sábado, 16 de fevereiro de 2008

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (II)


O Marquez da Bacalhoa - romance de António de Albuquerque (II)

Gomes Leal fez a devida recensão do livro "O Marquez da Bacalhoa" nos seus opúsculos "Verdades Cruas" [nº15-16], o que suscitou a seguinte carta de António de Albuquerque:

"Meu caro Mestre - Corri ontem Lisboa à sua procura, pois desejava absolutamente agradecer-lhe o seu favor (...)

Resolvo pois escrever-lhe daqui, esperando ter amanhã o prazer de lhe apertar a mão, às duas horas, no seu escritório. Se alguma vez me senti vaidoso, confesso-lhe tê-lo sido, ao acabar a leitura do seu magnífico número das Verdades Cruas em que o Gomes Leal se ocupa exclusivamente da minha defesa com tanto brilho, valor e amizade. Se acaso lhe mereço tal deferência, será certamente pela sincera admiração que sempre senti por si. É V. como todos os grandes espíritos um látego cortante ferindo profundamente a canalha a quem não teme e despreza.

Tem razão em me chamar um revoltado e dizer que o meu romance O Marquês da Bacalhoa é um livro sincero e audaz. Eu sou efectivamente um revoltado, mas creia que o não sou por ódio, mas simplesmente pelo dó que desde criança me inspiraram sempre os oprimidos, os fracos e os ignorantes. Nem doutra forma se poderia explicar a transformação radical dum aristocrata, nascido e criado entre preconceitos religiosos e de raça. Da minha origem resta-me todavia uma consolação, se acaso evoco a memória dos meus ilustres avoengos, e quem sabe mesmo se uma explicação lógica da minha transformação. É que se êles cometeram crimes e crueldades, nenhum-posso-lhe afirmar-foi lacaio de rei ou cobarde. Dos ditos crimes absolve-os certamente a época em que viveram, e as erradas ideas do seu tempo. A exemplo dêles tambêm eu quis sacudir todos os jugos, e por isso me revoltei contra a injustiça social, passando de fidalgo ao mais convicto dos anarquistas, graças talvez à audácia e independência de caracter que dêles herdei-qualidade que para mim os absolve das suas criminosas façanhas guerreiras.

Algumas críticas lisonjeiras se fizeram ao meu livro em França, Espanha, Bélgica, algumas até firmadas por nomes ilustres, creia porêm, caro Mestre, que nenhuma me calou tam doce e carinhosamente no coração, como a do maior poeta português, Gomes Leal. Quem me diria, há tantos anos, ao ler a Traição que o autor dela se ocuparia um dia da minha insignificante pessoa! Envaideceu-me-é certo-a sua crítica, mas um outro sentimento mais íntimo ela me despertou:-uma espécie de infinito enternecimento ao contacto da sua carícia fraternal, carícia dum poderoso a um exilado mal compreendido, bálsamo sereno curando um coração em chaga. O seu elogio era escrito em português, mas apesar do meu incurável internacionalismo, a nossa língua é sempre para mim a mais bela e harmoniosa.

Tendo sido em português que me vibraram os mais rudes e injustos golpes, os quais vibrados é certo por gentes insignificantes me magoaram todavia profundamente pela inveja que os inspirava, calcule o quam grato me foi o ver-me por si desafrontado.
O Gomes Leal vingou-me plena e cruelmente, e fique certo do meu eterno reconhecimento. Sei odiar e sei igualmente estimar.

Breve espero poder enviar-lhe o meu novo livro a Execução do Rei Carlos e oxalá êle lhe leve distracção e lhe mereça aplauso. Firo nele muita gente - é verdade - mas convencido de minha justiça e da obrigação cumprida. Dir-lhe-ei, para terminar, o quanto lastimo não haver em Portugal homens possuidores do seu talento, da sua audácia, e convicção libertária. Mas valerá a pena por acaso lutarmos ainda por esta gente?

Aperto-lhe cordealmente a mão, dizendo-lhe: até amanhã.

Sintra, sexta 18 de Junho de 1909, Laurence's Hotel. - Amigo gratíssimo, António de Albuquerque
" [in Dicionário Bibliográfico Português de Inocêncio F. da Silva]

J.M.M.

O MARQUEZ DA BACALHOA - ROMANCE DE ANTÓNIO ALBUQUERQUE (I)



António de Albuquerque [aliás Alardo de Amaral Cardoso e Barba de Meneses e Lencastre, n. Viseu, 1866 - m. Sintra, 1923 – ler mais aqui] publica em 1908 o romance "O Marquez da Bacalhoa" [Bruxelles, Imp. Liberté] que causou enorme sucesso e não menos escândalo. A história pretende contar a vida de um ministro em plena governação do dito "Marquez da Bacalhoa", onde as personagens, sob o manto de varias escândalos e outra ignomínias, escondem putativas personagens reais, como o Rei D. Carlos, D. Amélia, João Franco, a Condessa de Sabugosa, a Condessa de Freixosa, Mouzinho de Albuquerque, etc. [Vasco Pulido Valente, in O Independente, Janeiro de 1998]

Antes mesmo da sua venda [acabou de ser escrito a 6 de Setembro de 1907] já era fortemente procurado nas livrarias. Alguns livreiros, preocupados com seu teor, dado a lei de 13 de Fevereiro de 1896, não aceitavam a sua venda ou faziam-na com muita prudência. Inocêncio Francisco da Silva [in Dicionário Bibliográfico Português] diz-nos que, mesmo assim, o "gerente da livraria Tavares Cardoso, – 5, Largo do Camões, – expunha-o na montra", pelo que no dia seguinte "o agente da polícia Tomé de S. Marcos (...) apreendeu um exemplar do livro, voltando no seguinte a convidar o dito gerente a comparecer perante o chefe Ferreira". De igual modo foram convocados à polícia os "Srs. Joaquim Monteiro, gerente da Parceria António Maria Pereira, José Pereira, sócio do livreiro José António Rodrigues, e Francisco José Gomes de Carvalho, a quem muitos supunham o editor, ou, pelo menos, que havia cedido a casa para a composição do Marquez da Bacalhoa". Ao que nos diz I.F.S., tal "não obstou à continuação da [sua] venda clandestina", o que nalguns casos atingiu preços exorbitantes [o preço de base era de 800 réis, o que já era dispendioso]. Rocha Martins [in D. Carlos] afirma que o romance foi editado [apesar da edição ter o nome do próprio escritor] pelo maçon Gomes de Carvalho [ler mais, aqui].

[continua]

J.M.M.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS DISSIDENTES (I): JOSÉ MARIA DE ALPOIM



A personalidade polémica de José Maria de Alpoim Borges Cerqueira Cabral, surge muitas vezes indicado como um dos indiciados na conspiração que culminou no Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

José Maria d'Alpoim, como muitas vezes aparece designado na época, nasceu no Solar da Rede, Mesão Frio, em 2 de Junho de 1858 e faleceu em Lisboa em 12 de Dezembro de 1916. Descendia de uma família da nobreza provincial, sendo filho de Francisco Alpoim Borges Cerqueira Cabral e de Amância Dulce Samora de Quevedo e Alpoim.

Realizou os seus estudos liceais no Porto onde foi colega de Sampaio Bruno, seguindo para Coimbra onde se bacharelou, como era vulgar na época, em Direito em 1879. Ingressou de imediato no Partido Progressista, sendo indicado para administrador do concelho de Mesão Frio (1879-1880) e mais tarde de Lamego (1880-1881). A partir de meados da década de oitenta fixa residência em Lisboa e obtem a sua colocação como primeiro oficial da Direcção Geral das Contribuições Directas do Ministério da Fazenda, transitando depois para o lugar de ajudante do procurador-geral da Coroa e Fazenda, desempenhando ainda a função de administrador da Companhia de Moçâmedes. Desempenhou por três vezes o cargo de Ministro da Justiça (1889, 1904 e 1905), acompanhando sempre José Luciano de Castro de quem era grande amigo e companheiro político.

