sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

PEDAGOGIA E O IDEAL REPUBLICANO


Pedagogia e o Ideal Republicano

"... A organização democrática das sociedades impõe (...) um mínimo de educação a todos os indivíduos que a ela pertencem, e que, chamados a intervir na vida social e no governo (...) nunca o poderão fazer proficuamente sem a consciência cívica resultante da educação (...) Pode dizer-se, sem receio de desmentido, que um regime democrático é tanto mais perfeito e completo quanto mais perfeitas e completas forem nele as instituições educativas"

"(...) a República fez da educação e da instrução duas bandeiras de batalha, e com elas se tem preocupado e ocupado a cada instante. Instruir! Educar! A todo o momento os propagandistas lançam estas palavras mágicas para o meio do público. A todo o momento evocam, por meio delas, um esplendor de civismo e de progresso intelectual que não existe. A todo o momento ligam a sorte das novas instituições à vitória das ideias que estas palavras significam! e porque o farão?

Porque sentem que sem educar e sem instruir as novas gerações, dentro dum critério republicano, que seja ao mesmo tempo um critério pedagógico, ninguém poderá garantir o futuro da República e da Pátria.

Porque sentem, e porque sabem que à influência depressora de trezentos anos de educação jesuítica -desnacionalizando, desvirilizando, deprimindo as almas e os corpos - é indispensabilíssimo opor uma influência de liberdade, de energia, de vontade, de nacionalização inteligente, e de fortalecimento da nossa sensibilidade (...)"

[João Barros, in A pedagogia e o Ideal Republicano, 1979 - sublinhados nossos]

J.M.M.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

[ACTUALIDADE] SOBRE A AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES - TEXTO DE REIS TORGAL


ACTUALIDADE

Nesta revista deparamo-nos com uma opinião muito actual do Prof. Doutor Luís Reis Torgal [Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra] sobre a problemática da avaliação dos professores e como ela parece arrastar cada vez mais os docentes para uma profunda tristeza e desilusão com as medidas tomadas ao nível ministerial. Diz, o professor Torgal, tecendo algumas considerações acerca do problema da eleição de António de Oliveira Salazar como o “Grande Português” no ano transacto, que:

"[…] a extensa bibliografia sobre o Estado Novo e o Salazarismo, grande parte dela elaborada na universidade por professores e investigadores, por vezes em teses de mestrado e de doutoramento, não é geralmente lida e assimilada pelo leitor comum, nem mesmo por muitos professores de História. À maneira do jornalista do Diário de Coimbra, estes, por “falta de tempo” ou de interesse, limitam-se à consulta de manuais repletos de ilustrações mas não de informação, obras de autores nem sempre competentes cientificamente e de sites de valor duvidoso. Num ensino cada vez menos preocupado com a ciência dos alunos e dos seus docentes, sobretudo em matéria de humanidades e ciências sociais, como de resto se vê pela menor importância concedida à História (ou à Filosofia) que, enquanto disciplina autónoma, parece estar, de resto, em vias de extinção nos ensinos básico e secundário, os professores encontram-se cada vez mais envolvidos na burocracia escolar, no acompanhamento pedagógico e didáctico de alunos (numa lógica de pseudopedagogismo ou de panpedagogismo) não tendo possibilidade ou sensibilidade para constituírem bibliotecas pessoais ou escolares, para frequentarem bibliotecas públicas de referência, para assistirem a cursos de actualização de conhecimentos e até para prosseguirem os seus estudos tendentes a desenvolver a ciência em que se formaram.

O próprio decreto-lei nº 200/2007, de 22 de Maio, parece revelar, ainda que de modo indirecto e velado, essa intenção oficial de se pensar o ensino como uma prática em que a “ciência fundamental” é pelo menos desvalorizada. Trata-se da legislação relativa ao concurso para professores titulares, em que são pontuados os professores candidatos pelas várias categorias das suas actividades.

Repara-se (Anexo II, 1.2 e 1.3) que são valorizados os mestrados e os doutoramentos (cada vez se tornam mais difíceis de frequentar pelos professores), mas não se deixa de se fixar uma ordenação arbitrária (mas não causal e bem significativa), em que se referem primeiro os graus obtidos em Ciências da Educação e só depois os graus alcançados “em domínio directamente relacionado com o respectivo grupo de docência”. E quando dissemos que essa ordenação não era “causal”, afirmámo-lo baseados em argumentos suplementares. Com efeito, os professores do ensino básico e secundário doutorados só podem ser considerados “investigadores integrados” nos Centros financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia devido ao facto de haver doutores nessas condições na área das Ciências da Educação! Por outro lado, verificar-se-á que, no mesmo decreto-lei, nenhuma pontuação é atribuída pela autoria de livros e de artigos de História ou de qualquer outra ciência considerada fundamental, mas apenas ao facto de se ter sido autor de programas e manuais escolares (idem, 3.1), como se a Educação fosse apenas uma “forma” ou uma metodologia de ensino e não uma “matéria” ou conteúdo científico, e não devesse ter por missão fundamental desenvolver o espírito crítico. […]

A consciência histórica e a memória não devem constituir um património que apenas se conserva e se respeita, mas um património que se interroga. […]"

Nós subscrevemos a totalidade do que afirma este ilustre professor de História Contemporânea. Mais, sentimos que nos vão cerceando a nossa liberdade de emitir as opiniões, seja nos órgãos internos das escolas, porque existe claramente um clima de respeito reverente/medo/represálias [chamem-lhe o que quiserem!] que é imposto pela hierarquia; seja nos debates públicos, como aconteceu no programa televisivo de debate, sempre que alguém colocava problemas incómodos ou fazia afirmações, que todos os que estão por dentro do sistema sentem e dizem cada vez em voz mais baixa (porque até as paredes já têm ouvidos), mas são verdades incontornáveis, que o nosso sistema educativo tem vindo a agravar. Essas pessoas poucas oportunidades tiveram para voltar a intervir. Não sei se foi intencional ou não, mas ficou-me a dúvida que certamente outros partilharão.

Por outro lado, poucos referem mas existe, na nossa humilde opinião, um grande dilema que o Ministério da Educação nunca conseguiu resolver e que a sociedade portuguesa também ainda não fez uma opção política clara, que baralha também todo o sistema: escolaridade obrigatória, universal e gratuita. Verdade insofismável que ninguém critica e todos aplaudem, mas nunca ninguém decidiu ou teve a coragem para dizer que as progressões são automáticas. Porque isto levanta um problema de opção de política educativa clara: a escola passa a ser simplesmente um local para se estar durante o dia enquanto os pais trabalham, ou um local de aprendizagem com conteúdos científicos utilizando didácticas diversificadas? Porque é essa que eu aprendi e tenho vindo a ministrar, promovendo sempre que posso o empenho, o trabalho desenvolvido e o estudo realizado. Que cidadãos estaremos a formar se não premiarmos o esforço e o empenho?

O regresso à escola de alunos que já a tinham abandonado, tão propalado como uma conquista do governo, levanta também vários problemas, reflexões e realidades que escapam muitas vezes a quem está de fora do sistema: os alunos quiseram regressar à escola ou foi uma imposição dos Encarregados de Educação? Os alunos regressaram à escola para a família continuar a receber o Rendimento Social de Inserção, ou uma bolsa de estudo que pode significar menos um encargo para as famílias já tão apertadas financeiramente? O regresso à escola não serviu também ao poder político para diminuir um pouco mais a taxa de desemprego, que infelizmente anda tão elevada no nosso país? Eram mais alguns milhares de desempregados que o país teria que apresentar caso tivessem tentado entrar no mercado de trabalho.

O regresso à escola, de alguns alunos, que não encontram nela perspectivas de futuro para que serve e a quem interessa? A escola pode servir a algumas franjas da sociedade para disfarçar ou adiar problemas, mas as “doenças crónicas” da sociedade portuguesa estão bem presentes e a escola reflecte-os. Mais, a esmagadora maioria das escolas não tem psicólogos, assistentes sociais, terapeutas e são os professores que, na sua boa vontade, ou no seu querer ajudar os alunos, levam as coisas para a frente, mas a realidade social é cada vez mais complexa e isso só não basta.

Na nossa humilde opinião, é tempo de dizer basta! É tempo de dizer algumas verdades que provavelmente poucos assumem! É altura de dizer que já chega de tentar disfarçar o mal-estar que todos nós vamos sentindo. A angústia que vivemos num dia-a-dia cheio de burocracias que pouco ou nada resolvem. Faltam meios humanos, equipamentos, respeito e vontade de querer aprender e querer saber mais. E pedem-nos para enfrentar cada novo dia, cada nova hora com forças para manter o mínimo de respeito e dignidade para quem ensina e para quem quer aprender.

Mais que tudo exige-se responsabilidade, conhecimento da situação real e não retratos de gabinete, por parte de quem coordena e quem dirige, porque senão sentimos que caminhamos para um abismo, em que a crise social vai ser bastante mais grave do que a que se vive actualmente, como referia o recente relatório da SEDES.

Para terminar lançaríamos até um desafio: já que o Ministério da Educação quer implementar a avaliação dos docentes e eles têm que ser avaliados pela avaliação que fazem aos alunos, porque não tem o Ministério a coragem de implementar a avaliação do seu próprio desempenho junto dos professores, funcionários, sindicatos e outras entidades externas? Porque é que a avaliação só é feita num sentido e não no sentido inverso? Só porque quem quer e tem poder manda. Mas nós, que andamos por cá, em contacto com as dificuldades do quotidiano, sentimos a verdadeira dimensão destes problemas.

A.A.B.M.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

REVISTA AL-‘ULYÀ


Recebemos há poucos dias e aproveitamos para divulgar um dos exemplos em que os municípios se esforçam por promover e manter uma revista ainda que de periodicidade anual. A Al-‘Ulya, Revista do Arquivo Municipal de Loulé, que se encontra no número 12, dedica-se especialmente aos assuntos da história local (História, Antropologia, Arqueologia, Museologia, Arquivística e Biblioteconomia) e da defesa do património construído.

