.

sábado, 25 de novembro de 2006

SUBSÍDIOS PARA UMA BIBLIOGRAFIA DA IMPRENSA REPUBLICANA

Os estudos de conjunto sobre a imprensa periódica em Portugal ainda são escassos. As primeiras tentativas que se conhecem, já mencionadas no post anterior vêm sobretudo no campo da inventariação. São imprescindíveis como instrumento de trabalho, embora a usar com algumas precauções devido a alguns erros e omissões, o trabalho de Rocha Martins, Pequena História da Imprensa Portuguesa, Editorial Inquérito,Lisboa, 1941 é um claro exemplo. Sendo um instrumento útil, nalguns aspectos contém falhas que podem induzir em erro os investigadores, porque se baseia muito mais na memória do seu autor do que num verdadeiro trabalho de pesquisa. Tem, porém, informações muito interessantes sobre alguns dos jornalistas com quem conviveu e que atravessam a época que mais nos interessa. Curioso é o facto de, em quase todas as obras de conjunto, se apresentar sempre um lamento, a saber, "ficou inédito o Dicionário Jornalístico Português,do mesmo autor [Augusto Xavier da Silva Pereira], apresentado, em 27 de Abril de 1892, à Academia das Ciências, e que não consegui consultar.
Seria talvez o momento de revêr, acrescentar e publicar aquele trabalho, em homenagem aos lutadores da pena, que contribuiram para o progresso da Nação e aos que continuam a sua obra." (Rocha Martins, ob. cit.,p. 114).

Já em 2001, António Valdemar, no I Encontro Ibero-Americano de Jornalismo Cultural, realizado no Porto, entre 4 e 6 de Maio, falava nessa necessidade. A divulgação dessa informação é fundamental. Pena é que muitos jornalistas que tanta pressão fazem noutros assuntos não se preocupem, nem se interessem muito em saber mais sobre as origens da sua profissão. Reivindiquem junto da Academia das Ciências a publicação deste manuscrito, estabeleçam parcerias com entidades ligadas ao jornalismo (Clube de Jornalistas, Casa da Imprensa, Sindicato de Jornalistas), à INCM, BN ou universidades para patrocinarem a sua edição.

Conhecemos outras obras de Augusto Xavier da Silva Pereira, que consultamos regularmente, como a já mencionada em posts anteriores O Jornalismo Português. Resenha Cronológica..., Imprensa Nacional, Lisboa, 1896, que conterá também algumas informações a necessitar de correcção, mas interessa divulgar o trabalho de um homem que dedicou três décadas da sua vida a pesquisar, organizar, coleccionar e guardar publicações periódicas.

Rocha Martins, no trabalho supra referido, dedica um pequeno capítulo, entre as páginas 73 e 90 à imprensa republicana. Faz referência a inúmeras publicações republicanas e tece também alguns comentários opinativos sobre algumas das figuras mais destacadas na imprensa republicana como José Joaquim da Silva Graça, Francisco Manuel Homem Cristo, João Chagas, António França Borges, Mayer Garção, Sebastião de Magalhães Lima, António José de Almeida, Joaquim Ribeiro de Carvalho entre muitos outros. A ler com as devidas cautelas e distâncias, porque o tempo e a mentalidade são diferentes.

Nos próximos dias continuaremos a tratar destes assuntos.

AABM

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

IMPRENSA PERIÓDICA PORTUGUESA



Segundo Alfredo da Cunha [Elementos para a História da Imprensa Periódica Portuguesa - 1641-1821, publicado em Lisboa em 1941], António da Silva Túlio, em 1851, tinha intenção de dar à "estampa" uma História do Jornalismo em Portugal (infª vinda de mestre Inocêncio, evidentemente no seu Dicionário], mas ao que se sabe nunca foi avante. Em 1875, no jornal Conimbricense (de muita estimação), Joaquim Martins de Carvalho referia a necessidade da feitura de tal trabalho, solicitando, para tal tarefa os conhecimentos de "Tito de Noronha, António Maria Leone e o Visconde de Azevedo", "António da Silva Túlio, Henrique de Carvalho Prostes e Inocêncio Francisco da Silva", "José Joaquim da Silva Pereira Caldas" e "Joaquim de Sousa Teles de Matos". Até então (diz-nos Alfredo da Cunha, ob. cit., e que seguimos doravante) o "jornalismo português [era] considerado pouco digno de atenção e estudo". Nas várias Histórias da Literatura "quasi passa despercebido" [idem, ibidem].

De algum modo, Oliveira Martins [Portugal Contemporâneo] assinala o "periodismo" nacional, existindo várias referências no "Panorama" e no "Archivo Pittoresco" (dir. Silva Túlio). A importância do "periodismo" ganha relevância com a saída do "Padre Amaro" (Londres), do "Correio Mercantil", do "Português" e do "Campeão".

É certo que Augusto Xavier da Silva Pereira [in, Diccionario Jornalístico Portuguez (ms), que é reproduzido, em parte, no livro citado de Alfredo da Cunha] fez trabalho e inventariou "5.000 periódicos", deixando um trabalho inicial importante, mas, como refere o nosso Alfredo da Cunha, a "bibliografia periodística é muito árdua e difícil", e por diferentes e explicáveis razões.

Entretanto as investigações e estudos sobre a história da imprensa periódica portuguesa avançou bastante, sendo de assinalar a vasta bibliografia que consta no estimado livro de José Tengarrinha, "História da Imprensa Periódica Portuguesa", Portugália, Dezembro de 1965.

O Almanaque Republicano, postará, oportunamente, algumas notas bibliográficas sobre o periodismo português, dando relevo, como seria de esperar, aquelas consideradas importantes para o estudo da imprensa republicana e no Estado Novo.

J.M.M.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

OS PRIMÓRDIOS DA IMPRENSA REPUBLICANA EM PORTUGAL - PARTE II

Continuando a nossa viagem pelo passado, vamos apresentar mais alguns elementos que fomos recolhendo nas nossas divagações entre os múltiplos órgãos da imprensa republicana. O nosso trabalho é para dar a conhecer, aos que consultam este simples blog, informações simples, curiosidades, aspectos biográficos,literários e políticos que permitam perceber melhor como acabamos na República que temos.

Assim, A Vitória da República. Almanach para 1888, Ed. João Augusto Torres, Typ. Casa Portuguesa, Lisboa, 1887, p. 7 a 10 indica a existência dos seguintes periódicos republicanos:

1880:

26 - O Raio, Lisboa, Red.: Raphael do Valle, Joaquim Tavares. [Panfleto republicano de que se publicaram dois fascículos, tendo surgido em Fevereiro de 1880]

27 - O Vulcão, Lisboa, Red.: Raphael do Valle, Sebastião Baçam, Guilherme Franco e Silva Lisboa. [publicou-se de 25 de Abril a 28 de Novembro de 1880]

28 - A Liberdade, Lisboa, Red.: Mello Azeredo. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. II, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 65, este periódico iniciou publicação a 3 de Setembro de 1879 e termina em 21 de Abril de 1880, com 66 números.]

29 - A Galeria Republicana, Lisboa, Red.: Magalhães Lima. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. I, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 353, publicaram-se 44 números entre 1882 e Outubro de 1883]

30 - A Luz do Povo, Lisboa, Red.: Augusto Costa, Paulo da Fonseca e Caetano Pinto.