Reconhecem-se-lhe as qualidades de lutador e grande tribunício, sendo por isso apontado como o "delfim" de José Luciano de Castro. Eleito deputado pela primeira vez em 1887, pelo círculo uninominal de Lamego, consegue mais nove mandatos como deputado pelos círculos de Lamego, Valpaços, por acumulação de votos a nível nacional, por Penafiel, por Anadia e pelo círculo plurinominal de Aveiro. Em 1905 é eleito Par do Reino e, nessa mesma época afasta-se de José Luciano de Castro e do Partido Progressista.

A sua ruptura com José Luciano deve-se à realização de uma remodelação governamental operada pelo Governo dirigido por este, em que José Maria de Alpoim ambicionva ocupar a pasta do Reino, mas foi preterido e afastou-se em colisão com o seu chefe político e funda a Dissidência Progressista, que ocupava a extrema esquerda da Monarquia. Faziam parte deste grupo nomes como António Centeno e João Pinto dos Santos, entre outros. O crescente radicalismo desta facção política facilitou os contactos com os elementos ligados ao Partido Republicano que conspiravam para derrubar a Monarquia. Envolve-se então na intentona de 28 de Janeiro que o conduziu ao exílio em Espanha. Porém, o regicídio acaba por facilitar o seu regresso imediato ao País, aproveitando a amnistia concedida pelo governo do almirante Ferreira do Amaral.

Alpoim procura ainda estabelecer uma aliança, ainda que provisória, com Júlio de Vilhena em 1909, mas a coligação rapidamente se desfez. Em Janeiro de 1910, numa conferência pública Alpoim estabelece uma espécie de programa político da Dissidência Progressista. Com a implantação da República afasta-se da vida política, mantem-se como ajudante do Procurador Geral da República e só regressa em nas vésperas da 1ª Guerra Mundial para tomar publicamente posição contra a participação de Portugal na guerra.

Conhecem-se colaborações suas em inúmeras publicações periódicas, em particular aquelas que estavam mais próximas do Partido Progressista, mas também jornais e revistas de diversa índole. Assim, começa a colaborar como correspondente político, em Lisboa, do Primeiro de Janeiro (Porto), mais tarde assumiu a direcção de O Dia (1904-1910), passou pelo Correio Português, Correio da Noite, Novidades, pelo O Repórter e colaborando com a revista Perfis Contemporâneos.

Bibliografia Consultada:

- Almeida, Pedro Tavares; Jerónimo, Miguel Bandeira, "Cabral, José Maria Alpoim de Cerqueira Borges", Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, vol. I (A - C), Maria Filomena Mónica (Coord.), col. Parlamento, Imprensa de Ciências Sociais/Assembleia da República, Lisboa, 2004, p. 508-512.
- Cabral, António, Os Culpados da Queda da Monarquia, Livraria Popular Francisco Franco, Lisboa, 1946.
- Lemos, Mário Matos e, Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário, Ariadne/CEIS 20, Coimbra, 2006.
- Moreira, Fernando (org.), José Luciano de Castro. Correspondência Política (1858-1911), ICS/Quetzal Editores, 1998.
- Pires, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do século XX (1900-1940), Grifo, Lisboa, 1996.

[Foto retirada de Arquivo Fotográfico de Lisboa, com a devida vénia.]

A.A.B.M.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - VISTO POR CASIMIRO GOMES DA SILVA



Continuamos hoje a trazer à luz do dia alguns depoimentos interessantes que se publicaram sobre o problema do regicídio, este defendendo claramente a posição da Monarquia. Uma obra relativamente pouco conhecida, pois é pouco citada, encontram-se-lhe de facto alguns erros [tipográficos e outros], no entanto é interessante devido às descrições vibrantes que o autor faz da vida de D. Carlos e, em particular, do regicídio.

Na obra de Casimiro Gomes da Silva, Apontamentos para a história de alguns aspectos do reinado de D. Carlos I, publicada em Sintra em 1946, p. 166-167, encontramos este extracto vivo e detalhado dos acontecimentos:

Ao passar a carruagem real na altura do Ministério da Fazenda, Buíça, postado na direcção da estátua de S. José, apontou uma carabina Winchester, desfechando. Estremeceu o corpo do rei. Era no instante em que Alfredo King, professor de D. Manuel, increpava um popular:
- Descubra-se, que vão passando S.S.M.M.!
E o popular Alfredo Costa, ao ouvir o primeiro tiro, correu sobre o trem e, saltando para a capota, disparou, à traição, a sua pistola Browning, sobre o soberano, cuja cabeça logo pendeu para a frente. Foi neste momento que a Rainha, sacudindo o ramo de flores, quis, com ele, afastar a visão sinistra.
Ao ver a agressão, o Princípe, com desembaraço, feriu o Costa, pouco depois morto pelos polícias 32 e 917, mas sem reparar no Buíça, que alvejava, gritando:
- Ah! Cães.

Produziu-se um duelo rápido, entre os dois. O antigo sargento acobertado por certo quiosque, que na época existia na praça, fez fogo duas vezes atingindo D. Luís Filipe, que, de pé sobre o veículo em movimento, mal podia regular a pontaria, acabando por desfalecer sobre as almofadas. Pulou o regicida, como um gamo, para a arcada do Ministério do Reino, fazendo esforços para atingir D. Amélia, que, com o próprio corpo ocultava o do Infante, já ferido num braço.

Passava-se isto, quando o tenente D. Francisco Figueira, oficial às ordens do Rei, atravessou com a espada, por altura dos rins, o dorso do assassino. Depois, para um polícia, que era perto disse:
- Tome conta deste homem!

Então o regicida, de joelho em terra, desfechou a arma, percutindo numa verilha o seu antagonista, que, a esvaír-se em sangue, corajosamente, resolveu ao contrário do que lhe aconselhavam:
- Não vou para o hospital! Vou para onde estiver a Família Real!
Arrastado e mesmo assim lutando sempre, Buíça foi conduzido até junto dos Paços do Concelho, onde um guarda, de nome Silva, o matou.

Dos três cumplices restantes só um deu sinal de si, ainda que passageiramente. A Rainha, mesmo nas condições anormais em que se viu, teve memória para fixar-lhe os traços. Dias depois, para fins de investigação policial, fez-lhe o retrato - sem êxito, de resto.

No meio da extraordinária desordem estabelecida, o povo fugiu em todas as direcções. Por momentos parou o trem da morte, entrando nele a Condessa de Figueiró, ao passo que o Marquês de Lavradio e outro indivíduo saltavam para os estribos. Ouviam-se ainda tiros. O trintanário, Manuel Nunes, foi lacerado numa das mãos, e o cocheiro, Bento Caparica, mal refeito do pasmo e do terror, que o tinham acometido, chicoteou, com violência, os hanoverianos, que, ressentidos na sua nobreza, quase tomamram o freio nos dentes. Dentro de segundo, a carruagem vencia o túnel do velho Arsenal da Marinha.
[...]

A.A.B.M.

ENCONTROS ALCULTUR 2008



A partir do próximo dia 20 e até 23 de Fevereiro, vai realizar-se em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, mais uma iniciativa da Cultideias.