Esta revista é coordenada pelo Dr. Manuel Pedro Serra e é propriedade da Câmara Municipal de Loulé. Destacam-se como colaboradores neste número Joaquim Veríssimo Serrão, que esteve presente na apresentação da revista; Luís Reis Torgal; José d’ Encarnação; Maria de Fátima Nunes; e Isabel Raposo.

Neste número encontramos 13 artigos e cerca de 200 páginas distribuídas da seguinte forma:

João Pedro Bernardes - Intervenção Arqueológica de Emergência no sítio romano de Loulé-Velho (Quarteira)José d’Encarnação – Epígrafes romanas de Loulé – histórias antigas por resolver
Maria José Cadete Estação Arqueológica da Retorta e sua envolvente
Isabel LuziaA Investigação Arqueológica na cidade de Loulé durante o ano de 2007
Joaquim Veríssimo SerrãoUm Louletano Ilustre: o Engenheiro Duarte Pacheco (1899 -1943)
Maria de Fátima Nunes José António Madeira (1896-1976). De Loulé à Astronomia – deambulações científicas ao serviço de Portugal
Isabel Raposo Reflexões Patrimoniais à volta do «Guia de Loulé».
Catarina Almeida Marado A propósito da “envolvente” do património construído: o caso do antigo convento capucho de Loulé
Rita Alexandra Sabóia - Arquivo Municipal de Loulé: A problemática de uma reconversão funcional.
Luís Reis TorgalHistória, Memória, Ciência e Ensino a propósito de Jornais, Televisão, Sites e outros meios de informação.
Jorge FerreiraPaul Otlet e Raul Proença. O nascimento da moderna biblioteconomia em Portugal
Bernardo Vasconcelos e Sousa As novas instalações do Arquivo Municipal de Loulé

Uma revista muito ilustrada e bem organizada. Merece indubitavelmente o nosso melhor acolhimento para divulgação junto dos louletanos, mas também junto de outros que se interessam pelas temáticas abordadas na revista.

A.A.B.M.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS DISSIDENTES (II): VISCONDE DA RIBEIRA BRAVA



Em 2 de Abril de 1852, nasceu no Funchal, na então freguesia da Ribeira Brava, Francisco Correia de Herédia que tomará o título supra referido a partir do Decreto de 4 de Maio de 1871. Era filho de António Correia de Herédia e de Ana de Betencourt Herédia.

Estudou no Liceu do Funchal, seguindo posteriormente para Lisboa, onde se matriculou no Curso Superior de Letras, em 1877. Em 1882, foi nomeado para integrar a Comissão Central Antifiloxérica do Sul do Reino, onde participou nos trabalhos ali desenvolvidos durante vários anos.

Na década de noventa do século XIX, inicia um periódo de viagens por várias partes do mundo. Conhece e trabalha na Argentina e Paris. Em 1895 participa no primeiro Congresso Vinícola, representando o Sindicato Agrícola da Madeira.

Em termos políticos adere inicialmente ao Partido Regenerador e desempenha funções como governador civil de Bragança (18 de Dezembro de 1884 a 12 de Março de 1885) e de Beja (12 de Março de 1885 a 19 de Fevereiro de 1886). Afastando-se do Partido Regenerador adere ao Partido Progressista que permite desempenhar outras funções públicas como governador civil, novamente em Beja (1897-1898). Presidiu também a algumas câmaras municipais.

Foi eleito deputado em diversas legislaturas desde 1878. Interrompeu durante algum tempo (1885-1896)a sua participação na Câmara dos Deputados. Regressou em 1897, eleito pelo círculo da Ponta do Sol, no Partido Progressista; em 1900 foi eleito pelo círculo de Ferreira do Alentejo e, finalmente, em 1905-1906, foi eleito pelo círculo de Faro. Da sua actividade como deputado salientam-se as suas presenças como elemento integrante das Comissões de Administração Pública, perticipando ainda na Comssão responsável pela reforma eleitoral de 1883. Foi autor de vários projectos de lei ao longo do tempo, mostrando preocupação com a defesa da sua terra natal e na defesa dos problemas dos proprietários de terras. Com o decorrer dos anos vai ganhando algum distanciamento em relação às estruturas partidárias e estabelece aproximações pontuais com algumas figuras mais independentes.

Em 1905 acompanha José Maria de Alpoim na cisão com o Partido Progressista e, com outros parlamentares, fundam a Dissidência Progressista. Inicia aí um processo de aproximação ao Partido Republicano e, em 1907, juntamente com João Chagas, inicia um processo conspirativo que visava despoletar a revolução contra a monarquia. Conseguem a adesão de alguns militares da armada e conseguem angariar fundos para adquirir meterial para o fabrico de bombas. Na sua residência realizam-se as reuniões conspirativas e ali se decide marcar a data de 28 de Janeiro para iniciar a revolta. Descoberta a tentativa revolucionária, o Visconde de Ribeira Brava é detido e libertado dias depois do Regicídio (6 de Fevereiro de 1908). A partir daí envolve-se profundamente na conspiração para derrubar a Monarquia.

Após a implantação da República filiou-se no Partido Republicano Português, tornando-se um dos amigos próximos de Afonso Costa. Voltou a ser eleito deputado pela Madeira entre 1911 e 1917. Presidiu à Junta Agrícola da Madeira e pertenceu à Junta Geral do Distrito do Funchal, da Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal, da direcção da Santa Casa de Misericórdia do Funchal e foi governador-civil de Lisboa entre 1914-1915.

Foi preso durante o sidonismo e acabou assassinado em Lisboa, na denominada "Leva da Morte" em 16 de Outubro de 1918, quando era conduzido com outros detidos para o Governo Civil de Lisboa, onde seria encarcerado.

[Foto: Visconde da Ribeira Brava discursando num comício republicano in Arquivo Fotográfico]

A.A.B.M.

ORAÇÃO FÚNEBRE ... NAS EXÉQUIAS DE EL-REI D. CARLOS I


Oração Fúnebre 

"... Meus senhores:

Não ha arvore sem raizes e não ha rio sem affluentes. Assim o progresso d'um povo, assim a sua decadencia. Nem uma civilisação surge de repente, de
organismo já feito, no meio d'uma nacionalidade, nem a decadencia d'um povo apparece tambem de improviso, promovida rapidamente pelos homens d'uma epoca. Depende de muitos factores, de circumstancias diversas que successivamente se vão accumulando pelo tempo adiante. O mal da patria portugueza vem de longe, e difficilmente pôde determinar-se-Ihe a sua verdadeira origem. O que é certo é que o senhor D. Cados, ao ser investido na suprema magistratura, recebeu com a corôa a triste herança d'uma nação já decahida, illaqueada por enormes encargos, sem administrações vigilantes e quasi desprovida de homens de estado.


Logo, pois, no inicio do seu reinado veio denunciar-se o estado decadente da patria. O ultimatum da Inglaterra, a revolta de 31 de janeiro, a crise financeira, o enorme augmento de impostos que d'ella derivou, são paginas funebres, escriptas umas com sangue, outras com lagrimas, mas todas ellas sem culpa do Rei. Todos estes factos constituem o primeiro período d'este reinado, periodo triste, verdadeiramente lugubre, recingido de bulcões aterradores, prenúncios de tempestades maiores. Dir-se-ia que nos horisontes da patria se apagára para sempre o sol da felicidade (...)

A escola politica d'onde provinha el-rei o senhor D. Carlos I estava radicada de mais no doutrinarismo exaggerado da acção ministerial. E assim o senhor D. Carlos entregára, quasi em absoluto, a governação publica á politica. A politica, porém, senhoreando-se dos destinos da nação não logrou cobrir-se de gloria. Teve lampejos de prosperidade, alguns reflexos de grandeza, não digo que não, mas sem luz bastante para formar uma aureola. D'ahi o accentuar-se cada vez mais a decadencia da patria, e com essa decadencia o descredito da politica, que fatalmente ia incidir na pessoa do Rei. D'esse descredito nasceu uma reacção – a interferencia directa do Rei nos negocios do estado. Pennas brilhantes, e de innegavel valor e auctoridade, advogavam calorosamente essa interferencia, traçando o doloroso quadro da politica portugueza. O Rei hesitou durante longo tempo: medindo o alcance da tentativa e a magnitude das responsabilidades, mal podia decidir-se a tomar por esse caminho. Mas um dia, como que acordando, volveu um olhar retrospectivo e meditativo para as decadencias da patria e julgou emfim dever intervir, chamando um homem que se identificasse comsigo e com o seu plano. Era um plano muito arriscado, ainda assim... (não digo que não) talvez de exito salvador. Mas um tal plano, uma evolução governativa d'esta natureza, reclamava um estadista de grande valor, um estadista completo:- de cabeça bem organisada e sciencia bem fundada; de orientação clara, sem contradições, sem desequilibrios, sem os zig-zags da incerteza; homem sem preoccupação de partidarismos, - porque, meus senhores, o estadista que em horas afflictivas e angustiosas para a patria, tiver tal preoccupação, esse estadista é um elemento nocivo ao seu paiz (...)"

[A. Ayres Pacheco. Cónego da Sé de Lisboa, in No Templo dos Jeronymos. Oração Fúnebre pronnunciada nas exéquias de El-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luiz Filippe mandadas celebrar pelo governo no dia 25 de Abril de 1908, Lisboa, Impr. Typ. Castro Irmão, 1908]

J.M.M.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

CATÁLOGO DE BIBLIOGRAFIA SOBRE A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM PORTUGAL



Tivemos o prazer de receber, com acontece há já algum tempo, o mais recente catálogo da Livraria Antiquária Pisani Burnay, que na nossa modesta opinião merece melhor divulgação entre os que se interessam por livros antigos, em especial os que têm por tema a Implantação da República ou as grandes questões da 1ª República em Portugal entre 1910 e 1926.

Recebemos em formato de papel e consultamos regularmente os sites dos vários alfarrabistas que utilizam a internet para divulgar os seus produtos e, desta vez, temos um catálogo que consideramos bastante bom. Tem uma quantidade significativa de obras, algumas delas consideradas raras, outras de autores que foram figuras de destaque no período em questão. Num catálogo com 61 páginas, que encerra no seu seio um conjunto de 632 títulos, para todos os gostos e carteiras.