31 - A Vanguarda, Lisboa, Red.: Teófilo Braga. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. II, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002,p. 319, este periódico publicou 52 números, entre 12 de Maio de 1880 e 1 de Maio de 1881]

1881:

32 - A Marselheza, Lisboa, Red.: Augusto José Vieira, E. Espírito Santo, Francisco da Silva. [Publicou-se entre 1 de Maio e Agosto de 1881]

33 - O Barrete Phrygio, Lisboa, Red.: Alfredo Moreira, Hugo Leal, Teixeira Bastos, Reis Dâmaso. [Silva Pereira, ob cit. refere que esta publicação se iniciou entre 27 de Agosto de 1880 e 24 de Setembro de 1880.]

34 - O Futuro de Portugal, Lisboa, Red.: Virgílio Crespo e Adelino Vaz. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. I, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002,p. 348, publicaram-se três números durante o mês de Março de 1881]

35 - O Jesuíta, Lisboa, Red.: Duarte Coelho. [Publicou-se um número em 1 de Março de 1881]

36 - A Scentelha, Lisboa, Red.: Garcia Torres. [Publicou-se entre 3 de Julho e 1 de Agosto de 1881]

37 - O Facho, Lisboa, Red.: Eugénio Silveira. [Publicou-se entre 23 de Agosto e 1 de Novembro de 1881]

38 - O Radical, Lisboa, Red. António Furtado. [Nº único publicado a 17 de Julho]

39 - O Republicano, Lisboa, Red.: António Furtado. [Publicou-se entre 26 de Junho a 3 de Julho de 1881]

40 - O Tempo, Lisboa, Red. Gomes da Silva. [Publicou-se entre 16 de Abril a 1 de Outubro de 1881].

41 - O Suffragio Universal, Lisboa, Red.: Paulo da Fonseca, Virgílio Crespo e César da Silva. [Publicou-se entre 14 de Agosto e 23 de Setembro]


42 - O Noventa e Três, Lisboa, Red.: Augusto de Figueiredo. [Publicou-se entre 2 de Outubro de 1881 a 15 de Maio de 1887]

1882:

43 - O Bom Senso, Lisboa, Red.: Narciso Feyo. [Segundo Silva Pereira este periódico publicou-se entre 22 de Novembro de 1883 e Janeiro de 1884]

44 - A Epocha, Lisboa, Red.: Garcia Torres, Artur Moreira e César da Silva. [Publicou-se entre 8 de Maio e 13 de Julho 1882]

45 - A Republica Portuguesa, Lisboa, Red.: Paulo da Fonseca, Augusto José Vieira, César da Silva e Carlos Dinne. [Semanário republicano que se publicou entre 24 de Agosto e 21 de Outubro de 1882]

46 - O Espectro Republicano, Lisboa, Red. António José Guedes. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. II, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 302, publicaram-se somente dois números, entre 23 de Fevereiro de 1882 e Março de 1882]

1883:

47 - A Era Nova, Lisboa, Red.: Silva Lisboa, Francisco Azevedo e Silva. [Silva Pereira refere que esta publicação existiu entre 1 de Novembro de 1882 e 17 de Dezembro de 1885]

1884:

48 - A Justiça do Povo, Lisboa, Red.: Angelina Vidal. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. II, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 54, esta publicação semanal existiu entre 4 de Janeiro e 24 de Fevereiro de 1885]

49 - O Diário da Tarde, Lisboa, Red. Gomes da Silva. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX,vol. I, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 249, este jornal iniciou publicação em 1 de Janeiro de 1885 e prolongou-se até 30 de Janeiro desse ano]

50 - O Corsário, Lisboa, Red.: Augusto José Vieira e Paulo da Fonseca. [Nº único publicado a 28 de Outubro de 1883]

51 - A Revolução, Lisboa, Red.: Alfredo Cabral, Eduardo de Faria. [Segundo Gina Guedes Rafael e Manuela Santos, Jornais e Revistas Portuguesas do séc. XIX, vol. II, col. Bibliografias, BN, Lisboa, 2002, p. 261, o número programa e único que se publicou deste jornal que consta na BN, publicou-se em 13 de Dezembro de 1885]

1885:

52 - Os Pontos nos iii, Lisboa, Ilustração: Rafael Bordalo Pinheiro; Red.: Morais Pinto. [Iniciou publicação em 7 de Maio de 1885 a 5 de Fevereiro de 1891].

1886:

53 - O Intransigente, Lisboa, Red.: António José Guedes. [Nº único publicado em 20 de Dezembro de 1885]

54 - A Aurora da Revolução, Lisboa, Red.: Eugénia Smith e Alexandre José Alves. [Publicou-se entre 7 de Janeiro e 13 de Julho de 1886]

1887:

55 - A Voz Gallaica, Lisboa, Red.: D. Isidro Vilarinho.

56 - O Syndicato, Lisboa, Red.: Angelina Vidal e Ivo de Lacerda. [Inicia publicação em 17 de Julho e termina em 7 de Abril de 1889].

Uma nota curiosa a terminar, neste elenco e dados não era curiosamente apontado aquele que durante a década de oitenta e noventa era um dos principais órgãos do Partido Republicano, referimo-nos obviamente a o jornal diário O Século, fundado por Magalhães Lima e Trigueiros de Martel no início de 1881. Era certamente uma omissão propositada e com fins políticos.

Com base noutras fontes iremos continuar nos próximos dias a indicar fontes para o estudo da evolução do Partido Republicano em Portugal nos finais do século XIX.

AABM

terça-feira, 21 de novembro de 2006

A LANTERNA [1868-1873]


Sobre a publicação "A Lanterna" [1868 a 1873], referida no post anterior, recorremos a Mestre Innocencio Francisco da Silva e ao seu Diccionario [Bibliographico Portuguez], que no tomo XIII, à pag. 280-281, nos diz o seguinte:

[A Lanterna] "saiu de diversas typographias, sendo a primeira a de Joaquim Germano de Sousa Neves (...), em fasciculos semanaes, bi semanaes ou mensaes, comprehendendo ora uma, ora duas, ora tres ou mais folhas, de impressão, e com mui variados titulos, depois da primeira serie. A collecção completa, que não é muito facil reunir hoje com todos os fasciculos então publicados, comprehende uns nove volumes.

Menciono especialmente esta publicação por ter dado logar a violentas polemicas na imprensa politica do tempo, e a um notavel processo, em virtude do qual esteve preso o dono da typographia, Sousa Neves, por não querer denunciar quaes eram os responsaveis pelos vigorosos e revolucionarios escriptos d'esta folha, considerados abusivos da liberdade de imprensa, e offensivos das auctoridades constituidas; e porque, a final, o conjuncto dos mesmos escriptos, bem ou mal orientados, de um só individuo, como parece averiguado, ou de diversos, vantajosamente collocados, como ainda alguns suppõem, quebrou a monotonia da nossa imprensa partidaria e quotidiana, e no genero pamphletario, verrinoso, visando o escandalo, a Lanterna excedeu em muito os seus antecessores, O Espectro, A Matraca, o Rabecão, o Supplemento burlesco, e outros, sem todavia representar, como elles, um partido organisado e forte, que lançava mão de todos os meios de lucta para atacar e prostrar adversarios poderosos. Em todo o caso, revelou no seu auctor, um escriptor talentoso e energico argumentador.

O primeiro redactor, que não occulta a paternidade da sua obra, foi o sr. Antonio Augusto da Silva Lobo, desde alguns annos estabelecido no Rio de Janeiro com uma empreza litteraria, e empregado na redacção das sessões das camaras legislativas brazileiras. Seguiu se lhe, ostensivamente, Francisco Luiz Coutinho de Miranda (...), que era amigo íntimo e companheiro inseparavel do primeiro.