Depois de iniciativas idênticas em Portalegre, Faro, Almada e agora Guimarães, realiza-se este importante evento dedicado aos temas culturais, nas suas diversas e variadas dimensões. Desta vez os Encontros Alcultur são dedicados à discussão destes três eixos fundamentais: Cultura, Emprego e Economia.

Ao longo de três dias de intenso trabalho podem assistir-se a apresentações muito diversificadas como: Cultura, Desenvolvimento Local e Cooperação Intermunicipal; Estímulos e constrangimentos à circulação artística; Construir cidade: arquitectura, cultura e desenvolvimento; A formação e qualificação dos profissionais das artes e da cultura; As Redes de Teatros; Empreendorismo e inovação em cultura: as indústrias criativas e as empresas culturais; Emprego, condições de trabalho e estatuto profissional dos profissionais das artes e da cultura; A cultura e a indústria do turismo; Direitos de autor e propriedade intelectual.

Entre os inúmeros convidados que vão estar ao longo dos três dias a apresentar os seus trabalhos, permitam-nos salientar alguns: Carlos Fortuna; Manuela Melo; Maria de Lourdes Lima dos Santos; José Soares Neves; Catarina Vaz Pinto; António Câmara; José Manuel Mendes; Telmo Henrique Correia Daniel Faria, entre muitos outros.

O programa completo das actividades pode ser consultado aqui.

Serão certamente dias enriquecedores para a discussão dos variados problemas que afectam a nossa cultura aos mais variados níveis.

Os votos dos maiores sucessos para mais esta iniciativa do Dr. Vítor Martelo e da equipa que o rodeia.

A.A.B.M.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O REGICÍDIO NA "REVUE DES DEUX MONDES)


O Regicídio na Revue des deux mondes [jan-fev, 1908]



[ler todo o texto, aqui]

J.M.M.

D. CARLOS REPORTAGEM DRAMÁTICA - POR AMADEU DE FREITAS FILHO


D. Carlos. Reportagem Dramática

"D. Carlos
... Tu és um bom amigo, como o Hintze.

J. MARIANO (sem se poder conter)
O Hintze!....

D. Carlos
Sim, o Hintze ... Vocês são os dois pilares do trono neste momento ... Conta com eles a monarquia, conto eu ... e conta o país.

J. MARIANO
É impossível!... Os dois partidos não se entendem. Não pode haver comunhão de ideias ... Ou governa um ou governa outro ...

D. CARLOS
Sacrifiquem essas paixões insensatas!

J. MARIANO
Eis um sacrifício impossível!

D. CARLOS
Impossível? É impossível qualquer sacrifício para o bem do país? Mas é impossível porquê, ó José Mariano? Tu não vês, não compreendes que esse sacrifício que dizes impossível é absolutamente necessário? Os políticos ainda não compreenderam isto? Tu já reparaste bem para o espectáculo que o país inteiro nos oferece, semelhante a um vulcão em véspera de terrível e inevitável erupção? (Amoso entra e assiste, de longe, ao fim do diálogo) Já auscultaste o povo, já o ouviste, já percebeste que toda a gente fala mal de mim e de vocês, que toda a gente, como tu disseste há pouco, tem a necessidade de odiar, porque as paixões, as intrigas e as invejas originaram esse ódio tôrvo e injusto que reclama sangue? Porque não se entendem vocês de uma vez para sempre, a bem da Pátria e do Rei – por amor à pátria, mais que por amizade a mim, José Mariano! - e se não unem à volta da nossa bandeira? Porque não esquecem pequenos agravos, fugidias ofensas de discursos parlamentares e não mostram o vosso patriotismo salvando o país? Que querem mais? Querem continuar a insultar-se no Parlamento, a dizer ao povo que há dois homens em Portugal com o monopólio do poder e que existe um Rei que não passa de um palhaço com que vocês brincam? Não! Acabou-se, José Mariano! Quero vida nova porque o povo reclama a vida nova e eu não posso assistir de braços cruzados ao desenvolver da raiva e ao alastrar da revolta! Não respondes? Não dizes nada? Então que patriotismo é esse, que amor ao rei é esse, ó José Mariano? Porque não acabam com essas cenas vergonhosas no Parlamento? Porque não se entendem e, tu, José Mariano, não ordenaste aos teus correligionários que não prosseguissem na oposição ao Hintze? Vocês não puderam governar – deixem governar os outros! O povo, lá fora, ruge contra mim apresentando-me como o maior culpado. Mas não pensem que só eu sou alvejado com o ódio da rua! Hei-de demonstrar que não sou merecedor dêsse ódio. Hei-de provar a toda a gente, ao país inteiro, que quero salvar a Pátria! (levanta-se. Alto, um pouco entusiasmado) Tenho sido um Rei que reina e não governa e, apesar disso, acusam-me de ser absolutista, de não respeitar a vontade do povo! Pois hei-de provar que não mereço o ódio popular!(breve silêncio). Não tens nada a dizer-me? Compreendes, agora, o meu desgosto?"

[D. Carlos. Reportagem Dramática por Amadeu de Freitas Filho, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1934. Capa do livro por Ferreira de Albuquerque]

J.M.M.

CARICATURA DO REI D. CARLOS I - POR ALFREDO CÂNDIDO


Rei D. Carlos I

Caricatura do Rei D. Carlos I [1906], por Alfredo Cândido [1879-1960]. Impressão postal d'A Editora.

[retirado do Blog da Rua Nove, com a devida vénia]

J.M.M.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - OS ACONTECIMENTOS VISTOS POR BERNARDINO MACHAD



Na obra de Bernardino Machado, que vemos acima, encontramos o texto que M.S.M. nos fez chegar às mãos e que muito agradecemos.






[continua]

A.A.B.M

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (CONCLUSÃO)




Neste artigo final, com extractos dos textos publicados por Aquilino Ribeiro em 1922 e 1923, na revista Seara Nova, procuramos trazer a público as impressões, que um dos participantes directos nos acontecimentos, deixou como testemunho. Sabemos de antemão que não é imparcial nas suas análises, mas é um autor muito conhecido e que no ano passado o Almanaque Republicano dedicou alguma atenção a propósito da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Hoje pegamos no artigo publicado em 1 de Março de 1923, no nº 9, da referida revista, p. 226-229, para retirarmos algumas opiniões de Aquilino Ribeiro sobre D. Carlos e a família real. Dizia então Aquilino:

[...] Um rei com mão forte e inteligente poderia ter desviado o curso dos acontecimentos, e ter aproveitado essa pleiade que se nirvanizou ou se perdeu em guerrilhas singulares? De certo. Mas tudo se conjurava para que D. Carlos não fôra esse príncipe necessário e salvador.
Era um Bragança na acepção pejorativa do nome. «Os meus defeitos procedem de duas causas: - confessava ele, segundo os termos de Ramalho [Ortigão] - primeira, a hereditariedade na gestação do meu ser; segunda, a influência do meio em que nasci e me criei». Em D. Carlos, a matéria vibrátil - aquela sua timidez nativa, gosto da comodidade, prespicácia que não inteligência, bonomia pachorrenta e tolerante, todo aquele «não te rales» para tudo o que estivesse fora da sua esfera particular, pois aí não arregimentada a usos e preceitos, a sua actividade mostrava-se viva e expedita - era de todo Bragança. Coburgo no físico, na sensibilidade e carácter neto bem herdado daquele a quem a esposa bradava, num acesso de cólera contra o pusilânime: antes rainha uma hora que duquesa a vida inteira.