Destacamos somente alguns exemplos para ilustrar o que referimos atrás:

-ABREU, Eduardo.- Separação das Igrejas do Estado : Relatório e projecto de Lei apresentado à Assembleia Nacional Constituinte em Sessão de 25 de Junho de 1911 pelo deputado…-Lisboa: Livraria Central de Gomes de Carvalho, 1911.- 48p.; 19cm.

- ALMANACH de O Mundo para 1911-4º Anno / Editor e proprietário França Borges.- Lisboa:Imprensa Libanio da Silva, 1910.-320p.: il.; 21cm.-E + ALMANAK d’o Mundo- 1908 – 1º Anno /editor e propretario França Borges.- Lisboa: Officinas do Jornal O Mundo, 1908.- 256p.:il.; 21cm.

- ALMANACH do Jornal A Lucta.- 1º Anno 1910.- Lisboa: Empreza de Propaganda Democratica,1910.- 328p.: il.; 19cm.-B C/colaboração de A. Forjaz Sampaio, Brito Camacho, Latino Coelho, e José Miranda do Vale .Il. no texto e em separado.

- ALMEIDA, António José d’.- Desaffronta (Historia d’uma perseguição).- Coimbra: Livraria Moderna, (1895).- XV, 204,(2)p.; 24cm.

- ALMEIDA, António José d’.- Quarenta anos de vida Literária e Política.- Lisboa: J. Rodrigues & Cia., 1933-34.- 4 vols. : il.; 19cm.

- ANNUARIO democrático- 1910 ( 1º Anno da sua publicação) / propriedade registada de Gomes de Carvalho e Jayme de Souza Sebroza.- Lisboa: Livraria Central de Gomes de Carvalho, 1909.- 297p.: il.; 21cm.

- BOLETIM do Partido Republicano Português (1) / Publicado em conformidade com o Artigo 37º da Lei Organica do Partido aprovada no Congresso Republicano de Setubal relisado em 1909.- Lisboa: Tipografia Leiria, 1912.- 471p.; 24cm.

- BOLETIM do Partido Republicano Português (2) / publicado em obediência ao artigo 55º da Lei Orgânica pelo Directório de 1913-1915, formado pelos cidadãos: Drs. Affonso Costa, Estêvão de Vasconcellos, Germano Martins, Sousa Junior e Angelo Vaz; Capitães Vitorino Guimarães e Álvaro Pope; Augusto José Vieira e António França Borges ; redactor e compilador Sousa Junior.- Porto: Imprensa Moderna, 1915.- (4), 464p.; 2 cm.

- BOTTO-MACHADO, Fernão.- Crenças e Revoltas.- Lisboa: Typographia Bayard, 1908.-485, (2)p.: il.; 22cm.

- BRAGA, Teófilo.- Discursos sobre a Constituição politica da Republica Portugueza : proferidos na discussão da generalidade e especialidade, nas Sessões de 18 de Julho e 2 de Agosto de 1911 na Assembleia Nacional Constituinte.- Lisboa: Livraria Ferreira, 1911.- XIII, 104, (2)p.: 1 retr.; 23cm.

- CALDAS, José.- Os Jesuítas e a sua influencia na actual sociedade portuguesa : meio de de a conjurar.- Porto: Livraria Chardron, 1901.- XXVII, 392p.; 19cm.

- CARVALHO, Henrique de.- A Heroína da Rotunda : Novella histórica, amorosa e patriótica.- Lisboa: Typ. A Nacional, 1911.-77p.: il.; 21cm.

- CARVALHO, Henrique de.- Cartas Vermelhas ao Rei e ao Povo : Contra o jesuitismo e pela republica.- Lisboa: Typographia de António Maria Antunes, s.d.- 29p.; 22cm.

- CASTRO, Rodrigo de.- Cinzas Imortais : na morte de António Granjo.- Porto: Tipografia Lusitânia, 1922.- 123p.: il.; 19cm.

- CHAGAS, João ; COELHO, Ex-Tenente.- Historia da Revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891:(depoimento de dois cúmplices).- Lisboa: Empreza Democratica de Portugal, 1901.- (4), 470p.: il.; 25cm.

- COSTA, Afonso.- Discursos proferidos nas sessões de 13 e 19 de Maio de 1908 na Câmara dos Deputados : attitude do Partido Republicano perante o novo reinado e necessidade da extinção do juízo de instrucção criminal.-Lisboa: Livr. Classica, 1908.- (6), 88p.; 23cm.

- DISCURSOS dos Ilustres Deputados Republicanos Srs. Drs. Affonso Augusto da Costa, Alexandre Braga, António José de Almeida e João de Menezes proferidos no Parlamento / prefaciados pelo Dr. Magalhães Lima.- Lisboa: Typ. Pereira Vendinha, 1906.-424, (2)p.:il. + DISCURSOS dos Illustres Deputados…..Volume II Sessão de 1907.- Lisboa: Typographia do Commercio, 1907.- 365, (2)p.:il.;22cm.

- FERRÃO, Pedro.- A Educação Jesuítica : O Collegio de S. Fiel : Subsídios para a historia contemporanea dos Jesuítas.- Lisboa: Guimarães e Cia., 1910.- 163p.; 17cm.

- GRAINHA, M. Borges.- O Portugal Jesuita.- Lisboa: Typ. e Stereotypia Moderna, 1893.- 512,(2)p.; 20cm.

- JUNQUEIRO, Guerra.- Pedro Soriano.- Paris: S.n., 2119 (1919).- 14p.; 15cm.

- LEITÃO, Joaquim.- Os Cem dias funestos (Processo de condemnação do último Presidente do Conselho de 1910, António Teixeira de Sousa e do seu livro, “Para a História da Revolução”).- Porto: ed. Do autor, 1912.- (4), XXII, 543p.; 19cm.

- LIMA, Archer de.- Magalhães Lima e a sua obra: notas e impressões.- Lisboa: Typographia da “Editora”, 1911.- (4), 320p.: 2 retr.; 25cm.

- LIMA, Magalhães.- O Papa perante o século ( refutação do Ultramontanismo).- Porto: Imprensa Litterario-Commercial, 1874.- 58p.; 19cm.

- MACEDO, Lino de.- Apontamentos para a Historia do Movimento Republicano no Concelho de Vila Franca de Xira (1881 a 1891).- Lisboa: Imprensa Libanio da Silva, 1913.- 58p.: il.; 23cm.

- MACHADO, Bernardino.- Pela Republica 1906-1908.- Lisboa: Ed.do Autor, 1908.-
337,(2)p.;19cm.

- MARTINS, Rocha.- João Franco e o seu tempo.- Lisboa: edição do autor (Oficinas gráficas do A.B.C.), s.d.-(8), 524p.: il.; 23cm.

- MEMORIAS da Revolução : Na Rotunda, Em Artilharia 1, No Parque Eduardo VII / Relatório do Sargento revolucionário de Artilharia 1 Gonzaga Pinto.- Lisboa: Guimarães Editores, 1911.- 100p.; 20cm.

- MENDES, Dr. Victor.- A morte de Cândido dos Reis ( Estudo de Medicina-Legal) : Thése inaugural approvada com a classificação de quinze valores (Distincção) pela Faculdade de Medicina de Lisboa.- Lisboa: Cernadas e Cia., 1911.- 54,(2)p.: 4 est.; 21cm.

- MENESES, Bourbon e.- O Diario de João Chagas : A Obra e o Homem.- Lisboa: J. Rodrigues e Cia., 1930.- (8), 138, (6)p.; 20cm.

- PATRICIO, Artur.- Na Barricada da Rotunda : Episódios interessantes do movimento revolucionário.- Lisboa: Centro Typographico Colonial, 1912.- 47p.: il.;21cm.

- PIMENTA, Alfredo.- Factos sociaes (problemas d’hoje) : ensaios de filosofia critica.- Porto: Livraria Chardron, 1908.- IX, 260, (2)p.; 20cm.

- PIMENTA, Alfredo.- O Fim da Monarchia.- Coimbra: Typographia Democrática, 1906.- 95p.; 19cm.

- REIS, Cândido dos.- Pela Pátria e pela Republica – As perseguições religiosas atravez da História : conferencia proferida na benemérita Associação dos Lojistas de Lisboa.- (Lisboa): Publicação de propaganda anti-jesuítica mandada fazer pela Junta Liberal, s.d.- 73p.; 21cm.

- SALGADO, Heliodoro.- O Culto da Immaculada : estudos críticos e históricos sobre a mariolatria.- Porto: Livr. Chardron, 1905.-LXIV,380, (2)p.; 19cm.

- SANTOS, Carlos Regueira.- Viva a República.- Lisboa: Edições Oriente, 1932.- 87p.; 19cm.

- SANTOS, Machado.- A Ordem Publica e o 14 de Maio.- Lisboa: Papelaria e Tipografia Liberty, 1916.-128,(2)p.; 21cm.

- SARAIVA, Freitas.- Como se implantou a Republica em Portugal.- 2ª edição illustrada, revista e augmentada.- Lisboa: Empreza Litteraria Fluminense, 1911.- 191p.: il.;19cm.-(Notas de um revolucionário). [NOTA: Trata-se do pseudónimo de Albino Forjaz Sampaio]

- SILVA, Ismael da.- O Dr. Afonso Costa e a sua obra (1897- 1915).- Lisboa: M.Pinto Vieira, 1915.- 48p.: 1 retr.; 19cm.

- SOUSA, Teixeira de.- Para a História da Revolução.- Coimbra: Moura Marques & Paraísos, s.d. (1912).- 2 vols.; 19cm.

- VALENTE, Manuel.- A Contra-revolução Monarchica : revelações, critica, um pedaço de história.- Porto : Ed. Do autor, 1912.- (4), 221p.:il.; 20cm.

- VAZ, Angelo.- Bernardino Machado: sentimentos, ideias e factos do seu tempo.- Porto: “O Comércio do Porto”, 1950.-(12),240,(3)p.:il.;22cm.