O sr. Silva Lobo, vindo a Lisboa tratar de negocios particulares e gosar o feriado do parlamento brazileiro, referiu me, já lá vão alguns mezes, que effectivamente tivera alguns collaboradores e informadores, mas a redacção principal e exclusiva era d'elle, e que assumia a responsabilidade; e tanto que, revendo alguns numeros da Lanterna, e encontrando artigos doutrinarios e criticos, com os quaes ainda se conformava, faria collecção dos que lhe parecessem melhores, e mandal os ía imprimir em volume separado com o seu nome ..." [sublinhados, nossos]

J.M.M.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

OS PRIMÓRDIOS DA IMPRENSA REPUBLICANA EM PORTUGAL - PARTE I

De acordo com um dos almanaques republicanos que consultamos, que se reporta a 1887, os mais antigos jornais republicanos a que faz referência situa-os em 1869. Haveria, por certo, outros periódicos publicados anteriormente. Mais, a listagem que se apresenta era localizada e dizia respeito só aos órgãos que se publicaram na cidade de Lisboa. Por outro lado, deve ter-se em conta que entre 1869 e 1876, não existia oficialmente um Partido Republicano constituído em Portugal, serão portanto órgãos proto-republicanos ou onde os redactores principais e alguns dos colaboradores destas publicações defendiam ideais republicanos.

Vejamos então os títulos das publicações indicadas:

1869:

1- A Republica Federal, Lisboa, Redactores: Felizardo Lima, Casimiro Gomes, Silva Lobo, João Bonança, Máximo Pereira e Coutinho de Miranda. [Publicou-se entre 31 de Outubro de 1869 e 31 de Março de 1871]

2- A Lanterna, Lisboa, Typ. Germano de Sousa Neves, Redactor: António Augusto da Silva Lobo [ Acerca desta publicação e do seu autor, Albino Forjaz de Sampaio, publicou um texto "Jornalismo Republicano" que inseriu na obra Homens de Letras, Livraria Editora Guimarães, Lisboa, 1930, p. 197-212, onde refere pormenorizadamente as dezenas de folhetos clandestinos que saíram na sequência desta curiosa publicação que foi realizando uma "obra violenta e demolidora". Publicou-se de forma clandestina e irregularmente entre 8 de Outubro de 1868 e 21 de Junho de 1873.]

3- O Século XIX, Lisboa, Red.: Guilherme José Conrado

4- O Camartello, Lisboa [nº único, publicado a 21 de Agosto de 1869]

5- O Trinta Diabos, mais tarde denominado O Trinta, ou, mais tarde intitulado Folha do Povo, Lisboa, Red.: Cecílio de Sousa. [Silva Pereira,O Jornalismo Português. Resenha Cronológica..., Imprensa Nacional, Lisboa, 1896, p. 113, refere que este jornal se publicou entre Março de 1869 e Fevereiro de 1870]

1870:

6- O Cidadão, Lisboa, Red.: Francisco Maria das Neves. [5 de Maio de 1870]

7- Alvorada, Lisboa, Red.: Crispiano Tavares e Guilherme da Cunha. [12 de Janeiro de 1870]

8- A Republica, Lisboa, Red.: Antero de Quental, João Bonança, Silva Pinto, Joaquim Pedro Oliveira Martins. [Publicou-se de 11 de Maio a Julho de 1870]

9- O Rebate, Lisboa, Red.: Carrilho Videira, Silva Pinto, Nobre França, Horácio Esk Ferrari, Leão de Oliveira, Sérgio de Castro, Teófilo Braga e Eduardo Maia [Publicou-se entre 29 de Junho de 1873 e 27 de Fevereiro de 1874]

10- As Farças, Lisboa, Red.: Gomes Leal.

11- A Democracia, Lisboa, Red.: Teixeira de Vasconcelos, José Elias Garcia. [Publicou-se entre Outubro de 1873 e Outubro de 1881, a partir desta altura adopta a designação de Democracia Portuguesa, continuando em publicação até 28 de Junho de 1889]

1874:

12- O Domingo, Lisboa, Red.: Augusto de Figueiredo. [Publicou-se entre 20 de Dezembro de 1874 a 25 de Abril de 1875]

13- A Aurora Comercial, Lisboa, Red. Augusto de Figueiredo.

14- A Federação Comercial, Lisboa, Red.: Augusto de Figueiredo.

1875:

15- A Gazeta do Povo, Lisboa, Red.: Baptista Machado.

1876:

16- A Tribuna, Lisboa, Red.: Latino Coelho.

17- A Egualdade, Lisboa, Red.: Silva Viana, Salema Garção, M. da Silva.

1877:

18- O Povo Republicano, Lisboa, Red.: João Bonança, Simões Raposo, Gil Carneiro e Eduardo Maia.

19- A Lanterna Mágica, Lisboa, Red. Guilherme de Azevedo.

1878:

20- A Bandeira Republicana, Lisboa, Red. Eduardo Maia.

21- O Rabecão, Lisboa, Red. Xavier de Paiva.

22- O António Maria, Lisboa, Ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro e Red.: Guilherme de Azevedo, Ramalho Ortigão e Gomes da Silva.

23- A Rabeca do Diabo, Lisboa, [???]

24- O Partido do Povo, Lisboa, Red.: Angelina Vidal, António Bentes, Duarte Coelho, Alfredo Ansur, Feio Terenas, Martins Pereira.

25- A Tribuna do Povo, Lisboa

Fonte utilizada:

A Vitória da República. Almanaque para 1888, Ed. João Augusto Torres, Typographia Casa Portuguesa, 1887, p. 7 a 10.

Como este post já se alongou demasiado, nos próximos dias lançaremos mais elementos sobre os inícios da propaganda republicana na imprensa em Portugal.

AABM

INTEGRALISMO LUSITANO


[Da esquerda para a direita, em pé: Ruy Ulrich, Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga e José Pequito Rebelo; sentados: António Sardinha, Vasco de Carvalho, Luís de Freitas Branco, Xavier Cordeiro e Alberto Monsaraz. Foto, in José Manuel Quintas, Filhos de Ramires. As Origens do Integralismo Lusitano, Nova Ática, 2004]

"... Originariamente católicos e monárquicos na sua grande maioria - e na totalidade, por conversão (...) -, os futuros integralistas bem cedo vieram a contactar com o movimento de Action Française e o pensamento de Charles Maurras, que viriam, por seu turno, a ter uma influência marcante e directa no desencadear da constituição do congénere movimento português. Por caminhos diversos - teóricos e práticos (...) -, confluíram primeiro, em 1914, num movimento doutrinário, em volta de uma revista [Alma Portuguesa. Órgão do Integralismo Lusitano, Bélgica, 1913 e pouco depois, em 1914, em Coimbra, sai a revista Nação Portuguesa], para bem depressa passarem em 1916 a movimento político, com organização própria [Junta Central do Integralismo Lusitano, organismo autónomo da Causa Monárquica]..."