Tão pouco teve a educação do príncipe providencial. Qual poderia ser? De certo não essa que lhe ministraram, mecânica de todo, sem presa na alma, Tito Lívio, as armas, a dança, as línguas, de mistura com esse leccionário, todo de vitral, depressivo que não elevador, das glórias passadas dos seus avós e vassalos dos seus avós. Estou a ver o professor de história percorrer com dedo trémulo o mapa, em que poucas são as enseadas e terras remotas, que, no dizer de Vieira, se não infamassem do sangue português. Estou a ver o velho António Augusto de Aguiar penetrando-se e ao discípulo do veneno subtil que levanta o sacudir de todos esses brocados e nobres velharias duma história majestosa. E sinto o adolescente encher-se de ânsia e de inconsolável amargura. [...]


Estava-lhe na massa do sangue esse desinteresse pela causa pública, senão fastio atávico, que a pedagogia ad usum Delphini não saberia corrigir, e um concurso de cousas, uma péssima herança tanto social como política, a noção de pequenez da sua terra, ao compará-la - a piolheira - com outras de intenso trato e vulgo desconforme, noção que conta para todo o portuguesinho e muito mais para um neto de megalómanos, e desalenta, isso e a peia constitucional, esse temível contra-senso que ou torna o soberano logro dos governantes ou o povo logro de soberano, sempre em prejuizo do povo, vieram agravar esse mal ingenito dos Braganças - o desdém pela grei. Podia a Corte, como um crisol de nobreza e virtude, depurar esses vícios de de conformação ou externos do príncipe. Mas a Corte, espelho fiel daquela que cem anos antes Mme. Junot cobriu de ridículo e seu marido de ultrajes, carecia de inteligência e tacto diplomático e até de graça. Exultando parvoinhamente, tanto se não mais que o governo então no poder, subscreveu ao casamento de D. Carlos com D. Maria Amélia de Orleans, destronada e odiosa ao piovo sobre que reinou muitos séculos. E erro foi este com repercussões nefastas na vida doméstica dos Braganças e nos negócios políticos e internacionais da nação.

Uma maquinação surda, de longo folego, simulaneamente empenhada junto do princípe e da princesa, devia determinar essa aliança que a cortesania fácil baptisou de romance de amor. [...]


No domínio da política internacional, o consórcio Bragança-Orleans foi um lamentável desvio. Sob o ponto de vista de política interna, teve também a sua repercussão perniciosa, se não tão sensível, não menos eficiente. D. Carlos, se não era um liberal determinado, não vergava também aos preconceitos religiosos dos seus avós. Não era papa-hóstias como a caterva de D. Joões, nem um timorato perante os juizos de Deus como D. Pedro. Em alguma coisa, já que não em riquezas ou prestígio, devia ser herdado D. Carlos pela linha materna. Às cerimónias religiosas concorria como rei por obrigação. Escreveu Guerra Junqueiro, não sei com que fundamento, que, enquanto se celebravam exéquias por alma do pai, D. Carlos caçava.

Não era fanático, a princesa, ao contrário, conservava viva a tradição de piedade e de fervor que reinavam na família. D. Carlos tinha recebido uma acção educação laica, ministrada por homens que professavam as liberdades do século; D. Maria Amélia tinha sido formada pelas irmãs do Sacré-Coeur.[...]


Na personalidade de D. Carlos há todavia uma distinção a fazer: o rei e o homem. O rei era péssimo, o homem, pelo que li, pelo que ouvi, era óptimo.

No Campo das Salésias pude divisá-lo à vontade seguindo com visível desvanecimento e orgulho as evoluções duma companhia de artilharia, ao lado de Kaiser Guilherme II, seu hóspede. Era um homem sólido, de estrutura maçiça sobre o obeso, todavia não desprovido de agilidade. Pisava com facilidade e potência. Olhos móveis e maliciosos; filamento vermelhos de sangue a sulcarem-lhes a tez rósea do rosto, duma gordura reluzente e simpática; cabelos com leves relfexos ruivos, ligeiramente encaracolados. Em tudo um desses Coburgo que veem nas oleografias, cada vez mais acentuado à medida que os anos passavam por ele.

Guardei esta imagem do homem, a qual, mais tarde, quando a paixão política arrefeceu e me deixou a faculdade de exame, veio ilustrar luminosamente actos seus do domínio particular, tornados públicos, de bonomia, de delicadeza, de compreensível altivez.


Nos próximos dias propomo-nos continuar a trazer outras fontes da época e os acontecimentos vistos por outros intervenientes. Para concluir propomo-nos elaborar uma bibliografia detalhada sobre os acontecimentos, desde a época até aos nossos dias.

A.A.B.M.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE II)


Continuando a trazer à luz do dia o conjunto de artigos publicados por Aquilino Ribeiro, na Seara Nova, intitulados O Regicídio e os Regicidas. Neste caso, um artigo públicado no número 6, de 14 de Janeiro de 1922, sobre o Alfredo da Costa.

Dizia Aquilino Ribeiro:

[...] Foi no corrente de 1906 que R. P. [personalidade ligada à Carbonária que Aquilino não identifica - nota nossa] apresentou no Gelo esse rapaz de vinte e oito anos, alto, desengonçado de corpo, duma fisionomia séria, quase triste, a que ninguém ligou importância. Grandes olhos castanhos, lentos a mover-se, com uma fixidez por vezes de desvario, um nada de bardba loura no queixo, o nariz levemente amolgado sobre a esquerda. Provavelmente uma tuberculose descurada, que traiçoieiramente seguisse caminho, achatara-lhe o torax, aguçando-lhe os ombros e imprimindo-lhe já às costas uma quebratura perceptível. [...]

Alfredo da Costa foi este homem, lançado para a a cidade da sua aldeia alentejana, e que, dobrando-se sobre si, batido dos baldões, "se viu a marchar". Atrás, todo o atavismo da alma popular, opressões, tristeza, fatalismo, mansidão. Pela frente, o torvelinho do século, luz e sombras, ideias confusas, ideias desordenadas, ideias; a vida com as suas facetas; o homem em todos os seus planos.

Educou-se como pôde, que mais não foi do que abrir os olhos ao que via e tratar de compreender. Tudo o que era imediato recebeu-o; tudo o que era bradado alto, ouviu-o. Nada mais receptivo que a simplicidade do camponês; nada, ao mesmo tempo, que mais precise de síntese. Para a improvisação intelectual de Costa,a revolução prégada em 1906-1907 devia ser o fecho de abóbada, a ideia adequada. [...]


O seu republicanismo acabara por tornar-se exclusivamente num estado de consciência, soberano e despótico. Não lhe faltava nada para carrasco ou herói; coragem, decisão, porque não duvidava, o fanatismo que existe sempre que acima do espírito de flora paire um só pensamento.

Em Angra do Heroísmo fundou um jornal para defesa da classe dos empregados do comércio, e tão bem conduziu a campanha das suas reivindicações que, ao cabo de tempos, vigorava ali o repouso hebdomadário. Em 1903, em Extremoz, fez intensa propaganda republicana e daí começou a colaborar nos jornais de classe da capital, sempre o mesmo homem de fé e de dedicação sem limites. Foi caixeiro viajante, e presidiu à Associação dos Empregados do Comércio de Lisboa. Depois, mediante um pequeno capital, emprestado por mão amiga, fundou uma vaga empresa de livraria, A Editora Social, onde foram editados alguns folhetos contra o regime.