NOTA IMPORTANTE: Estes são alguns exemplos que é possível encontrar no catálogo, no entanto, omitimos alguns casos de repetição de autores, com títulos diferentes.

Aconselhamos a leitura atenta do Boletim Bibliográfico aqui.

A.A.B.M.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

[BLOG] CARTAS PORTUGUESAS


SAÚDE E FRATERNIDADE

Saúdamos o regresso à actividade do nosso congénere e, certamente, companheiro destas lutas pelo avivar da nossa memória colectiva. Depois de alguns meses de interregno o blog de Luís Bonifácio, Cartas Portuguesas, regressou à actividade com mais informação, sempre útil, e especialmente, pela publicação de numerosas cartas que fazem um retrato de uma época.

Partindo de um conjunto epistolográfico trocado entre várias personalidades partindo de núcleos documentais de Raimundo Meira e Simas Machado, que foram personalidades em destaque na 1ª República. Um trabalho louvável e que merece todo o estímulo.

As nossas cordiais saudações.

A.A.B.M.

ARCHIVO HISTORICO PORTUGUEZ


Archivo Historico Portuguez

Archivo Historico Portuguez, Vol. I a X e parte do Vol. XI [p. 288](1903-17), Lisboa, Impr. Imp. Libanio da Silva, XI vols. Publicação importante e de muito merecimento para a historia portuguesa, com copiosa documentação e fac-similes de raros documentos (em separado), teve a colaboração de Pedro de Azevedo, António Baião, Brito Rebelo, Alexandre Herculano, Edgar Prestage, Victor Ribeiro, Anselmo Braamcamp Freire e D. José da Silva Pessanha que dirigiram a publicação, etc.

Hoje, pelas 20 horas, no Leilão da Biblioteca Jorge de Brito [a continuar nos dias 20 e 21], a cargo da "A Leiloeira" (Rua Agostinho Lourenço, 20 C - ao Areeiro, Lisboa).

Consulta do catálogo, aqui.

J.M.M.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (II)


O Marquez da Bacalhoa - romance de António de Albuquerque (II)

Gomes Leal fez a devida recensão do livro "O Marquez da Bacalhoa" nos seus opúsculos "Verdades Cruas" [nº15-16], o que suscitou a seguinte carta de António de Albuquerque:

"Meu caro Mestre - Corri ontem Lisboa à sua procura, pois desejava absolutamente agradecer-lhe o seu favor (...)

Resolvo pois escrever-lhe daqui, esperando ter amanhã o prazer de lhe apertar a mão, às duas horas, no seu escritório. Se alguma vez me senti vaidoso, confesso-lhe tê-lo sido, ao acabar a leitura do seu magnífico número das Verdades Cruas em que o Gomes Leal se ocupa exclusivamente da minha defesa com tanto brilho, valor e amizade. Se acaso lhe mereço tal deferência, será certamente pela sincera admiração que sempre senti por si. É V. como todos os grandes espíritos um látego cortante ferindo profundamente a canalha a quem não teme e despreza.

Tem razão em me chamar um revoltado e dizer que o meu romance O Marquês da Bacalhoa é um livro sincero e audaz. Eu sou efectivamente um revoltado, mas creia que o não sou por ódio, mas simplesmente pelo dó que desde criança me inspiraram sempre os oprimidos, os fracos e os ignorantes. Nem doutra forma se poderia explicar a transformação radical dum aristocrata, nascido e criado entre preconceitos religiosos e de raça. Da minha origem resta-me todavia uma consolação, se acaso evoco a memória dos meus ilustres avoengos, e quem sabe mesmo se uma explicação lógica da minha transformação. É que se êles cometeram crimes e crueldades, nenhum-posso-lhe afirmar-foi lacaio de rei ou cobarde. Dos ditos crimes absolve-os certamente a época em que viveram, e as erradas ideas do seu tempo. A exemplo dêles tambêm eu quis sacudir todos os jugos, e por isso me revoltei contra a injustiça social, passando de fidalgo ao mais convicto dos anarquistas, graças talvez à audácia e independência de caracter que dêles herdei-qualidade que para mim os absolve das suas criminosas façanhas guerreiras.

Algumas críticas lisonjeiras se fizeram ao meu livro em França, Espanha, Bélgica, algumas até firmadas por nomes ilustres, creia porêm, caro Mestre, que nenhuma me calou tam doce e carinhosamente no coração, como a do maior poeta português, Gomes Leal. Quem me diria, há tantos anos, ao ler a Traição que o autor dela se ocuparia um dia da minha insignificante pessoa! Envaideceu-me-é certo-a sua crítica, mas um outro sentimento mais íntimo ela me despertou:-uma espécie de infinito enternecimento ao contacto da sua carícia fraternal, carícia dum poderoso a um exilado mal compreendido, bálsamo sereno curando um coração em chaga. O seu elogio era escrito em português, mas apesar do meu incurável internacionalismo, a nossa língua é sempre para mim a mais bela e harmoniosa.

Tendo sido em português que me vibraram os mais rudes e injustos golpes, os quais vibrados é certo por gentes insignificantes me magoaram todavia profundamente pela inveja que os inspirava, calcule o quam grato me foi o ver-me por si desafrontado.
O Gomes Leal vingou-me plena e cruelmente, e fique certo do meu eterno reconhecimento. Sei odiar e sei igualmente estimar.

Breve espero poder enviar-lhe o meu novo livro a Execução do Rei Carlos e oxalá êle lhe leve distracção e lhe mereça aplauso. Firo nele muita gente - é verdade - mas convencido de minha justiça e da obrigação cumprida. Dir-lhe-ei, para terminar, o quanto lastimo não haver em Portugal homens possuidores do seu talento, da sua audácia, e convicção libertária. Mas valerá a pena por acaso lutarmos ainda por esta gente?

Aperto-lhe cordealmente a mão, dizendo-lhe: até amanhã.

Sintra, sexta 18 de Junho de 1909, Laurence's Hotel. - Amigo gratíssimo, António de Albuquerque
" [in Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio F. da Silva]

J.M.M.

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (I)



António de Albuquerque [aliás Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre, n. Viseu, 1866 - m. Sintra, 1923 – ler mais aqui] publica em 1908 o romance "O Marquez da Bacalhoa" [Bruxelles, Imp. Liberté] que causou enorme sucesso e não menos escândalo. A história pretende contar a vida de um ministro em plena governação do dito "Marquez da Bacalhoa", onde as personagens, sob o manto de varias escândalos e outra ignomínias, escondem putativas personagens reais, como o Rei D. Carlos, D. Amélia, João Franco, a Condessa de Sabugosa, a Condessa de Freixosa, Mouzinho de Albuquerque, etc. [Vasco Pulido Valente, in O Independente, Janeiro de 1998]

Antes mesmo da sua venda [acabou de ser escrito a 6 de Setembro de 1907] já era fortemente procurado nas livrarias. Alguns livreiros, preocupados com seu teor, dado a lei de 13 de Fevereiro de 1896, não aceitavam a sua venda ou faziam-na com muita prudência. Inocêncio Francisco da Silva [in Dicionário Bibliográfico Português] diz-nos que, mesmo assim, o "gerente da livraria Tavares Cardoso, – 5, Largo do Camões, – expunha-o na montra", pelo que no dia seguinte "o agente da polícia Tomé de S. Marcos (...) apreendeu um exemplar do livro, voltando no seguinte a convidar o dito gerente a comparecer perante o chefe Ferreira". De igual modo foram convocados à polícia os "Srs. Joaquim Monteiro, gerente da Parceria António Maria Pereira, José Pereira, sócio do livreiro José António Rodrigues, e Francisco José Gomes de Carvalho, a quem muitos supunham o editor, ou, pelo menos, que havia cedido a casa para a composição do Marquez da Bacalhoa". Ao que nos diz I.F.S., tal "não obstou à continuação da [sua] venda clandestina", o que nalguns casos atingiu preços exorbitantes [o preço de base era de 800 réis, o que já era dispendioso]. Rocha Martins [in D. Carlos] afirma que o romance foi editado [apesar da edição ter o nome do próprio escritor] pelo maçon Gomes de Carvalho [ler mais, aqui].

[continua]

J.M.M.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS DISSIDENTES (I): JOSÉ MARIA DE ALPOIM



A personalidade polémica de José Maria de Alpoim Borges Cerqueira Cabral, surge muitas vezes indicado como um dos indiciados na conspiração que culminou no Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

José Maria d'Alpoim, como muitas vezes aparece designado na época, nasceu no Solar da Rede, Mesão Frio, em 2 de Junho de 1858 e faleceu em Lisboa em 12 de Dezembro de 1916. Descendia de uma família da nobreza provincial, sendo filho de Francisco Alpoim Borges Cerqueira Cabral e de Amância Dulce Samora de Quevedo e Alpoim.

Realizou os seus estudos liceais no Porto onde foi colega de Sampaio Bruno, seguindo para Coimbra onde se bacharelou, como era vulgar na época, em Direito em 1879. Ingressou de imediato no Partido Progressista, sendo indicado para administrador do concelho de Mesão Frio (1879-1880) e mais tarde de Lamego (1880-1881). A partir de meados da década de oitenta fixa residência em Lisboa e obtem a sua colocação como primeiro oficial da Direcção Geral das Contribuições Directas do Ministério da Fazenda, transitando depois para o lugar de ajudante do procurador-geral da Coroa e Fazenda, desempenhando ainda a função de administrador da Companhia de Moçâmedes. Desempenhou por três vezes o cargo de Ministro da Justiça (1889, 1904 e 1905), acompanhando sempre José Luciano de Castro de quem era grande amigo e companheiro político.

Reconhecem-se-lhe as qualidades de lutador e grande tribunício, sendo por isso apontado como o "delfim" de José Luciano de Castro. Eleito deputado pela primeira vez em 1887, pelo círculo uninominal de Lamego, consegue mais nove mandatos como deputado pelos círculos de Lamego, Valpaços, por acumulação de votos a nível nacional, por Penafiel, por Anadia e pelo círculo plurinominal de Aveiro. Em 1905 é eleito Par do Reino e, nessa mesma época afasta-se de José Luciano de Castro e do Partido Progressista.