[Manuel Braga da Cruz, Monárquicos e Republicanos no Estado Novo, Dom Quixote, 1986]

Algumas anotações sobre periódicos integralistas ou a eles ligados: Alma Portuguesa. Órgão do Integralismo Lusitano, II números (Maio e Setembro de 1913) / Os Meus Cadernos, de Mariotte (aliás Pe. Amadeu de Vasconcelos), Paris, Agosto de 1913 a 1916 / Aqui d'El-Rei , dir. João do Amaral, Lisboa, Fevereiro 1914 / Nação Portuguesa. Revista de Filosofia Política, dir. Alberto de Monsaraz, Coimbra, Janeiro de 1914 [I série 1914-1916 (XII numrs); II série, Julho 1922-1923 (XII numrs, dir. António Sardinha); III série, 1924-1926 (dir. A. Sardinha e depois, Manuel Múrias); IV série, 1926-1928 (dir. Manuel Múrias, sendo em 1927 secretário da revista, Marcello Caetano)] / jornal A Monarquia. Diário integralista da tarde, dir. Alberto de Monsaraz, (nº1) 12 Fevereiro 1917 a 10 Fevereiro 1925] / Acção Realista, dir. Ernesto Gonçalves, 1921-1926) / semanário A Voz Nacional, dir. Luís Chaves, 1921 / Aqui d'El Rei. Órgão do Integralismo Lusitano a Província do Minho, dir. Alberto C. Menezes, 1922, XXV numrs / Acção Realista, dir. João Ameal, 1926 / A Revolução. Jornal Monárquico Sindicalista, dir. Sílvio Luso (aliás, Caetano dos Reis), nº1, 5 Fevereiro 1922 ao nº 22, Abril 1923 / revista Política. Órgão da Junta Escolar de Lisboa do Integralismo Lusitano, 1929-1930, XX numrs / Integralismo Lusitano, dir. Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo, 1932-1934, XII fasc. / Revolução. Diário Académico Nacionalista da Tarde, 1932-1933 / Revolução Nacional dos Trabalhadores, dir. António Tinoco, nº 1, 4 Fevereiro de 1933 / Acção. Semanário da Vida Portuguesa, dir. Manuel Múrias, nº1 (24 Abril 1941) ao nº 422 (19 Maio 1949)

J.M.M.

domingo, 19 de novembro de 2006

SEARA NOVA

 

FOTO (1921) DO GRUPO FUNDADOR DA REVISTA SEARA NOVA

FOTO do Grupo fundador da revista Seara Nova, tirada em 1921 no Coimbrão (lugar que fica a caminho da Praia do Pedrogão – concelho de Leiria), em casa de José Leal (casa desenhada pelo arquitecto republicano e maçon Ernesto Korrodi, pertencente à família Leal, onde em tempos se refugiou da polícia política Aquilino Ribeiro e anos mais tarde Mário Soares) que inclusive patrocinou monetariamente a revista.

Da esquerda para a direita, em pé: o padre de Coimbrão, Horácio Fernandes Biu (1883-1947 – não integrou o grupo literário fundador da revista), Faria de Vasconcelos (1880-1939), Raul Proença  (1884-1941) e Luís da Câmara Reys (1885-1961); sentados: Jaime Cortesão (1884-1960), Aquilino Ribeiro (1885-1963)  e Raul Brandão (1867-1930).

De referir que na foto histórica e oficial do grupo “Seara Nova” – ver Antologia Seara Nova, Edições do Cinquentenário 1921-1971, Seara Nova, 1971, vol. I, p. 87 – não consta o padre Horácio Fernandes Biu, porém originalmente o padre, antigo estudante de Coimbra e amigo de alguns dos literatos seareiros, esteve presente nesse memorável encontro.

"... As condições em que surgiu na vida portuguesa a Seara Nova, não me cabe a mim [José Rodrigues Miguéis] explicá-las aqui e são de resto sobejamente conhecidas: um caos governativo presidindo a um caos moral, económico e mental; a Nação desorganizada entregue à mais sistemática de todas as desgovernações; a República sofrendo todas as consequências más dos erros acumulados através do tempo, agravados agora pelo desvairamento ou pela corrupção de uns políticos e de muitos cidadãos. Se o problema era e é primariamente um problema educativo ou cultural - como afirma António Sérgio - ou ainda económico, - como parece concluir Ezequiel de Campos, - a verdade é que a cadeia dos males nacionais é tão fechada que não podemos perder tempo a discutir 'por onde se há-de começar a abrir-lhe a brecha' (...) Para nós, a Seara Nova é como que o embrião dum grande órgão jornalístico que, exercendo a sua acção fora dos partidos, das classes, dos interesses e das religiões, - conseguisse levar a todos os espíritos um pouco de luz, de conforto e de verdade. Jornal republicano, ele seria para os cidadãos um bom conselho e um bom estimulo - sem lhes pedir em troca o seu voto e a sua consciência, sem os forçar a ignorar o que é preciso que se saiba em Portugal ..."

[José Rodrigues Miguéis, discurso proferido por 'ocasião do quarto aniversário da Seara Nova', in Antologia Seara Nova, texto 14, Vol. I, 1971]

J.M.M

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

FRANCISCO DE OLIVEIRA PIO

Mais algumas notas sobre esta personalidade que Heloísa Paulo aborda neste estudo agora publicado na revista História. Oliveira Pio foi um conhecido oposicionista do Estado Novo que desenvolve actividades em várias regiões.

Num estudo publicado em 2003, O Testamento Político de João Rosa Beatriz, Edições Colibri/Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, onde Maria João Raminhos Duarte insere um texto que intitulou João Rosa Beatriz, O Intransigente. Esboço de uma biografia política revelam-se mais alguns traços da actividade desenvolvida por este militar republicano em Marrocos.

De acordo com Maria João Raminhos Duarte, Francisco de Oliveira Pio estaria em 1940 em Marrocos (Casablanca), onde contactou com João Rosa Beatriz. Na sequência dos trabalhos aí realizados surgiu a criação da "União dos Republicanos Portugueses", organização de oposição ao Estado Novo.
Foram estes dois republicanos que sonharam com "uma organização que pretendiam alargar a toda a África do Norte. Para isso, realizaram o Congresso dos Republicanos da África do Norte, na Bolsa do Trabalho em Casablanca, onde estiveram presentes as secções de Agadir, Mogodor, Safim, Mazagão, Casablanca, Rabat e Meknés, da qual João Rosa Beatriz era o presidente.

Neste congresso, foram eleitos João Rosa Beatriz e Francisco de Oliveira Pio, respectivamente para os cargos de presidente e secretário da organização.
A estes trabalho de organização da oposição a Salazar em Marrocos não foi certamente alheio o contributo dos oposicionistas portugueses aí residentes (legais e clandestinos) que se organizaram à volta de Francisco de Oliveira Pio, intemerato lutador contra o regime salazarista".
(Maria João Raminhos Duarte, "João Rosa Beatriz, O Intransigente. Esboço de um biografia política" in O Testamento Político de João Rosa Beatriz, fixação e anotação do texto Paulo Jorge Pires, Edições Colibri/Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, 2003, p. 231-232 e nota 472 e 473)

Pensamos serem notas importantes para complementar o trabalho das oposições salazaristas, e o papel que desempenharam muitos homens e mulheres que, no exílio, acabaram por se empenhar no combate ao Estado Novo. São de facto, áreas novas de estudo, em que os contributos são muito parciais mas é importante que se vão realizando, porque muitas vezes referem-se somente alguns exemplos porque muitos entraram no esquecimento. Conhecem-se melhor os trabalhos da oposição em França, devido ao papel que aí desempenhou Mário Soares, mas havia noutros países organizações anti-fascistas das quais pouco ou nada se conhece. Aqui referimo-nos ao caso de Marrocos, também se conhece um pouco a situação no Brasil, mas faltam-nos elementos sobre outros pontos onde a comunidade portuguesa era numerosa ou se sabe que existiam exilados políticos e organizações que combatiam o Estado Novo. Na Alemanha, nos EUA, na Argentina, na Venezuela ou em outros países não terão existido organizações semelhantes? Pessoalmente, não o sabemos, mas não podemos deixar de nos questionar sobre este facto.