Encetou ainda a publicação em fascículos, distribuídos aos domicílios, dum romance de índole popular: A Filha do Jardineiro. Nele se pretendia aproveitar a voga duma quadra que ainda hoje corre pelas aldeias em que se recorda um pecado ou suposto pecado da juventude de D. Carlos. Os seus autores F. R. [siglas que escondiam nomes de figuras públicas que não queriam ser reconhecidas], um que já foi ministro da República e outro que assentou banca de publicista [alguns autores apontam o próprio Aquilino Ribeiro], propunham-se sob pseudónimo de Miguel Mirra agitar as multidões e atraí-las ao credo republicano. Apenas vieram a lume três capítulos. Nesta empresa embrionária e mal sucedida consumiu Costa o seu pecúlio, que não era muito. [...]


A 30 de Janeiro [1908], dia em que foi assinado o decreto da proscrição pura e simples, Alfredo da Costa, teve um encontro com o oficial da marinha, M. da C. [provavelmente Marinha de Campos] que lhe disse:
-Matem João Franco e dou-lhes a minha palavra que a revolução sai para a rua. A marinha e infantaria da marinha só esperam um sinal.
Costa busca reunir um bando de homens capazes. Furtam-se todos. [...]


Nos próximos dias concluiremos este conjunto de artigos, com muita informação sobre os regicidas e o regicídio que, certamente alguns estudiosos julgaram interessante e oportuno, enquanto alguns dos nossos ledores nunca teriam ouvido falar.

A.A.B.M.

A MORTE DO REI CARLOS


A Morte do Rei Carlos [O Mundo, 24-02-1910]

Capa do jornal O Mundo de 24 de Fevereiro de 1910:

«A Morte do Rei Carlos. Factos e documentos comunicados aos homens de bem de todos os países

Ai d’aqueles que só pela violencia e pelo terror se podem manter’ (Carta do Rei Carlos a Hintze Ribeiro em 16 de Maio de 1904»

J.M.M.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

REGICÍDIO - UM TESTEMUNHO "SUSPEITO" (PARTE I)



A propósito do acontecimento que temos vindo a dedicar alguma atenção nos últimos tempos e face à leitura dos acontecimentos proposta pela série televisiva O Dia do Regicídio, apresentaremos nos próximos dias algumas propostas de leitura, mais ou menos conhecidas, acerca do evento em causa.

No ido ano de 1921, escreveu Aquilino Ribeiro, na recém fundada revista Seara Nova, um conjunto de artigos, que, pensamos, terá ficado inacabado. Este conjunto de artigos intitulava-se O regicídio e os regicidas e, do primeiro, publicado no número quatro, da revista supra-referida, datado de 5 de Dezembro de 1921, afirmava acerca do seu amigo, compadre e "primo":

Era Manuel Buiça dos mais assíduos frequentadores do Gelo, esse café todo arrumado a meio do Rocio tumultuário, que, não obstante o berrante das fardas, conserva um ar todo plácido de botequim provincial. As suas horas, nas meias manhãs preguiçosas de Lisboa, quando, tão lentas e doces, os senhores burocratas vão por aí abaixo mais brandos que liteira, ou à noite, depois do jantar, Buiça era certo à mesa branca do Gelo, na parte que olha a R. do Príncipe, um cálice de cognac à frente, escrevendo cartas ou cavaqueando alto com amigos ou próximos [...]

Note-se a caracterização física e psicológica que Aquilino fazia sobre Buiça:

Curioso este tipo de português, vindo do Norte, da parte mais resistentemente nacional, godo que aflorasse na linha longa das gerações, genuíno, inquieto e batalhador como a flor estreme da raça. De corpo, era um homem de estatura meã, rosto fino, tez branca que mais realçava a barba preta com tons de fogo, na qual as suas mãos tinham o vício de passear-se, de embrenhar-se, quando a cólera o tomava ou ouvia alguém do seu agrado. A testa era longa, com as arcadas superciliares marcadas sem demais, as linhas fisionómicas duma delicadeza que, fóra das mulheres, desagrada. A aparência, toda ela de franzino, mascarava-lhe inteiramente um génio assomadiço e a coragem que não era lenta nem jamais foi receosa a medir-se. Parecia um delicado, destes homens para produzir os quais a vida das cidades esculpiu sobre a carne de gerações e gerações, desengrossando, limando, amaneirando, e era uma planta vivaz das serras. Só os olhos muito móveis e azues, mas sem fereza, traíam nele o ânimo expeditivo e a índole que, além de resoluta, era exaltada. Os seus modos espalhafatosos seriam detestáveis se não houvesse a contrabalançá-los uma grande e sincera franqueza, da mesma forma que "aquele dar-se todo" torna-lo-ia suspeito se o seu carácter se não descobrisse até os planos mais remotos. Mais que a identidade de ideias haviam-no imposto ao grupo revolucionário do Gelo, que paradoxalmente via o mundo através de Nietzsche e dos pensadores russos, haviam-no imposto aquelas virtudes do homem instintivo, generosidade, espontaneidade, poder de estimar e admirar, ao contacto dos quais o homem de pensamento se desvanece.[...]

A sua cultura literária não era também comum. Professor do Colégio Moderno, dava-me a impressão de ter uma inteligência lesta, assimilando sem esforço, mas também sem perdurabilidade. Tinha, no entanto um sentimento bastante largo da vida que nas horas de excitação costumava traduzir pelos baixos epifonemas dum pessimismo exagerado.[...]

Era isto tudo, galante, franco, liberal, corajoso, blasonador, incoerente muitas vezes, parlapatão mais duma, sem equilíbrio na vida, sem disciplina moral, uma ou outra anomalia medrando a meio de sentmentos que, além de ser puros, pareciam ser inibitórios. Assim, Buiça, que era um pai extremosíssimo, se não exacto, presando a sua mulher e tendo pelos filhos uma adoração sem limites, a pontos de tresnoitado ou embriagado, o que sucedia por vezes, se não poder deitar sem os beijar e se abraçar neles, mantinha correspondência de amor com uma menina de Lisboa. [...]

[Na foto: o Café Gelo, em Lisboa, nos inícios do séc. XX, um dos lugares de conspiração mais em destaque na época. Por lá passaram os regicidas, carbonários e maçons que trabalhavam para derrubar a Monarquia. In Arquivo Fotográfico com a devida vénia.]

A.A.B.M.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

FAMÍLIA REAL DE PORTUGAL EM 1899


Família Real de Portugal em 1899

D. Carlos [n. em Lisboa a 28 de Setembro de 1863, filho de do rei D. Luís I e da rainha D. Maria Pia de Sabóia, neto paterno de D. Fernando de SaxeCoburgo-Gotha e da rainha D. Maria II e neto, pelo lado materno, do rei de Itália Vítor Manuel. Sobe ao trono a 19 de Outubro de 1889. Tolerante, amante dos “prazeres da vida”, de forte “individualidade artística”, cultiva D. Carlos as belas-artes e dedica-se aos estudos oceanográficos, outra das suas (muitas) paixões. Os gravíssimos acontecimentos durante o seu reinado – o Ultimatum, a revolta militar do 31 de Janeiro de 1891 e, de modo geral, a ditadura imposta pelo seu Presidente do Conselho, João Franco – condicionaram a sua regência, que acaba abruptamente no atentado, que lhe pôs termo à vida, do dia 1 de Fevereiro de 1908]

Rainha D. Amélia [n. a 28 de Setembro de 1865 (curiosamente no exílio), filha de Luís Filipe de Orleães e de Maria Isabel de Orleães-Montpensier, e bisneta de Luís Filipe, último rei de França. Casa em 22 de Maio de 1886 com o (então) príncipe D. Carlos. Como rainha, registe-se que fundou o Instituto de Socorros a Náufragos (1892), o Museu Nacional dos Coches e a Assistência Nacional aos Tuberculosos. Depois do regicídio “retira-se para o palácio da Pena” (Sintra), indo para o exílio (primeiro em Londres e, em seguida, para Versalhes, Paris) após os acontecimentos de 5 de Outubro de 1910, que instituiu a República. Morre em Outubro de 1951]