A sua ruptura com José Luciano deve-se à realização de uma remodelação governamental operada pelo Governo dirigido por este, em que José Maria de Alpoim ambicionva ocupar a pasta do Reino, mas foi preterido e afastou-se em colisão com o seu chefe político e funda a Dissidência Progressista, que ocupava a extrema esquerda da Monarquia. Faziam parte deste grupo nomes como António Centeno e João Pinto dos Santos, entre outros. O crescente radicalismo desta facção política facilitou os contactos com os elementos ligados ao Partido Republicano que conspiravam para derrubar a Monarquia. Envolve-se então na intentona de 28 de Janeiro que o conduziu ao exílio em Espanha. Porém, o regicídio acaba por facilitar o seu regresso imediato ao País, aproveitando a amnistia concedida pelo governo do almirante Ferreira do Amaral.

Alpoim procura ainda estabelecer uma aliança, ainda que provisória, com Júlio de Vilhena em 1909, mas a coligação rapidamente se desfez. Em Janeiro de 1910, numa conferência pública Alpoim estabelece uma espécie de programa político da Dissidência Progressista. Com a implantação da República afasta-se da vida política, mantem-se como ajudante do Procurador Geral da República e só regressa em nas vésperas da 1ª Guerra Mundial para tomar publicamente posição contra a participação de Portugal na guerra.

Conhecem-se colaborações suas em inúmeras publicações periódicas, em particular aquelas que estavam mais próximas do Partido Progressista, mas também jornais e revistas de diversa índole. Assim, começa a colaborar como correspondente político, em Lisboa, do Primeiro de Janeiro (Porto), mais tarde assumiu a direcção de O Dia (1904-1910), passou pelo Correio Português, Correio da Noite, Novidades, pelo O Repórter e colaborando com a revista Perfis Contemporâneos.

Bibliografia Consultada:

- Almeida, Pedro Tavares; Jerónimo, Miguel Bandeira, "Cabral, José Maria Alpoim de Cerqueira Borges", Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, vol. I (A - C), Maria Filomena Mónica (Coord.), col. Parlamento, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, Lisboa, 2004, p. 508-512.
- Cabral, António, Os Culpados da Queda da Monarquia, Livraria Popular Francisco Franco, Lisboa, 1946.
- Lemos, Mário Matos e, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário, Ariadne/CEIS 20, Coimbra, 2006.
- Moreira, Fernando (org.), José Luciano de Castro. Correspondência Política (1858-1911), ICS/Quetzal Editores, 1998.
- Pires, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do século XX (1900-1940), Grifo, Lisboa, 1996.

[Foto retirada de Arquivo Fotográfico de Lisboa, com a devida vénia.]

A.A.B.M.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - VISTO POR CASIMIRO GOMES DA SILVA



Continuamos hoje a trazer à luz do dia alguns depoimentos interessantes que se publicaram sobre o problema do regicídio, este defendendo claramente a posição da Monarquia. Uma obra relativamente pouco conhecida, pois é pouco citada, encontram-se-lhe de facto alguns erros [tipográficos e outros], no entanto é interessante devido às descrições vibrantes que o autor faz da vida de D. Carlos e, em particular, do regicídio.

Na obra de Casimiro Gomes da Silva, Apontamentos para a história de alguns aspectos do reinado de D. Carlos I, publicada em Sintra em 1946, p. 166-167, encontramos este extracto vivo e detalhado dos acontecimentos:

Ao passar a carruagem real na altura do Ministério da Fazenda, Buíça, postado na direcção da estátua de S. José, apontou uma carabina Winchester, desfechando. Estremeceu o corpo do rei. Era no instante em que Alfredo King, professor de D. Manuel, increpava um popular:
- Descubra-se, que vão passando S.S.M.M.!
E o popular Alfredo Costa, ao ouvir o primeiro tiro, correu sobre o trem e, saltando para a capota, disparou, à traição, a sua pistola Browning, sobre o soberano, cuja cabeça logo pendeu para a frente. Foi neste momento que a Rainha, sacudindo o ramo de flores, quis, com ele, afastar a visão sinistra.
Ao ver a agressão, o Princípe, com desembaraço, feriu o Costa, pouco depois morto pelos polícias 32 e 917, mas sem reparar no Buíça, que alvejava, gritando:
- Ah! Cães.

Produziu-se um duelo rápido, entre os dois. O antigo sargento acobertado por certo quiosque, que na época existia na praça, fez fogo duas vezes atingindo D. Luís Filipe, que, de pé sobre o veículo em movimento, mal podia regular a pontaria, acabando por desfalecer sobre as almofadas. Pulou o regicida, como um gamo, para a arcada do Ministério do Reino, fazendo esforços para atingir D. Amélia, que, com o próprio corpo ocultava o do Infante, já ferido num braço.

Passava-se isto, quando o tenente D. Francisco Figueira, oficial às ordens do Rei, atravessou com a espada, por altura dos rins, o dorso do assassino. Depois, para um polícia, que era perto disse:
- Tome conta deste homem!

Então o regicida, de joelho em terra, desfechou a arma, percutindo numa verilha o seu antagonista, que, a esvaír-se em sangue, corajosamente, resolveu ao contrário do que lhe aconselhavam:
- Não vou para o hospital! Vou para onde estiver a Família Real!
Arrastado e mesmo assim lutando sempre, Buíça foi conduzido até junto dos Paços do Concelho, onde um guarda, de nome Silva, o matou.

Dos três cumplices restantes só um deu sinal de si, ainda que passageiramente. A Rainha, mesmo nas condições anormais em que se viu, teve memória para fixar-lhe os traços. Dias depois, para fins de investigação policial, fez-lhe o retrato - sem êxito, de resto.

No meio da extraordinária desordem estabelecida, o povo fugiu em todas as direcções. Por momentos parou o trem da morte, entrando nele a Condessa de Figueiró, ao passo que o Marquês de Lavradio e outro indivíduo saltavam para os estribos. Ouviam-se ainda tiros. O trintanário, Manuel Nunes, foi lacerado numa das mãos, e o cocheiro, Bento Caparica, mal refeito do pasmo e do terror, que o tinham acometido, chicoteou, com violência, os hanoverianos, que, ressentidos na sua nobreza, quase tomamram o freio nos dentes. Dentro de segundo, a carruagem vencia o túnel do velho Arsenal da Marinha.
[...]

A.A.B.M.

ENCONTROS ALCULTUR 2008



A partir do próximo dia 20 e até 23 de Fevereiro, vai realizar-se em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, mais uma iniciativa da Cultideias.

Depois de iniciativas idênticas em Portalegre, Faro, Almada e agora Guimarães, realiza-se este importante evento dedicado aos temas culturais, nas suas diversas e variadas dimensões. Desta vez os Encontros Alcultur são dedicados à discussão destes três eixos fundamentais: Cultura, Emprego e Economia.

Ao longo de três dias de intenso trabalho podem assistir-se a apresentações muito diversificadas como: Cultura, Desenvolvimento Local e Cooperação Intermunicipal; Estímulos e constrangimentos à circulação artística; Construir cidade: arquitectura, cultura e desenvolvimento; A formação e qualificação dos profissionais das artes e da cultura; As Redes de Teatros; Empreendorismo e inovação em cultura: as indústrias criativas e as empresas culturais; Emprego, condições de trabalho e estatuto profissional dos profissionais das artes e da cultura; A cultura e a indústria do turismo; Direitos de autor e propriedade intelectual.

Entre os inúmeros convidados que vão estar ao longo dos três dias a apresentar os seus trabalhos, permitam-nos salientar alguns: Carlos Fortuna; Manuela Melo; Maria de Lourdes Lima dos Santos; José Soares Neves; Catarina Vaz Pinto; António Câmara; José Manuel Mendes; Telmo Henrique Correia Daniel Faria, entre muitos outros.

O programa completo das actividades pode ser consultado aqui.

Serão certamente dias enriquecedores para a discussão dos variados problemas que afectam a nossa cultura aos mais variados níveis.

Os votos dos maiores sucessos para mais esta iniciativa do Dr. Vítor Martelo e da equipa que o rodeia.

A.A.B.M.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O REGICÍDIO NA "REVUE DES DEUX MONDES)


O Regicídio na Revue des deux mondes [jan-fev, 1908]



[ler todo o texto, aqui]

J.M.M.

D. CARLOS REPORTAGEM DRAMÁTICA - POR AMADEU DE FREITAS FILHO


D. Carlos. Reportagem Dramática

"D. Carlos
... Tu és um bom amigo, como o Hintze.

J. MARIANO (sem se poder conter)
O Hintze!....

D. Carlos
Sim, o Hintze ... Vocês são os dois pilares do trono neste momento ... Conta com eles a monarquia, conto eu ... e conta o país.

J. MARIANO
É impossível!... Os dois partidos não se entendem. Não pode haver comunhão de ideias ... Ou governa um ou governa outro ...