AABM

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

OS BUDAS - GRUPO DE MADRID


Os 'Budas'

"Um dos mais tristes, mas também mais inteligentes e mais perigosos traidores à nossa causa que tivemos, alcunhou em Madrid o nosso comité de Grupos dos Budas. Por sermos corpulentos, gordos? Não, simplesmente porque impossível lhe foi sempre (e a todos) conhecer o nosso pensamento e os nossos planos: não apenas militares, mas também, e sobretudo, políticos"

[Memórias dactilografadas de Jaime Moraes, p. 5, aliás in Revista História, nº 91, Novembro 2006, p. 45]

Nota: "Jaime Alberto de Castro Morais (1882-1973) era Médico e oficial da Armada. Foi um dos revolucionários do 5 de Outubro de 1910. Participou nas campanhas de pacificação da Guiné e de Angola. Foi Governador da Índia entre 1919 e 1925. Defendeu a República, combatendo em Chaves em 1919. Foi um dos líderes do golpe de 3 de Fevereiro de 1927, no Porto. Esteve envolvido em múltiplas actividades reviralhistas. Em 1928, foi deportado para S. Tomé e demitido da Armada. Fugiu para França. Criou em Madrid, com Jaime Cortesão e Moura Pinto, o grupo dos Budas. Participou na criação da Frente Popular Portuguesa. Foi amnistiado em 1950. Foi para o Brasil, onde se dedicou a actividades comerciais e continuou a sua actividade contra o regime" [ler aqui]

O artigo de Heloisa Paulo, saído na revista História (supra citada), p. 45-50, deste mês, pretende contribuir para uma maior clarificação do "Grupo de Madrid" (Os Budas, "alcunha criada por Ferro Alves"), divulgando biografia sobre os seus maiores protagonistas, como Jaime Alberto de Castro Moraes (1882-1973), Alberto Moura Pinto (1883-1960), Jaime Zuzarte Cortesão (1884-1960), bem como outros seus companheiros, como Nuno Cerqueira Machado Cruz (1893-1934), Ernesto Carneiro Franco (1886-1965), Francisco Oliveira Pio (1897-1972), Júlio César de Almeida (1892-1977), Inocêncio Câmara Pires (n.1898), Alexandrino dos Santos (n. 1891). Outros nomes são avançados como ligados ao Grupo, como Sarmento Pimentel, Armando Cortesão, e os filhos de Jaime Moraes (Óscar, Mário, Rui e Fernando, este ainda vivo). A consultar.

[A foto acima é retirada, com a devida vénia, da Revista História, nº 91, Novembro 2006: Da esquerda para a direita, Jaime de Moraes, Jaime Cortesão, Eng. Araújo, Moura Pinto e Sarmento Pimentel, "no exilo brasileiro, durante os anos 50"]

J.M.M.

REVISTA HISTÓRIA- MÊS DE NOVEMBRO

Referências - Dossier: 1956 Primavera Húngara / A Revolta dos Marinheiros (contra Salazar) / Os Budas (ou Grupo de Madrid) / Um Camões Esquecido no Palácio de Fronteira / Museu da Música Portuguesa. Exposição evoca Bartók e Lopes Graça / As Origens do Museu Soares dos Reis

J.M.M.

DR. ESTEVÃO DE VASCONCELOS

José Estevão Pais Brosselard de Vasconcelos, nasceu em Olhão a 13 de Novembro de 1868 e morreu em Lisboa a 15 de Maio de 1917. Estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, tendo concluído o curso em 1894, com a tese Considerações Sobre o Brightismo. Durante o curso de medicina adere ao Partido Republicano, tendo começado a colaborar em órgãos da imprensa partidária, como A Pátria, A Vanguarda e O Mundo. Em 1900 era presidente da Comissão Municipal Republicana de Lisboa, no ano seguinte apresentou-se como candidato a deputado pela capital, em 1902 era membro do Directório do Partido Republicano. Entre 1903 e 1910, foi médico municipal em Vila Real de Santo António, tendo sido um dos responsáveis pela reorganização do Partido Republicano no Algarve. Em 1908, foi eleito deputado republicano por Setúbal. Nessa altura, apresenta a proposta de Lei de Acidentes no Trabalho, que mais tarde veio a aprovar enquanto ministro e que foi considerada das mais progressistas da Europa. Foi eleito deputado às Constituintes de 1911, foi Ministro do Fomento no governo liderado por João Chagas e, mais tarde, senador pelo distrito de Beja. Foi ainda administrador da Caixa Geral de Depósitos, após a implantação da República.
Participou em vários congressos, tendo apresentado propostas e manifestado maiores preocupações nos Congressos Contra a Tuberculose, cujos trabalhos foram publicados em 1901 e 1904. Publicou ainda os textos de algumas conferências que realizou na obra Algumas questões de Higiene (1902).

Bibliografia consultada:

Antero Nobre, Doze Olhanenses Que Muito Honraram a sua Terra, Sep. "Voz de Olhão", Olhão, 1987, p. 14.

António Henrique de Oliveira Marques (Coord); Paulo Guinote; Pedro Teixeira Mesquita; João José Alves Dias, Parlamentares e Ministros da 1ª República (1910-1926), col. Parlamento, Edições Afrontamento/Assembleia da República, Lisboa, 2000, p. 433.

Elsa Mendes, "Vasconcelos, José Estevão de", Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), vol. III (N-Z), coord. Maria Filomena Mónica, ICS/Assembleia da República, Lisboa, 2006, p. 999-1001.

AABM

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

EXÍLIO E EXILADOS POLÍTICOS 1926-1974



A Câmara de Vila Nova de Famalicão, em parceria com o Museu Bernardino Machado, vai organizar nos dias 24 e 25 de Novembro, o colóquio "EXÍLIO E EXILADOS POLÍTICOS - 1926-1974", no ambito do projecto Encontros de Outono. Neste encontro, coordenado pelo Prof. Dr. Norberto Cunha, vão participar com comunicações, entre outros: Fernando Rosas, António José Queiróz, Heloísa Paulo, Eurico de Figueiredo, Susana Martins, António Reis, António Ventura,Elisa Neves Travessa, Fernando Guimarães, António Pedro Pita, Bernardo Pinto de Almeida e Natália Providência. Veja o programa detalhado aqui.

Parece-nos um programa bastante diversificado e interessante, que aconselhamos, pela qualidade dos membros que vão apresentar comunicações.

AABM

terça-feira, 14 de novembro de 2006

ALMANAQUES



"Calendário, diário, borda de água, repertório, prognóstico, lunário, sarrabal, efeméride, agenda, folhinha, guia, tesouro, perfeito lavrador, e até tratado e dissertação, muitos foram os nomes que identificaram, ao longo dos tempos, uma brochura a que, frequentemente, se chama apenas almanaque”.

[in, Os Sucessores de Zacuto. O Almanaque na Biblioteca Nacional do século XV ao XXI, Biblioteca Nacional, 2002]

"Um almanaque é um guia, um instrumento onde se encontram elementos para a organização do quotidiano. Em primeiro lugar, organiza o tempo, tendo por base um calendário anual. Organiza as actividades, arrumando saberes e indicações úteis para essas actividades. Organiza o espaço fornecendo uma imagem clara do universo, tradicionalmente assente na astrologia. Sem perder um sentido original de contagem, a noção de almanaque tenderá a reflectir a ideia de compilação de saberes, em particular destinados a públicos com pouco acesso a outras leituras ..."