Rainha D. Maria Pia [n. a 16 de Outubro de 1847, filha do rei Vítor Emanuel II da Sardanha e Piemonte e da arquiduquesa de Áustria Adelaide de Habsburgo. Pertencia à casa real italiana de Sabóia, tendo casado com o rei D. Luís no dia 6 de Outubro de 1862, tornando-se rainha de Portugal. Era mãe de D. Carlos e do Infante D. Afonso Henriques, Duque do Porto. Residia oficialmente no Palácio da Ajuda e, como consequência do regicídio, fica muito abalada mentalmente, retirando-se da vida pública. Parte para o exílio para Piemonte, depois da instauração da República. Morre em 1911]

Infante D. Afonso [n. a 31 de Julho de 1865 e era filho de D. Luís e de D. Maria Pia, irmão de D. Carlos I. Popular, era conhecido pela curiosa alcunha do “Arreda”, dada pela sua extravagante condução automóvel, de que foi dos primeiros entusiastas em Portugal. Foi herdeiro “presuntivo” da coroa portuguesa, durante o reinado do seu sobrinho D. Manuel. Parte para o exílio, após o 5 de Outubro de 1910, fixando-se em Itália, onde morre a 21 de Fevereiro de 1920]

Infante D. Luiz Filipe [n. a 21 de Março de 1887, filho de D. Carlos e D. Amélia. Foi príncipe da Beira, depois Duque de Bragança, sendo o herdeiro da coroa portuguesa. Teve como preceptor Mouzinho de Albuquerque que o iniciou na vida militar. Morre no atentado de 1 de Fevereiro de 1908, tendo ainda (diz-se) ripostado contra um dos regicidas (Alfredo Costa)]

Infante D. Manuel [n. a 15 de Novembro de 1889, filho de D. Carlos e D. Amélia, irmão do príncipe D. Luiz Filipe. Sucede a seu pai, morto no atentado de 1908, como D. Manuel II. Parte para Inglaterra na sequência da revolta de 5 de Outubro de 1910. Foi uma figura notável, pelo seu amor a Portugal, pela sua excelente cultura história e literária e a sua grande afeição aos livros, não sendo estranho o legado dos seus trabalhos bibliográficos (pioneiros) sobre a história do livro em Portugal, do qual deixou obra estimada. Morre a 2 de Julho de 1932, estando os seus restos mortais sepultados no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa]

J.M.M.

MORTE D'EL REI E DO PRINCIPE REAL D. LUIZ FILIPPE


Morte d'El-Rei e do Principe Real D. Luiz Filippe

Capa do Diário de Notícias de 2 de Fevereiro de 1908:"Gravissimo attentado contra a familia real. Morte d'El-Rei e do Principe Real D. Luiz Filippe"

J.M.M.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A DERROCADA DE UM TRONO (III)


A Derrocada de um Trono (III)

"(...) O decreto que aparecia no final d'esse mez dava razão ao articulista, justificando, até certo ponto, todos os terrores do público. O arbítrio ficava definitivamente estabelecido por esse estupendo documento.

O rei estava nas suas propriedades de Villa Viçosa, caçando, mas, como o assunto era urgente e se tratava de satisfazer a pressa vingativa do governo, o Ministro da Justiça foi em busca do monarca, e, no dia 31 de Janeiro, publicava-se em Lisboa o extraordinário diploma de que só transcrevemos o primeiro artigo, pois ele basta para se ver quanto havia de ignominioso em tal documento.

«Art. 1.° - Os indivíduos pronunciados por alguns dos crimes compreendidos no art. 1.° do decreto de 21 de Novembro de 1907, poderão, quando os interesses superiores do Estado assim o aconselharem, e por virtude de deliberação do governo, tomada em conselho de ministros, ser expulsos do reino ou transportados para as possessões ultramarinas, nos termos do art. 10º, da lei de 11 de Abril de 1892»

Estas deportações ou expulsões, como adiante se dizia, não dependiam de processo judicial, eram um mero acto do poder executivo. Perante um tal decreto que, para ser extensivo aos indivíduos presos, até era de efeito retroactivo, todas as garantias desapareciam. O poder absoluto ficava estabelecido na sua forma mais celerada e odiosa. Era uma loucura!

(...) D. Carlos, bem como toda a família real, estavam (...) em Vila Viçosa, onde o ministro da justiça tinha levado a assinar o celebrado decreto de 31 de Janeiro. Mas no dia 1 de Fevereiro seguinte voltaram para Lisboa, onde chegaram um pouco depois das cinco horas da tarde.

Na estação do Terreiro do Paço demoraram-se uns instantes, recebendo os cumprimentos dos ministros e d'alguns altos personagens, metendo-se a seguir em dois landeaus. Num ia o rei a rainha e os seus dois filhos, noutro, à retaguarda, iam os dignatarios do paço. O infante D. Afonso seguia no seu automóvel.
Quando o carro em que ia o rei dava volta para a rua do Arsenal, um individuo que estivera até então encostado a uma das pilastras da arcada, avançou uns passos, tirou de sob o gabão, em que estava embuçado, uma carabina, e fez fogo contra D. Carlos, parecendo que o feriu mortalmente. Outro individuo, pondo o pé no eixo da mesma carruagem, e segurando-se capota, despejou algumas balas de pistola contra os régios personagens (...)"

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (II)


A Derrocada de um Trono (II)

" ... No dia 29 foi preso, em sua casa, o dissidente sr. João Pinto dos Santos. O chefe desse grupo, dr. José d'Alpoim, mais o Visconde de Pedralva, que sabiam ter também ordem de prisão, fugiram para Espanha.
Com o último se deu um episodio engraçado em Ensinasola, terra castelhana onde ele se fôra acolher. Julgando-o um anarquista perigoso, as autoridades de terra usaram para com o fugitivo d'um extremo de rigor, mas depois, quando souberam quem era e porque motivos ali estava, encheram-no de favores e de distinções.

As medidas de rigor da ditadura começaram pela suspensão de jornais.

No dia 31 foram suspensos o Popular, o Correio da Noite, o Dia, o Liberal e o Paiz. A Vanguarda e o Mundo já estavam suspensos. Ficavam pois unicamente em publicação o Diário de Noticias, o Século e os dois jornais franquistas.