D. CARLOS
Sacrifiquem essas paixões insensatas!

J. MARIANO
Eis um sacrifício impossível!

D. CARLOS
Impossível? É impossível qualquer sacrifício para o bem do país? Mas é impossível porquê, ó José Mariano? Tu não vês, não compreendes que esse sacrifício que dizes impossível é absolutamente necessário? Os políticos ainda não compreenderam isto? Tu já reparaste bem para o espectáculo que o país inteiro nos oferece, semelhante a um vulcão em véspera de terrível e inevitável erupção? (Amoso entra e assiste, de longe, ao fim do diálogo) Já auscultaste o povo, já o ouviste, já percebeste que toda a gente fala mal de mim e de vocês, que toda a gente, como tu disseste há pouco, tem a necessidade de odiar, porque as paixões, as intrigas e as invejas originaram esse ódio tôrvo e injusto que reclama sangue? Porque não se entendem vocês de uma vez para sempre, a bem da Pátria e do Rei – por amor à pátria, mais que por amizade a mim, José Mariano! - e se não unem à volta da nossa bandeira? Porque não esquecem pequenos agravos, fugidias ofensas de discursos parlamentares e não mostram o vosso patriotismo salvando o país? Que querem mais? Querem continuar a insultar-se no Parlamento, a dizer ao povo que há dois homens em Portugal com o monopólio do poder e que existe um Rei que não passa de um palhaço com que vocês brincam? Não! Acabou-se, José Mariano! Quero vida nova porque o povo reclama a vida nova e eu não posso assistir de braços cruzados ao desenvolver da raiva e ao alastrar da revolta! Não respondes? Não dizes nada? Então que patriotismo é esse, que amor ao rei é esse, ó José Mariano? Porque não acabam com essas cenas vergonhosas no Parlamento? Porque não se entendem e, tu, José Mariano, não ordenaste aos teus correligionários que não prosseguissem na oposição ao Hintze? Vocês não puderam governar – deixem governar os outros! O povo, lá fora, ruge contra mim apresentando-me como o maior culpado. Mas não pensem que só eu sou alvejado com o ódio da rua! Hei-de demonstrar que não sou merecedor dêsse ódio. Hei-de provar a toda a gente, ao país inteiro, que quero salvar a Pátria! (levanta-se. Alto, um pouco entusiasmado) Tenho sido um Rei que reina e não governa e, apesar disso, acusam-me de ser absolutista, de não respeitar a vontade do povo! Pois hei-de provar que não mereço o ódio popular!(breve silêncio). Não tens nada a dizer-me? Compreendes, agora, o meu desgosto?"

[D. Carlos. Reportagem Dramática por Amadeu de Freitas Filho, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1934. Capa do livro por Ferreira de Albuquerque]

J.M.M.

CARICATURA DO REI D. CARLOS I - POR ALFREDO CÂNDIDO


Rei D. Carlos I

Caricatura do Rei D. Carlos I [1906], por Alfredo Cândido [1879-1960]. Impressão postal d'A Editora.

[retirado do Blog da Rua Nove, com a devida vénia]

J.M.M.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS ACONTECIMENTOS VISTOS POR BERNARDINO MACHAD



Na obra de Bernardino Machado, que vemos acima, encontramos o texto que M.S.M. nos fez chegar às mãos e que muito agradecemos.






[continua]

A.A.B.M

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (CONCLUSÃO)




Neste artigo final, com extractos dos textos publicados por Aquilino Ribeiro em 1922 e 1923, na revista Seara Nova, procuramos trazer a público as impressões, que um dos participantes directos nos acontecimentos, deixou como testemunho. Sabemos de antemão que não é imparcial nas suas análises, mas é um autor muito conhecido e que no ano passado o Almanaque Republicano dedicou alguma atenção a propósito da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Hoje pegamos no artigo publicado em 1 de Março de 1923, no nº 9, da referida revista, p. 226-229, para retirarmos algumas opiniões de Aquilino Ribeiro sobre D. Carlos e a família real. Dizia então Aquilino:

[...] Um rei com mão forte e inteligente poderia ter desviado o curso dos acontecimentos, e ter aproveitado essa pleiade que se nirvanizou ou se perdeu em guerrilhas singulares? De certo. Mas tudo se conjurava para que D. Carlos não fôra esse príncipe necessário e salvador.
Era um Bragança na acepção pejorativa do nome. «Os meus defeitos procedem de duas causas: - confessava ele, segundo os termos de Ramalho [Ortigão] - primeira, a hereditariedade na gestação do meu ser; segunda, a influência do meio em que nasci e me criei». Em D. Carlos, a matéria vibrátil - aquela sua timidez nativa, gosto da comodidade, prespicácia que não inteligência, bonomia pachorrenta e tolerante, todo aquele «não te rales» para tudo o que estivesse fora da sua esfera particular, pois aí não arregimentada a usos e preceitos, a sua actividade mostrava-se viva e expedita - era de todo Bragança. Coburgo no físico, na sensibilidade e carácter neto bem herdado daquele a quem a esposa bradava, num acesso de cólera contra o pusilânime: antes rainha uma hora que duquesa a vida inteira.

Tão pouco teve a educação do príncipe providencial. Qual poderia ser? De certo não essa que lhe ministraram, mecânica de todo, sem presa na alma, Tito Lívio, as armas, a dança, as línguas, de mistura com esse leccionário, todo de vitral, depressivo que não elevador, das glórias passadas dos seus avós e vassalos dos seus avós. Estou a ver o professor de história percorrer com dedo trémulo o mapa, em que poucas são as enseadas e terras remotas, que, no dizer de Vieira, se não infamassem do sangue português. Estou a ver o velho António Augusto de Aguiar penetrando-se e ao discípulo do veneno subtil que levanta o sacudir de todos esses brocados e nobres velharias duma história majestosa. E sinto o adolescente encher-se de ânsia e de inconsolável amargura. [...]


Estava-lhe na massa do sangue esse desinteresse pela causa pública, senão fastio atávico, que a pedagogia ad usum Delphini não saberia corrigir, e um concurso de cousas, uma péssima herança tanto social como política, a noção de pequenez da sua terra, ao compará-la - a piolheira - com outras de intenso trato e vulgo desconforme, noção que conta para todo o portuguesinho e muito mais para um neto de megalómanos, e desalenta, isso e a peia constitucional, esse temível contra-senso que ou torna o soberano logro dos governantes ou o povo logro de soberano, sempre em prejuizo do povo, vieram agravar esse mal ingenito dos Braganças - o desdém pela grei. Podia a Corte, como um crisol de nobreza e virtude, depurar esses vícios de de conformação ou externos do príncipe. Mas a Corte, espelho fiel daquela que cem anos antes Mme. Junot cobriu de ridículo e seu marido de ultrajes, carecia de inteligência e tacto diplomático e até de graça. Exultando parvoinhamente, tanto se não mais que o governo então no poder, subscreveu ao casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans, destronada e odiosa ao piovo sobre que reinou muitos séculos. E erro foi este com repercussões nefastas na vida doméstica dos Braganças e nos negócios políticos e internacionais da nação.

Uma maquinação surda, de longo folego, simulaneamente empenhada junto do princípe e da princesa, devia determinar essa aliança que a cortesania fácil baptisou de romance de amor. [...]


No domínio da política internacional, o consórcio Bragança-Orleans foi um lamentável desvio. Sob o ponto de vista de política interna, teve também a sua repercussão perniciosa, se não tão sensível, não menos eficiente. D. Carlos, se não era um liberal determinado, não vergava também aos preconceitos religiosos dos seus avós. Não era papa-hóstias como a caterva de D. Joões, nem um timorato perante os juizos de Deus como D. Pedro. Em alguma coisa, já que não em riquezas ou prestígio, devia ser herdado D. Carlos pela linha materna. Às cerimónias religiosas concorria como rei por obrigação. Escreveu Guerra Junqueiro, não sei com que fundamento, que, enquanto se celebravam exéquias por alma do pai, D. Carlos caçava.

Não era fanático, a princesa, ao contrário, conservava viva a tradição de piedade e de fervor que reinavam na família. D. Carlos tinha recebido uma acção educação laica, ministrada por homens que professavam as liberdades do século; D. Maria Amélia tinha sido formada pelas irmãs do Sacré-Coeur.[...]


Na personalidade de D. Carlos há todavia uma distinção a fazer: o rei e o homem. O rei era péssimo, o homem, pelo que li, pelo que ouvi, era óptimo.

No Campo das Salésias pude divisá-lo à vontade seguindo com visível desvanecimento e orgulho as evoluções duma companhia de artilharia, ao lado de Kaiser Guilherme II, seu hóspede. Era um homem sólido, de estrutura maçiça sobre o obeso, todavia não desprovido de agilidade. Pisava com facilidade e potência. Olhos móveis e maliciosos; filamento vermelhos de sangue a sulcarem-lhes a tez rósea do rosto, duma gordura reluzente e simpática; cabelos com leves relfexos ruivos, ligeiramente encaracolados. Em tudo um desses Coburgo que veem nas oleografias, cada vez mais acentuado à medida que os anos passavam por ele.

Guardei esta imagem do homem, a qual, mais tarde, quando a paixão política arrefeceu e me deixou a faculdade de exame, veio ilustrar luminosamente actos seus do domínio particular, tornados públicos, de bonomia, de delicadeza, de compreensível altivez.


Nos próximos dias propomo-nos continuar a trazer outras fontes da época e os acontecimentos vistos por outros intervenientes. Para concluir propomo-nos elaborar uma bibliografia detalhada sobre os acontecimentos, desde a época até aos nossos dias.

A.A.B.M.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE II)


Continuando a trazer à luz do dia o conjunto de artigos publicados por Aquilino Ribeiro, na Seara Nova, intitulados O Regicídio e os Regicidas. Neste caso, um artigo públicado no número 6, de 14 de Janeiro de 1922, sobre o Alfredo da Costa.

Dizia Aquilino Ribeiro:

[...] Foi no corrente de 1906 que R. P. [personalidade ligada à Carbonária que Aquilino não identifica - nota nossa] apresentou no Gelo esse rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste, a que ninguém ligou importância. Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez por vezes de desvario, um nada de bardba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Provavelmente uma tuberculose descurada, que traiçoieiramente seguisse caminho, achatara-lhe o torax, aguçando-lhe os ombros e imprimindo-lhe já às costas uma quebratura perceptível. [...]

Alfredo da Costa foi este homem, lançado para a a cidade da sua aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, "se viu a marchar". Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, mansidão. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias; a vida com as suas facetas; o homem em todos os seus planos.

Educou-se como pôde, que mais não foi do que abrir os olhos ao que via e tratar de compreender. Tudo o que era imediato recebeu-o; tudo o que era bradado alto, ouviu-o. Nada mais receptivo que a simplicidade do camponês; nada, ao mesmo tempo, que mais precise de síntese. Para a improvisação intelectual de Costa,a revolução prégada em 1906-1907 devia ser o fecho de abóbada, a ideia adequada. [...]


O seu republicanismo acabara por tornar-se exclusivamente num estado de consciência, soberano e despótico. Não lhe faltava nada para carrasco ou herói; coragem, decisão, porque não duvidava, o fanatismo que existe sempre que acima do espírito de flora paire um só pensamento.