[João Luís Lisboa, idem, ibidem]

J.M.M.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

MODERNIZAÇÃO III

José Acúrcio das Neves [J.A.N., 1766-1834] apoiou a revolução de 1820, passe o facto de não perfilhar as suas ideias, para depois entrar rapidamente em ruptura e confronto com os liberais, tendo aderido ao anti-vintismo. Torna-se a "alma teórica do miguelismo" [refª Jorge Custódio, in pref. 'Memórias sobre os meios de melhorar a indústria portuguesa, considerada os seus diferentes ramos', obra preciosa de J.A.N., publicada em 1820, aliás 1983, Edições Querco], por razões não só político-administrativas, mas também pela convicção na visão económica que perfilhava e que exigia (segundo ele) a "fórmula institucional do absolutismo" para se realizar. Diga-se, que J.A.N. se formou em leis em Coimbra, e posteriormente, como "alto funcionário do Estado" entra em contacto com o "espírito" industrializante da sua época, sendo um letrado notável. Leu Adam Smith, Stewart, Say, Ricardo, Sismondi, sendo apodado por Fernando Pinto Loureiro [idem, ibidem] como um "magistrado economista" e "economista de transição". Era, portanto, adepto da economia dita clássica, apesar da existência de algumas divergências, de pormenor. A crise económica, financeira e política, antes e depois de 1820, e a sua resolução encontram eco na já citada e notável obra de J.A.N., onde pretende estabelecer as causas da decadência do reino ou "conhecer a doença nacional", para lhe administrar os "remédios".

Segundo J.A.N. (obra citada), eis as bases para o "melhoramento da administração pública":

"1 - Organizar um bom plano de educação para a mocidade (...)

2 - Fazer respeitar o direito de propriedade (...) Para obterem este justo fim, no meu conceito, é esta a suma: darem os Governos o exemplo, não atentando jamais contra a propriedade dos particulares, à excepção daqueles casos extremos, em que se exige a salvação pública (...)

3 - Promover o estabelecimento das associações literárias e económicas, que tão grande fomento têm dado por toda a Europa (...) enquanto as não temos, e nos aproveitarmos das fadigas dos escritores e dos artistas estrangeiros, convém que se aumente as livrarias públicas, e se enriqueçam de obras modernas (...)

4 - Estabelecer aulas de Economia Política (...) Falta este brilhante na Universidade de Coimbra, para completar o rico adorno dos cursos jurídicos, em que se forma a mocidade estudiosa (...)

5 - Dar mais liberdade à imprensa, porque as leis que a reprimem, além de terem uma tendência manifesta a sufocar o progresso das luzes, produzem o péssimo efeito de indisporem os homens de letras contra o Governo (...)

6 - Regular as rendas do Estado, de modo que a receita chegue para as despesas ordinárias e haja ainda algum excedente para as extraordinárias e imprevistas; o que somente poderá conseguir-se à força de economias e de um método exactíssimo de arrecadação e fiscalização. É um ponto de grande dificuldade, porque os povos não podem com mais tributos (...)"

J.M.M.

CECÍLIO DE SOUSA


Um dos republicanos históricos e hoje pouco conhecido, o Dr. Cecílio de Sousa, foi um dos primeiros a combater a Monarquia através da sua pena, escrevendo em diversos jornais. Neste contexto, conviveu com outra das figuras marcantes do final do século XIX, Silva Pinto,que deixou algumas reflexões curiosas, na sua obra Pela Vida Fora (1870-1900), Livraria Editora Guimarães&Libânio, Lisboa, 1900, p. 24-25:

"O Cecílio da Folha do Povo... Era pouco amável, mas ainda não vi alguém mais convicto. De quê? De que tudo isto era uma pouca vergonha! Fóra do seu jornal - O Trinta e depois A Folha- só admirava e amava muito o seu mestre Teófilo Braga. Abaixo deste culto e rancor pela patifarias sociais, gostava muito das suas flores e dos seus galinaceos, que ele tratava no seu belo quintalinho da rua da Procissão.

Conheci-o desde 72, num grupo de republicanos socialistas de que faziam parte Silva Lisboa, Azedo Gneco e Conceição Fernandes. Foi ele quem numa das minhas crises de falta de trabalho me relacionou com o editor Vieira Paré, para o qual escrevi uma tradução da Eugenie Grandlet, de Balzac, e um romance intitulado O Padre Maldito. Há poucos anos voltei a ver o Cecílio, na Folha do Povo, dirigindo ele a parte política e eu uma secção humorística. Ele estava então mais misantropo do que noutros tempos; breves palavras trocamos.

Era muito arrebatado em palestras e em artigos e locais jornalísticas. Pão pão, queijo queijo! E daí alguns conflitos pessoais, que o não desviavam do seu rumo. Tinha suas altercações com o proprietário da Folha do Povo, José António Ferreira, mas não podiam viver um sem o outro: breve se reconciliavam.
De resto, toda a Lisboa se lembra daquela figura."

Que outras tarefas e responsabilidades desempenhou este republicano? Sabemos que nasceu em Albarraque, Sintra, a 22 de Novembro de 1840, por isso a nossa opção de fazer um pequeno retrato sobre esta personalidade.

AABM

domingo, 12 de novembro de 2006

MODERNIZAÇÃO II

No século XIX, alguns intelectuais portugueses entendiam a modernização, o progresso como uma necessidade de Regeneração para podermos alcançar o desenvolvimento económico e social que se registava em países como a Grã-Bretanha.

Herculano, nos seus Opúsculos, tomo I, Livraria Bertrand, 1983, p. 338, afirmava:

"O progresso material dos povos deve acompanhar e ser consequência da sua regeneração moral. É nos países da liberdade e das garantias que tem tido sempre lugar a iniciativa das reformas económicas que têm activado a prosperidade social. Caminhos de ferro, melhoramentos materiais, aperfeiçoamentos de toda a indústria, queremo-los e devemo-los exigir dos governos morais e justos, e não comprá-los aos adelos e charlatães políticos, à custa do sacrifício das nossas liberdades e direitos".

Este texto publicado originalmente no jornal O Português, 13-04-1853, nº 3, manifesta ainda hoje a sua actualidade, quando nos confrontamos com os discursos que os nossos políticos nos apresentam sobre o problema da modernização em Portugal.

Mais tarde, já nos finais do século XIX, Joaquim Pedro de Oliveira Martins afirmava sobre o problema das dificuldades económicas do país no jornal O Repórter (04-05-1888), num artigo intitulado "A política dos negócios":

"Enquanto nas cabeças de nossas avós e nossos pais havia o nevoeiro de quimeras jacobinas que acendiam a voz de José Estevão, a coragem de Passos Manuel e o estoicismo de Sá da Bandeira, a besta que vive no fundo de todos nós tinha um açaimo mais ou menos eficaz.
Varreu-se o nevoeiro, desafivelou-se a correia, e eis-nos aos pulos, a morder como cães danados por uma raiva, contra a qual ainda se não inventou Pasteur.
Este estado de crise, esperemos por Deus que seja passageiro. Quando tudo estiver mordido, babado, a escorrer sangue, é natural que, pela força das coisas, e pelas urgências da conservação da própria pele, assente a nu sobre os ossos, entremos no bom caminho".