Era de péssimo agoiro esta prepotência. O que iria mais suceder? Os liberais apavoravam-se. Mas um despacho publicado no Matin, de Paris, chegado nesse dia a Lisboa, era um tanto tranquilizador. Simulava uma conferência havida entre João Franco e o correspondente dessa importante folha parisiense, e, como para desfazer os temores do público, a respeito das ideias do ditador em tão tremenda conjuntura, o jornalista punha-lhe na boca estas palavras:

«Pode anunciar aos leitores do seu jornal que não existe nenhum fundamento para as notícias alarmantes que se teem espalhado a respeito de Portugal. Descobrimos, é certo, provas flagrantes de que se planeava uma alteração da ordem pública, porem, logo que o governo adquiriu as suficientes indicações sobre o caso, tomou as medidas necessárias para reduzir a nada essa tentativa
«foram presos os principais organizadores da agitação, e outros virão talvez ainda a ser capturados. Os tribunais os julgarão e é de supor que sejam simplesmente postos fóra da fronteira, tal como se fez no seu paiz a Deroulède e aos seus amigos. Restabelecido o sossego poderão, voltar, mas é indispensável que a tranquilidade reine no paiz
»

(...) Um jornal de Algés, a Praia, publicava, por esses dias, a seguinte apreciação d'essa singularíssima gente:

«O franquismo é principalmente típico. Não representa apenas uma perversão politica, com a evidência de todas as suas opressões, e a ameaça iminente de todos os seus crimes; é acima de tudo uma degenerescência moral, clara e decididamente manifesta, tanto na sua forma íntima, como na sua estrutura externa.
Para quem pense e veja, faça raciocínios e tire conclusões, o franquismo é uma coisa tenebrosa, horripilante. Não é apenas a ambição desenfreada d'um megalómano, posta ao serviço d'uma causa péssima, e fundamente detestada. É coisa muito pior: é o reinado d'uma epilepsia temível, mas desgraçadamente bastante espalhada entre nós, vinda, radicalmente, dos caceteiros de D. Miguel, continuada em sucessivas reviviscencias de reaccionarismo estulto, e evidenciada, em toda a sua pujança, n'este momento, pelo escabujar macabro de doidos furiosos que, nos impetos d'uma insensatez furibunda, estão almejando pelas forcas, pelos fuzilamentos, pelas vindictas mais barbaras, para assim darem satisfação aos seus doentios sentimentos.
«O que se está passando não é uma revolução política, é um desequilíbrio mental. A perversão espiritual d'alguns, venceu a circunspecção da maioria; o arbítrio d'uma tara de intelectos doentios, impoz-se à sanidade cerebral do maior número, e assim vamos n'um revolutear louco. Deus sabe até onde!
"

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

A DERROCADA DE UM TRONO (I)


A Derrocada de um Trono (I)

" ... Entrou enfim o ano de 1908, que se iniciou (...) pela destituição das vereações municipais. Pelo que, anteriormente ficou indicado é fácil de supor o estado de tensão em que os espíritos se encontravam. A revolta estava latente e tudo fazia prever um grave acontecimento.
Em começos de Janeiro o dr. Júlio de Vilhena dizia no seu Popular: - «O final de tudo isto ha de ser uma revolução ou um crime!
Nos jornais progressistas e designadamente no Correio da Manhã, a oposição à ditadura era áspera e ameaçadora. O Dia, órgão dos dissidentes, não era menos enérgico. Mas a espada de Democles da lei de 20 de Junho, do ano anterior, lá estava sempre alçada como perpetua ameaça aos jornais que discordassem do que se estava passando.
Os periódicos republicanos eram os mais moderados, visto que sobre eles se exercia mais opressora vigilância, mas, usando de subterfúgios vários, iam sempre mantendo o espírito público em profunda rebelião.

No dia 12 deste mês deu-se um episódio que ridicularizou bastante a ditadura. Aquele estudante Aquilino Ribeiro, que fôra preso por ser apanhado na casa da rua do Carreão, onde rebentara uma bomba de dinamite conseguiu fugir da esquadra do Caminho Novo, em que o tinham muito bem guardado.
Foi motivo de grande satisfação para todos os liberais.
Apesar desse percalço a policia não dormia. Por intermédio dos seus espiões, que era uma nuvem, descobrira o plano da premeditada revolução, e no dia 21 foram presas os srs. João Chagas, Alfredo Leal, Vitor de Souza e outros, e no dia seguinte o mesmo sucedeu ao sr. dr. António José d'Almeida, que era então o secretário do Directório do partido republicano.

Como os jornais franquistas afirmassem que se tinha descoberto um complot contra a vida de João Franco, o Directório do partido republicano fez espalhar por Lisboa, no dia 26, um curto manifesto em que dizia, principalmente, que: - «o diretorio republicano julga necessario, neste momento de tanta sobreexcitação, declarar bem alto, em contraposição aos ditadores, que o que ele, com o seu partido, quer, é suprimir opressões e não os homens do regime».

Apesar de se sentirem descobertos os organizadores da projectada revolução insistiam em sair com ela, designando para esse fim a noite de 28 para 29, mas, um pouco antes da hora marcada, a polícia assaltou o elevador da Biblioteca, que era d'onde devia partir o sinal, e prendeu aí os dissidentes visconde de Ribeira Brava e dr. Egas Moniz e os republicanos dr. Afonso Costa e tenente Álvaro Pope.

Em diversos pontos da cidade foram também presos alguns populares, encontrados em grupo, e no Rato travou-se renhido tiroteio entre homens do povo e polícias, resultando ficarem seis destes feridos e um morto.
Já a ditadura tinha nas mãos a prova de que se tentara realizar uma rebelião armada, e ia portanto tirar a represália.
E como seria ela? Temia-se que fosse terrível, por isso todos ficaram em dolorosa expectativa.

[continua]

in Cronica do Reinado de D. Carlos. A Derrocada de um Trono, de César da Silva, Lisboa, Romano Torres, 1922

J.M.M.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

REGICÍDIO - EVOCAÇÕES PELO PAÍS


REGICÍDIO - EVOCAÇÕES PELO PAÍS

Amanhã e durante os próximos dias vão realizar-se pelo País diversas evocações sobre os acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908, assinalando-se o Centenário do Regicídio. Este facto, que conduziu à instalação do regime republicano que nos governa até hoje, não pode também ser dissociado da data de hoje, 31 de Janeiro, data em que se assinala a eclosão da primeira tentativa de revolta republicana. O 31 de Janeiro de 1891, já foi assinalado pelo Almanaque Republicano há um ano atrás e pode ser consultado aqui.

Realizando uma pesquisa rápida encontramos eventos em Castro Verde, Aveiro, Santarém, Lisboa e Coimbra, mas certamente que outros existirão pelo País, simplesmente não obtêm divulgação.

A Câmara Municipal de Castro Verde desencadeou já, o que é de assinalar, um vasto programa que serve para comemorar o Centenário da Implantação da República. Assim, aproveitando a efeméride do Regicídio, publica um livro Crónica do Regicida Invisível- Alfredo Luís da Costa (natural de Casével - Castro Verde), elaborado por Paulo Barriga ; realiza uma exposição sobre a República, com a colaboração do Museu República e Resistência; descerra uma lápide evocativa de Alfredo Luís da Costa e lança outro livro sobre o evento 1908 - UM OLHAR SOBRE O REGICÍDIO, da autoria de Margarida Magalhães Ramalho, entre outros acontecimentos.

Na Câmara Municipal de Aveiro, as actividades decorrerão no Museu da Cidade de Aveiro e constam de uma pequena mostra documental incluindo imprensa aveirense da época intitulada O regicídio… em Aveiro e D. Carlos, o rei que amava o mar constituem uma exposição documental que estará patente no Museu da Cidade de Aveiro, de 1 a 10 de Fevereiro, de Terça-feira a Domingo, das 10.00 às 19.00 horas.

Também Santarém, na Biblioteca Braamcamp Freire/Biblioteca Municipal, se realiza uma exposição evocativa do Regicídio, consta de uma exposição bibliográfica e documental sobre acontecimento histórico que mudou o rumo político do país. Esta exposição decorre entre 1 e 29 de Fevereiro.

Em Lisboa, já assinalamos alguns acontecimentos a realizar na Biblioteca República e Resistência e na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Finalmente, em Coimbra, realiza-se dias 1 e 2 de Fevereiro, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, um colóquio organizado pela Associação Cultural Alternativa, que conta com as presenças do Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, de Pignatelli Queirós e Amadeu Carvalho Homem no primeiro dia e Fernando Fava, Miguel Santos, Isabel Nobre Vargues, Noémia Malva Novais e António Reis ,no segundo dia, para analisarem o Regicídio nas suas diferentes abordagens. Certamente muito interessante dada a qualidade dos intervenientes. Ainda em Coimbra, na Casa Municipal da Cultura, está também a decorrer uma exposição documental sobre esta temática.