Em Angra do Heroísmo fundou um jornal para defesa da classe dos empregados do comércio, e tão bem conduziu a campanha das suas reivindicações que, ao cabo de tempos, vigorava ali o repouso hebdomadário. Em 1903, em Extremoz, fez intensa propaganda republicana e daí começou a colaborar nos jornais de classe da capital, sempre o mesmo homem de fé e de dedicação sem limites. Foi caixeiro viajante, e presidiu à Associação dos Empregados do Comércio de Lisboa. Depois, mediante um pequeno capital, emprestado por mão amiga, fundou uma vaga empresa de livraria, A Editora Social, onde foram editados alguns folhetos contra o regime.

Encetou ainda a publicação em fascículos, distribuídos aos domicílios, dum romance de índole popular: A Filha do Jardineiro. Nele se pretendia aproveitar a voga duma quadra que ainda hoje corre pelas aldeias em que se recorda um pecado ou suposto pecado da juventude de D. Carlos. Os seus autores F. R. [siglas que escondiam nomes de figuras públicas que não queriam ser reconhecidas], um que já foi ministro da República e outro que assentou banca de publicista [alguns autores apontam o próprio Aquilino Ribeiro], propunham-se sob pseudónimo de Miguel Mirra agitar as multidões e atraí-las ao credo republicano. Apenas vieram a lume três capítulos. Nesta empresa embrionária e mal sucedida consumiu Costa o seu pecúlio, que não era muito. [...]


A 30 de Janeiro [1908], dia em que foi assinado o decreto da proscrição pura e simples, Alfredo da Costa, teve um encontro com o oficial da marinha, M. da C. [provavelmente Marinha de Campos] que lhe disse:
-Matem João Franco e dou-lhes a minha palavra que a revolução sai para a rua. A marinha e infantaria da marinha só esperam um sinal.
Costa busca reunir um bando de homens capazes. Furtam-se todos. [...]


Nos próximos dias concluiremos este conjunto de artigos, com muita informação sobre os regicidas e o regicídio que, certamente alguns estudiosos julgaram interessante e oportuno, enquanto alguns dos nossos ledores nunca teriam ouvido falar.

A.A.B.M.

A MORTE DO REI CARLOS


A Morte do Rei Carlos [O Mundo, 24-02-1910]

Capa do jornal O Mundo de 24 de Fevereiro de 1910:

«A Morte do Rei Carlos. Factos e documentos comunicados aos homens de bem de todos os países

Ai d’aqueles que só pela violencia e pelo terror se podem manter’ (Carta do Rei Carlos a Hintze Ribeiro em 16 de Maio de 1904»

J.M.M.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE I)



A propósito do acontecimento que temos vindo a dedicar alguma atenção nos últimos tempos e face à leitura dos acontecimentos proposta pela série televisiva O Dia do Regicídio, apresentaremos nos próximos dias algumas propostas de leitura, mais ou menos conhecidas, acerca do evento em causa.

No ido ano de 1921, escreveu Aquilino Ribeiro, na recém fundada revista Seara Nova, um conjunto de artigos, que, pensamos, terá ficado inacabado. Este conjunto de artigos intitulava-se O regicídio e os regicidas e, do primeiro, publicado no número quatro, da revista supra-referida, datado de 5 de Dezembro de 1921, afirmava acerca do seu amigo, compadre e "primo":

Era Manuel Buiça dos mais assíduos frequentadores do Gelo, esse café todo arrumado a meio do Rocio tumultuário, que, não obstante o berrante das fardas, conserva um ar todo plácido de botequim provincial. As suas horas, nas meias manhãs preguiçosas de Lisboa, quando, tão lentas e doces, os senhores burocratas vão por aí abaixo mais brandos que liteira, ou à noite, depois do jantar, Buiça era certo à mesa branca do Gelo, na parte que olha a R. do Príncipe, um cálice de cognac à frente, escrevendo cartas ou cavaqueando alto com amigos ou próximos [...]

Note-se a caracterização física e psicológica que Aquilino fazia sobre Buiça:

Curioso este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais resistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa das gerações, genuíno, inquieto e batalhador como a flor estreme da raça. De corpo, era um homem de estatura meã, rosto fino, tez branca que mais realçava a barba preta com tons de fogo, na qual as suas mãos tinham o vício de passear-se, de embrenhar-se, quando a cólera o tomava ou ouvia alguém do seu agrado. A testa era longa, com as arcadas superciliares marcadas sem demais, as linhas fisionómicas duma delicadeza que, fóra das mulheres, desagrada. A aparência, toda ela de franzino, mascarava-lhe inteiramente um génio assomadiço e a coragem que não era lenta nem jamais foi receosa a medir-se. Parecia um delicado, destes homens para produzir os quais a vida das cidades esculpiu sobre a carne de gerações e gerações, desengrossando, limando, amaneirando, e era uma planta vivaz das serras. Só os olhos muito móveis e azues, mas sem fereza, traíam nele o ânimo expeditivo e a índole que, além de resoluta, era exaltada. Os seus modos espalhafatosos seriam detestáveis se não houvesse a contrabalançá-los uma grande e sincera franqueza, da mesma forma que "aquele dar-se todo" torna-lo-ia suspeito se o seu carácter se não descobrisse até os planos mais remotos. Mais que a identidade de ideias haviam-no imposto ao grupo revolucionário do Gelo, que paradoxalmente via o mundo através de Nietzsche e dos pensadores russos, haviam-no imposto aquelas virtudes do homem instintivo, generosidade, espontaneidade, poder de estimar e admirar, ao contacto dos quais o homem de pensamento se desvanece.[...]

A sua cultura literária não era também comum. Professor do Colégio Moderno, dava-me a impressão de ter uma inteligência lesta, assimilando sem esforço, mas também sem perdurabilidade. Tinha, no entanto um sentimento bastante largo da vida que nas horas de excitação costumava traduzir pelos baixos epifonemas dum pessimismo exagerado.[...]

Era isto tudo, galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais duma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral, uma ou outra anomalia medrando a meio de sentmentos que, além de ser puros, pareciam ser inibitórios. Assim, Buiça, que era um pai extremosíssimo, se não exacto, presando a sua mulher e tendo pelos filhos uma adoração sem limites, a pontos de tresnoitado ou embriagado, o que sucedia por vezes, se não poder deitar sem os beijar e se abraçar neles, mantinha correspondência de amor com uma menina de Lisboa. [...]

[Na foto: o Café Gelo, em Lisboa, nos inícios do séc. XX, um dos lugares de conspiração mais em destaque na época. Por lá passaram os regicidas, carbonários e maçons que trabalhavam para derrubar a Monarquia. In Arquivo Fotográfico com a devida vénia.]

A.A.B.M.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

FAMÍLIA REAL DE PORTUGAL EM 1899


Família Real de Portugal em 1899

D. Carlos [n. em Lisboa a 28 de Setembro de 1863, filho de do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia de Sabóia, neto paterno de D. Fernando de SaxeCoburgo-Gotha e da rainha D. Maria II e neto, pelo lado materno, do rei de Itália Vítor Manuel. Sobe ao trono a 19 de Outubro de 1889. Tolerante, amante dos “prazeres da vida”, de forte “individualidade artística”, cultiva D. Carlos as belas-artes e dedica-se aos estudos oceanográficos, outra das suas (muitas) paixões. Os gravíssimos acontecimentos durante o seu reinado – o Ultimatum, a revolta militar do 31 de Janeiro de 1891 e, de modo geral, a ditadura imposta pelo seu Presidente do Conselho, João Franco – condicionaram a sua regência, que acaba abruptamente no atentado, que lhe pôs termo à vida, do dia 1 de Fevereiro de 1908]

Rainha D. Amélia [n. a 28 de Setembro de 1865 (curiosamente no exílio), filha de Luís Filipe de Orleães e de Maria Isabel de Orleães-Montpensier, e bisneta de Luís Filipe, último rei de França. Casa em 22 de Maio de 1886 com o (então) príncipe D. Carlos. Como rainha, registe-se que fundou o Instituto de Socorros a Náufragos (1892), o Museu Nacional dos Coches e a Assistência Nacional aos Tuberculosos. Depois do regicídio “retira-se para o palácio da Pena” (Sintra), indo para o exílio (primeiro em Londres e, em seguida, para Versalhes, Paris) após os acontecimentos de 5 de Outubro de 1910, que instituiu a República. Morre em Outubro de 1951]

Rainha D. Maria Pia [n. a 16 de Outubro de 1847, filha do rei Vítor Emanuel II da Sardanha e Piemonte e da arquiduquesa de Áustria Adelaide de Habsburgo. Pertencia à casa real italiana de Sabóia, tendo casado com o rei D. Luís no dia 6 de Outubro de 1862, tornando-se rainha de Portugal. Era mãe de D. Carlos e do Infante D. Afonso Henriques, Duque do Porto. Residia oficialmente no Palácio da Ajuda e, como consequência do regicídio, fica muito abalada mentalmente, retirando-se da vida pública. Parte para o exílio para Piemonte, depois da instauração da República. Morre em 1911]

Infante D. Afonso [n. a 31 de Julho de 1865 e era filho de D. Luís e de D. Maria Pia, irmão de D. Carlos I. Popular, era conhecido pela curiosa alcunha do “Arreda”, dada pela sua extravagante condução automóvel, de que foi dos primeiros entusiastas em Portugal. Foi herdeiro “presuntivo” da coroa portuguesa, durante o reinado do seu sobrinho D. Manuel. Parte para o exílio, após o 5 de Outubro de 1910, fixando-se em Itália, onde morre a 21 de Fevereiro de 1920]

Infante D. Luiz Filipe [n. a 21 de Março de 1887, filho de D. Carlos e D. Amélia. Foi príncipe da Beira, depois Duque de Bragança, sendo o herdeiro da coroa portuguesa. Teve como preceptor Mouzinho de Albuquerque que o iniciou na vida militar. Morre no atentado de 1 de Fevereiro de 1908, tendo ainda (diz-se) ripostado contra um dos regicidas (Alfredo Costa)]

Infante D. Manuel [n. a 15 de Novembro de 1889, filho de D. Carlos e D. Amélia, irmão do príncipe D. Luiz Filipe. Sucede a seu pai, morto no atentado de 1908, como D. Manuel II. Parte para Inglaterra na sequência da revolta de 5 de Outubro de 1910. Foi uma figura notável, pelo seu amor a Portugal, pela sua excelente cultura história e literária e a sua grande afeição aos livros, não sendo estranho o legado dos seus trabalhos bibliográficos (pioneiros) sobre a história do livro em Portugal, do qual deixou obra estimada. Morre a 2 de Julho de 1932, estando os seus restos mortais sepultados no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa]

J.M.M.