Este juizo critico de Oliveira Martins é um pouco a esperança que move hoje a sociedade portuguesa. Atingidos pela descrença e pessimismo sobre o nosso futuro, parece que chegamos a um ponto sem retrocesso. Já não há os salvadores como no passado, as circunstâncias estão de tal forma complicadas que só nos resta entrar no bom caminho, mas acrescento como Alexandre Herculano, "à custa do sacrifício das nossas liberdades e direitos". Terá mesmo que ser assim????

AABM

MODERNIZAÇÃO I

"Anteontem, vendo Sócrates, vi Cavaco e, vendo Cavaco, vi Caetano e, vendo Caetano, vi a longa fila de beneméritos, que tentaram, no ardor da sua inconsciência, transformar Portugal no 'modelo' do dia: a Inglaterra ou a França, a Bélgica, a Suécia, a Irlanda, a Finlândia, e até a Espanha. O espantoso é que toda a gente ouve esta idiotia histórica, com a mesma credibilidade e assombro com que sempre a ouviu. Num país normal, quem abrisse a boca para dizer 'modernização' seria imediatamente corrido e sovado. Aqui, não. Aqui, o indígena gosta dessa velha missa e venera o oficiante. A 'modernização' é uma espécie de milagre, que chegará por um caminho ínvio (a educação e a ciência) e que entretanto esconde a triste realidade portuguesa. Não é uma promessa prática, é um sinal de impotência" [sublinhados nossos]

[Vasco Pulido Valente, in Público, 12/11/2006]

J.M.M.

sábado, 11 de novembro de 2006

EFEMÉRIDES DE NOVEMBRO II

dia 16
1907: Augusto José da Cunha, em entrevista ao jornal republicano O Mundo, proclama a sua adesão ao Partido Republicano.

dia 18



1907: Anselmo Braamcamp Freire, figura de prestígio da política monárquica até aquela altura, declara também a sua adesão ao partido republicano no jornal O Mundo.




dia 22
1840: nasce em Albarraque (Sintra), o jornalista Cecílio de Sousa, que dirigiu durante largos anos o jornal Folha do Povo.

dia 28
1842: nasce em Viana do Castelo, o jornalista e escritor republicano José Caldas.

1872: começa a publicar-se em Lisboa o jornal Republica, considerado um dos primeiros diários republicanos de inspiração federal e socialista onde colaboravam entre outros: Carrilho Videira e Zófimo Consiglieri Pedroso.

dia 29


1825: nasce em Lisboa um dos primeiros líderes republicanos, José Maria Latino Coelho, lente da Escola Politécnica e membro da Academia Real das Ciências de Lisboa.



dia 30



1857: nasce na cidade do Porto, José Pereira de Sampaio, conhecido literariamente como Sampaio Bruno. Autor de várias obras entre as quais:

Análise da Crença Cristã, Porto, 1874;A Geração Nova, Porto, 1886; Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana de 31 de Janeiro de 1891, Paris, 1891;Notas do Exílio, Porto, 1893; O Brasil Mental, Porto, 1898; A Ideia de Deus, Porto, 1902; Os Modernos Publicistas Portugueses, Porto, 1906; A Questão Religiosa, Porto, 1907; Portuenses Ilustres, Porto, 1907-1908; A Ditadura, Porto, 1909;O Porto Culto, Porto, 1912.

Colaborou ainda em diversos jornais e publicações republicanas e literárias de que se destacam: A Águia, 2ª série, Porto; Aurora do Cávado, Barcelos, 1873-1875; Aurora do Lima, Viana do Castelo, 1873-1874; Diário de Notícias, Lisboa, 1912 (Outubro/Novembro/Dezembro) e 1913 (Janeiro); Diário da Tarde, Porto, 1872-1873; Diário da Tarde, Porto, 1911; A Discussão, Ovar, 1912; A Discussão, Porto, 1883-1885; Folha Nova, Porto, 1881-1882; A Harpa, Porto, 1873-1874; Jornal de Notícias, Porto, 1913; Museu Ilustrado, Porto, 1878; A Pátria, Porto, 1909; Republica Portuguesa, Coimbra, 1873; A Republica Portuguesa, Porto, 1890-1891; Serões, Lisboa, 1907; A Voz Pública, Porto, diário republicano, 1894/1896-1908 entre outras colaborações.

A.A.B.M.

GUERRA JUNQUEIRO E OS HUMILDES



"Junqueiro estava estendido no caixão, com o fatinho preto coçado. Silêncio, sombras ... A fisionomia do poeta afilara e adquirira uma grande expressão de serenidade. Até as mãos se lhe tinham espiritualizado, brancas e esguias, quase diáfanas. A seu lado uma sombra maior que as outras conservava-se de pé imóvel junto do ataúde. Era a Ana de Freixo de Espada-à-Cinta, a criada que nos últimos tempos o vestia e despia, e que com uma manta negra pela cabeça, caindo em pregas rígidas, parecia uma velha figura de retábulo...

Reparei mais atentamente: aquela sombra empedernida chorava ... E lembrei-me logo dos humildes que o Poeta criou, dos cavadores, dos pastores, das mulheres de Barca de Alva parindo filhos para a desgraça e para a dor, das pobres criaturas em que falava tantas vezes, da gente simples que o não lia, da legião formidável da terra que, por uma intuição cheia de grandeza, lhe chamava sempre o Senhor Poeta"

[Raul Brandão, jornal O Mundo de 14 Julho de 1923, aliás in Seara Nova, nº 1457, Março 1967]

J.M.M.

A VIDA CONTINUARÁ ...


"Quando nos deixam os que admiramos e amamos, sentimo-nos mais pobres, morre alguma coisa em nós. A Morte parece-nos mais próxima e acordamos para ela. Adivinhamos, porém, mais vivos os mais puros, mais imperativos valores e deveres humanos. Porque os nossos mortos fazem-nos a dávida que nunca deixa de enriquecer-nos e aumenta o património da Vida. A que se transmite na corrida para mais longe e para mais alto ao encontro do Sol que vem. A que floresce a cada Primavera (...)

A Vida continuará, e a luta necessária! Continuaremos a lavra e a sementeira, seareiros!"

[Palavras de Augusto Casimiro, na Seara Nova, quando do falecimento de Câmara Reys, in aditamento à Seara Nova, nº 1464, Outubro 1967]

J.M.M.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

ALGUMAS EFEMÉRIDES DE NOVEMBRO

Tal como afirmámos, vamos tentar coligir algumas efemérides e personalidades que foram ficando mais ou menos esquecidas na construção do regime republicano em Portugal. Nesta primeira fase, procuraremos assinalar, especialmente, a luta pela implantação do Partido Republicano na Monarquia Constitucional.
Tendo plena consciência que não nos será possível referir todos os acontecimentos e datas marcantes, acabaremos por sugerir algumas que nos parecem mais pertinentes como: início de publicação de jornais ou outras publicações republicanos pelo País, datas de nascimento ou de falecimento de algumas das figuras que mais marcaram o Partido Republicano, em Portugal.
Sempre que possível, e de acordo com os nossos conhecimentos, divulgaremos também alguma bibliografia que vai sendo publicada sobre esta temática.