MORTE D'EL REI E DO PRINCIPE REAL D. LUIZ FILIPPE


Morte d'El-Rei e do Principe Real D. Luiz Filippe

Capa do Diário de Notícias de 2 de Fevereiro de 1908:"Gravissimo attentado contra a familia real. Morte d'El-Rei e do Principe Real D. Luiz Filippe"

J.M.M.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A DERROCADA DE UM TRONO (III)


A Derrocada de um Trono (III)

"(...) O decreto que aparecia no final d'esse mez dava razão ao articulista, justificando, até certo ponto, todos os terrores do público. O arbítrio ficava definitivamente estabelecido por esse estupendo documento.

O rei estava nas suas propriedades de Villa Viçosa, caçando, mas, como o assunto era urgente e se tratava de satisfazer a pressa vingativa do governo, o Ministro da Justiça foi em busca do monarca, e, no dia 31 de Janeiro, publicava-se em Lisboa o extraordinário diploma de que só transcrevemos o primeiro artigo, pois ele basta para se ver quanto havia de ignominioso em tal documento.

«Art. 1.° - Os indivíduos pronunciados por alguns dos crimes compreendidos no art. 1.° do decreto de 21 de Novembro de 1907, poderão, quando os interesses superiores do Estado assim o aconselharem, e por virtude de deliberação do governo, tomada em conselho de ministros, ser expulsos do reino ou transportados para as possessões ultramarinas, nos termos do art. 10º, da lei de 11 de Abril de 1892»

Estas deportações ou expulsões, como adiante se dizia, não dependiam de processo judicial, eram um mero acto do poder executivo. Perante um tal decreto que, para ser extensivo aos indivíduos presos, até era de efeito retroactivo, todas as garantias desapareciam. O poder absoluto ficava estabelecido na sua forma mais celerada e odiosa. Era uma loucura!

(...) D. Carlos, bem como toda a família real, estavam (...) em Vila Viçosa, onde o ministro da justiça tinha levado a assinar o celebrado decreto de 31 de Janeiro. Mas no dia 1 de Fevereiro seguinte voltaram para Lisboa, onde chegaram um pouco depois das cinco horas da tarde.

Na estação do Terreiro do Paço demoraram-se uns instantes, recebendo os cumprimentos dos ministros e d'alguns altos personagens, metendo-se a seguir em dois landeaus. Num ia o rei a rainha e os seus dois filhos, noutro, à retaguarda, iam os dignatarios do paço. O infante D. Afonso seguia no seu automóvel.
Quando o carro em que ia o rei dava volta para a rua do Arsenal, um individuo que estivera até então encostado a uma das pilastras da arcada, avançou uns passos, tirou de sob o gabão, em que estava embuçado, uma carabina, e fez fogo contra D. Carlos, parecendo que o feriu mortalmente. Outro individuo, pondo o pé no eixo da mesma carruagem, e segurando-se capota, despejou algumas balas de pistola contra os régios personagens (...)"

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (II)


A Derrocada de um Trono (II)

" ... No dia 29 foi preso, em sua casa, o dissidente sr. João Pinto dos Santos. O chefe desse grupo, dr. José d'Alpoim, mais o Visconde de Pedralva, que sabiam ter também ordem de prisão, fugiram para Espanha.
Com o último se deu um episodio engraçado em Ensinasola, terra castelhana onde ele se fôra acolher. Julgando-o um anarquista perigoso, as autoridades de terra usaram para com o fugitivo d'um extremo de rigor, mas depois, quando souberam quem era e porque motivos ali estava, encheram-no de favores e de distinções.

As medidas de rigor da ditadura começaram pela suspensão de jornais.

No dia 31 foram suspensos o Popular, o Correio da Noite, o Dia, o Liberal e o Paiz. A Vanguarda e o Mundo já estavam suspensos. Ficavam pois unicamente em publicação o Diário de Noticias, o Século e os dois jornais franquistas.

Era de péssimo agoiro esta prepotência. O que iria mais suceder? Os liberais apavoravam-se. Mas um despacho publicado no Matin, de Paris, chegado nesse dia a Lisboa, era um tanto tranquilizador. Simulava uma conferência havida entre João Franco e o correspondente dessa importante folha parisiense, e, como para desfazer os temores do público, a respeito das ideias do ditador em tão tremenda conjuntura, o jornalista punha-lhe na boca estas palavras:

«Pode anunciar aos leitores do seu jornal que não existe nenhum fundamento para as notícias alarmantes que se teem espalhado a respeito de Portugal. Descobrimos, é certo, provas flagrantes de que se planeava uma alteração da ordem pública, porem, logo que o governo adquiriu as suficientes indicações sobre o caso, tomou as medidas necessárias para reduzir a nada essa tentativa
«foram presos os principais organizadores da agitação, e outros virão talvez ainda a ser capturados. Os tribunais os julgarão e é de supor que sejam simplesmente postos fóra da fronteira, tal como se fez no seu paiz a Deroulède e aos seus amigos. Restabelecido o sossego poderão, voltar, mas é indispensável que a tranquilidade reine no paiz
»

(...) Um jornal de Algés, a Praia, publicava, por esses dias, a seguinte apreciação d'essa singularíssima gente:

«O franquismo é principalmente típico. Não representa apenas uma perversão politica, com a evidência de todas as suas opressões, e a ameaça iminente de todos os seus crimes; é acima de tudo uma degenerescência moral, clara e decididamente manifesta, tanto na sua forma íntima, como na sua estrutura externa.
Para quem pense e veja, faça raciocínios e tire conclusões, o franquismo é uma coisa tenebrosa, horripilante. Não é apenas a ambição desenfreada d'um megalómano, posta ao serviço d'uma causa péssima, e fundamente detestada. É coisa muito pior: é o reinado d'uma epilepsia temível, mas desgraçadamente bastante espalhada entre nós, vinda, radicalmente, dos caceteiros de D. Miguel, continuada em sucessivas reviviscencias de reaccionarismo estulto, e evidenciada, em toda a sua pujança, n'este momento, pelo escabujar macabro de doidos furiosos que, nos impetos d'uma insensatez furibunda, estão almejando pelas forcas, pelos fuzilamentos, pelas vindictas mais barbaras, para assim darem satisfação aos seus doentios sentimentos.
«O que se está passando não é uma revolução política, é um desequilíbrio mental. A perversão espiritual d'alguns, venceu a circunspecção da maioria; o arbítrio d'uma tara de intelectos doentios, impoz-se à sanidade cerebral do maior número, e assim vamos n'um revolutear louco. Deus sabe até onde!
"

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (I)


A Derrocada de um Trono (I)

" ... Entrou enfim o ano de 1908, que se iniciou (...) pela destituição das vereações municipais. Pelo que, anteriormente ficou indicado é fácil de supor o estado de tensão em que os espíritos se encontravam. A revolta estava latente e tudo fazia prever um grave acontecimento.
Em começos de Janeiro o dr. Júlio de Vilhena dizia no seu Popular: - «O final de tudo isto ha de ser uma revolução ou um crime!
Nos jornais progressistas e designadamente no Correio da Manhã, a oposição à ditadura era áspera e ameaçadora. O Dia, órgão dos dissidentes, não era menos enérgico. Mas a espada de Democles da lei de 20 de Junho, do ano anterior, lá estava sempre alçada como perpetua ameaça aos jornais que discordassem do que se estava passando.
Os periódicos republicanos eram os mais moderados, visto que sobre eles se exercia mais opressora vigilância, mas, usando de subterfúgios vários, iam sempre mantendo o espírito público em profunda rebelião.

No dia 12 deste mês deu-se um episódio que ridicularizou bastante a ditadura. Aquele estudante Aquilino Ribeiro, que fôra preso por ser apanhado na casa da rua do Carreão, onde rebentara uma bomba de dinamite conseguiu fugir da esquadra do Caminho Novo, em que o tinham muito bem guardado.
Foi motivo de grande satisfação para todos os liberais.
Apesar desse percalço a policia não dormia. Por intermédio dos seus espiões, que era uma nuvem, descobrira o plano da premeditada revolução, e no dia 21 foram presas os srs. João Chagas, Alfredo Leal, Vitor de Souza e outros, e no dia seguinte o mesmo sucedeu ao sr. dr. António José d'Almeida, que era então o secretário do Directório do partido republicano.

Como os jornais franquistas afirmassem que se tinha descoberto um complot contra a vida de João Franco, o Directório do partido republicano fez espalhar por Lisboa, no dia 26, um curto manifesto em que dizia, principalmente, que: - «o diretorio republicano julga necessario, neste momento de tanta sobreexcitação, declarar bem alto, em contraposição aos ditadores, que o que ele, com o seu partido, quer, é suprimir opressões e não os homens do regime».

Apesar de se sentirem descobertos os organizadores da projectada revolução insistiam em sair com ela, designando para esse fim a noite de 28 para 29, mas, um pouco antes da hora marcada, a polícia assaltou o elevador da Biblioteca, que era d'onde devia partir o sinal, e prendeu aí os dissidentes visconde de Ribeira Brava e dr. Egas Moniz e os republicanos dr. Afonso Costa e tenente Álvaro Pope.

Em diversos pontos da cidade foram também presos alguns populares, encontrados em grupo, e no Rato travou-se renhido tiroteio entre homens do povo e polícias, resultando ficarem seis destes feridos e um morto.
Já a ditadura tinha nas mãos a prova de que se tentara realizar uma rebelião armada, e ia portanto tirar a represália.
E como seria ela? Temia-se que fosse terrível, por isso todos ficaram em dolorosa expectativa.

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.