Vejamos então alguns acontecimentos marcantes no mês de Novembro:

dia 1

1882: publicam-se em Lisboa os primeiros números dos jornais Era Nova e Trinta Diabos & Cª.
Na Guarda, começa a publicar-se o semanário O Povo Português que vai terminar a publicação em 29 de Outubro de 1884.

dia 3
1844: nasce em Marvila (Lisboa), o escritor e jornalista Costa Goodolfim, que colaborou em diversos jornais e publicações de carácter republicano e socialista. Foi autor de diversas obras como: A Associação (1876); As Caixas Económicas Escolares (1883); Les Instituitions de Prévoyance du Portugal (1883); Assistance Publique en Portugal (1910); As Ligas de Farmácia (1909).

Nesta mesma data, mas em 1862, morre em Aveiro, o deputado e um dos mais célebres políticos da época, José Estevão Coelho de Magalhães.

dia 8

1880:publica-se o primeiro número do jornal Republica, em Lisboa, que durará até 22 de Janeiro de 1881 (Segundo Silva Pereira, O Jornalismo em Portugal. Resenha Cronológica do Jornalismo ... Lisboa(1896), p. 157, este periódico teria iniciado publicação a 10 de Novembro).

1897:em Coimbra, começa a publicar-se o semanário Portugal.

dia 12

1894:morre em Vila Real o principal responsável pelo jornal republicano O Transmontano, Augusto César.

dia 13

1869: nasce em Olhão, o médico, deputado e mais tarde ministro da República, José Estevão Brosselard de Vasconcelos.

1900:termina a sua publicação o jornal Folha do Povo, que desde 1878 se mantinha na defesa do ideário republicano. Foi seu director durante vários anos o Cecílio de Sousa, jornalista, e colaborador de várias publicações de carácter republicano.

As efemérides da segunda quinzena de Novembro, serão acrescentadas nos próximos dias.

AABM

JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO [1838-1872]


Vieira de Castro, esse "mártir da loucura da honra", foi um dos "indefectíveis" amigos de Camilo Castelo Branco. E o grande romancista soltou, como só ele sabia, todos os brados clementes e literários que pode, em sua defesa. Afinal, o defensor de Vieira de Castro navegava nas mesmas paixões, escolhos e fatalidades, que haveriam de cimentar essa "sólida e fraternal amizade". Conhece-se de Vieira de Castro os seus conflitos académicos e a sua rebeldia de estudante em Coimbra (que aliás culminou na sua expulsão da vetusta universidade); sabe-se o vigor das suas intervenções parlamentares, em que era um "notável orador", a sua filiação maçónica (nome simbólico Graccho) e as suas aventuras no Brasil, onde foi recebido em glória; não se ignora a "tragédia" que o vitimou, para sempre, ao degredo (em 1871) em Angola, após confessar ter morto a sua jovem esposa, por motivos passionais. E onde morre em 1872, "vitima de febre fulminante". O talento e o génio de Vieira de Castro são, pois, consumidos no tremendo drama e desastre da sua vida. Mas nem por isso o seu amigo Camilo, em pretendida homenagem a fazer, deixa de registar:

"À memória de José Cardoso Vieira de Castro, que aceitou o degredo e a morte, em desafronta da sua honra de marido"

Obras de Vieira de Castro: Uma pagina da universidade, precedida de uma carta ao auctor por Levy Maria Jordão, Porto, Typ. de Sebastião José Pereira, 1858 / O Atheneu: periodico mensal, scientifico e litterario, Coimbra, Imp. da Universidade, 1859 a 1860 [redactores: Vieira de Castro, Camilo C. Branco e Antonio Victorino da Motta] / Camillo Castello Branco. Noticia da sua vida e obras, Porto, Typ. de Antonio José da Silva Teixeira, 1861 / Discursos parlamentares. 1865 1866, Lisboa, Typ. da Gazeta de Portugal, 1866 / Discurso sobre a caridade, recitado aos 26 de janeiro de 1867, no salão do theatro lyrico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Typ. Perseverança, 1867 / Cartas ao sr. conselheiro Antonio Rodrigues Sampaio e ao sr. Filippe de Carvalho, Porto, na typ. Lusitana, 1868 / A republica, Porto, Typ. Lusitana, 1868 / Discurso proferido no Porto no grande «meeting» de 25 de julho de 1869, convocado por uma commissão democratica para representar ao governo contra o procedimento dos testamenteiros do conde de Ferreira e publicado pela mesma commissão, Porto, Typ. Lusitana, 1869 / A republica, Porto, Typ. Lusitana, 1868 / Colonias, pelo antigo deputado... Editor, Camillo Castello Branco, Porto, Typ. Artistica, 1871

J.M.M.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

OS IDEALISTAS DA REPÚBLICA - VIEIRA DE CASTRO

Em 1869, Vieira de Castro, amigo íntimo de Camilo Castelo Branco, na sua obra intitulada A Republica, tecia algumas reflexões interessantes sobre o que devia ser a República:

"A Republica adora a Patria, sacrifica-se pelo Estado, e não se salva senão pela Lei, que quer dizer Justiça e Egualdade, dualismo poderoso, perante o qual todos os indivíduos são pequenos, mas todos o mesmo, adindo sempre uma mesma herança, fruindo o mesmo direito, e legando sempre uma soberania!
A Republica não reconhece senão uma aristocracia social, a do talento. Não proclama senão uma virtude cívica, a do trabalho. Só conhece uma religião verdadeira, a da honra. [...] Corre dois grandes perigos a Republica, dizem. Levantar ambições que conspirem contra a egualdade, que á a sua alma; estimular invejas que a exagerem".

Lamentamos hoje a ausência de referências do nosso regime político, mas podemos recorrer a alguns bons exemplos do passado para colmatar o marasmo, a apatia e a falta de rumo que vai campeando por aí.
O nosso objectivo é assinalar algumas efemérides já esquecidas, lembrar figuras e factos que o tempo se encarregou de ir apagando da memória desta República. O ostracismo e o apagamento forçado de alguns factos foram uma realidade até há cerca de três décadas, hoje muitos estarão esquecidos da nossa memória colectiva, mas como diz o poeta: "há sempre alguém de resiste".

A.A.B.M.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

ALMANAQUE REPUBLICANO: ÉDITO

"Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo" [F. Pessoa]

O Almanaque Republicano é um álbum onde se vai perfilar uma geração sonhadora, generosa e messiânica, que é afinal o nosso costumado fadário, o nosso "eterno retorno". Da República de 1891 e da outra de 1910 há uma imensa viagem de encantos e desencantos, de "coisa esquecidas e mortas", um itinerário de bondade, pessimismo, ironia e sarcasmo. Há nele todo um movimento que "carecia de alma", como diria Pascoes. Essa Alma Republicana, seja ela qual for, será sempre essa jornada emotiva e social, espiritual e libertária, de encantos e desencantos vários, crença ou saudade do Encoberto, reformadora e socialista, liberal e popular, que da decadência à regeneração marcam para sempre o "espírito lusitano". A "Nova Era" redentora, quer fosse construída no cantar antiquíssimo da Renascença Portuguesa ou ressurgida pela demanda da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ou intencional na exaltação da luta pela emancipação das classes trabalhadoras e em redor do movimento operário e sindical, não deixa de ser, sem dúvida alguma, um dos momentos mais interessantes da história da sociedade portuguesa contemporânea. Afinal, "Ubi libertas, Ibi Patria".

Sitio de passagem e de euforias públicas, jornada de mil caminhos que o tempo percorreu, o Almanaque Republicano é um panfleto aberto e frontal da Alma Republicana. E será, doravante, o nosso "companheiro de trabalho".

Que assim seja!

Artur B. Mendonça
José M. Martins