Ficam aqui algumas sugestões para os próximos dias, aproveitando os eventos culturais que diversas autarquias vão organizando por esse País fora, para fomentar o gosto pela História e os seus múltiplos acontecimentos e leituras variadas.

A.A.B.M.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O REGICÍDIO - NOTAS VÁRIAS


A propósito desta pequena colecção de dados sobre o Regicídio, aconselhamos, desculpem-nos a imodéstia, alguns locais de interesse a visitar para saber mais sobre este assunto.

Nos últimos dias têm aparecido alguns contributos interessantes sobre esta temática. Por exemplo, a Fundação Mário Soares disponibilizou documentos importantes dos seus valiosos arquivos. A consultar com toda a atenção.

Também na Hemeroteca de Lisboa vai realizar-se uma mostra bibliográfica e documental sobre o Regicídio que estará patente no Átrio e Escadaria da Hemeroteca. A inauguração será a 2 Fevereiro, estando em exibição até 29 de Fevereiro. Durante esse período realiza-se também um conjunto de quatro conferências sobre o acontecimento. A primeira no dia 7 de Fevereiro, conta com a presença de Eduardo Teixeira, que apresentará um trabalho intitulado O Regicídio de 1908, Impacto nos jornais portugueses.

No dia 14, nova conferência por Joaquim Vieira (Observatório da Imprensa) e Reto Monico (Investigador e Professor de História na Suiça) sobre O Regicídio de 1908, Impacto na Imprensa Estrangeira.

Na semana seguinte, dia 21, realiza-se a terceira conferência deste ciclo de quatro com Elisabete Rocha (CML/HML)que propões uma abordagem sobre O Regicídio de 1908, Ilustração de Imprensa.

Finalmente, no dia 28 de Fevereiro, Álvaro Costa de Matos(CML/HML), propõe-se realizar um balanço da questão, apresentando um trabalho intitulado O Regicídio de 1908. O Estado da Questãopor

Todas as sessões estão previstas iniciar-se pelas 18 h e decorrerão na Sala do Espelho, na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

Por seu lado, na História Aberta, foi publicado mais um documento sobre os acontecimentos de 1 de Fevereiro de 1908, neste caso com base no Diário de D.Manuel II.

Também, José Tomaz de Mello Breyner, no Regicídio In Memoriam, apresenta textos do Diário de D. Manuel II, numa perspectiva claramente dominada pela defesa da Monarquia.

No site da Associação República e Laicidade, sob o título "O Atentado de 1 de Fevereiro/Regícidio", apresenta-se extractos de textos, sobre o acontecimento, de Carlos Ferrão, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, D. Manuel II, fotos e documentos sobre Manuel Buiça e Alfredo Costa, iconografia e filme sobre o Regicídio.

Estes são alguns dos eventos e locais interessantes a percorrer, para aprender e saber mais sobre os mistérios que envolvem o Regicídio.

[em continuação]

A.A.B.M.

REGICÍDIO - OS ACONTECIMENTOS DE PORTUGAL


Regicídio - Os Acontecimentos de Portugal

Postal ilustrado, edição francesa (?), sobre "Les Événements du Portugal" de 1908. À esquerda, o Rei D. Carlos I, o príncipe D. Luís Filipe (Duque de Bragança), ambos assassinados; em seguida, a Rainha D. Amélia e D. Manuel (futuro rei). Em baixo reprodução do Terreiro do Paço.

J.M.M.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O REGICÍDIO - OS ACONTECIMENTOS NA IMPRENSA DA PROVÍNCIA

De seguida, apresentamos alguns exemplos de como foi recebida na província a notícia do atentado contra D. Carlos e o princípe herdeiro D. Luis Filipe.

Aproveitamos a existência de algumas publicações periódicas da época que estão disponíveis online aqui e aqui, para dar uma noção ainda que pouco abrangente da multiplicidade de situações que se verificaram em Portugal nos dias subsequentes ao Regicídio.

O Campeão das Províncias, de Aveiro, publicava esta capa dias depois dos acontecimentos.




Ainda em Aveiro, o semanário Districto de Aveiro, apresentava em primeira página o tema desta forma que se pode visualizar abaixo.



Por seu lado, o jornal republicano de Aveiro, dirigido por Francisco Manuel Homem Cristo, o Povo de Aveiro, apresentava este início de artigo sobre o problema do Regicídio.



Finalmente, O Vilacondense, de Vila do Conde, apresentava uma nota sobre o acontecimento que pode ser vista de seguida.



Fica aqui uma amostra da diversidade de opiniões que percorria o País em 1908. Muitas outras estão ainda por divulgar.

[a continuar]

A.A.B.M.

CARTA D'EL REI D. CARLOS I


Carta D'El Rei D. Carlos I

"9-5-907

Meu querido João

Depois da nossa conversa tive varias outras noticias de differentes origens que todas confirmam a maneira de vêr e de proceder em que hontem ficamos de accordo. Vamos por certo ter uma campanha sobretudo contra nós dois, mas para isso é que cá estamos. Campanha baseada na minha carta ao Hintze, e nas tuas antecedentes affirmações.
Mas a minha carta ao Hintze não condemna em absoluto as dictaduras. Dizia que n'aquelle momento as não achava convenientes, o que não queria dizer que n'outros, e este é um d'elles, eu não as acceite e, o que é mais, até as ache convenientes e necessarias. E ainda que eu tivesse declarado absolutamente o contrario, diria que não é homem de Estado, nem sabe servir o seu Paiz aquelle que julgando ter affirmado um erro, se não penitenceie d'elle e não esteja prompto, reconhecendo-o, a seguir caminho diverso que julgue mais opportuno e conveniente.
Quanto ás tuas affirmacões … provaste á saciedade que as quizeste seguir; deste uma sessão parlamentar, nunca vista, mas chegaste ao fim, como chegaram todos aquelles que estão de sangue frio e não levados por mesquinhas considerações pessoaes ou partidarias, convencido que não era d'alli que poderia vir o restabelecimento da disciplina social, nem o renascimento do nosso Paiz. N'este sentimento acompanha-te, acompanha-nos, por certo grande parte do Paiz; deixemos, pois, fallar quem falla e continuemos serenamente, com calma, mas com firmeza a nossa obra. N'este caminho encontrarás tu e os teus collegas todo o meu appoio o mais rasgado e o mais franco, porque considero que só assim, dadas as circumstancias em que nos encontramos, poderemos fazer alguma cousa boa e util para o nosso Paiz. Desculpa esta massada, mas tive receio que da nossa conversa d'hontem te tivesse ficado alguma duvida sobre a minha maneira de pensar.
Sempre teu amigo obrigado

Carlos R.
"

[in, Cartas D'El Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco seu ultimo Presidente do Conselho, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924, 5ª ed., p.119-120]

J.M.M.

domingo, 27 de janeiro de 2008

D. CARLOS


D. Carlos

" ... D. Carlos compreendia muito bem que o ‘rotativismo’ liberal estava esgotado, ou, pelo menos, que não resistiria à violência popular em Lisboa. Existiam duas soluções: reprimir pela força a agitação urbana (como a seguir se fez na ditadura) ou integrar o radicalismo no regime através de um novo arranjo partidário e de eleições, por assim dizer, ‘honestas’. Apoiando João Franco, o Rei tentou a ‘segunda via'. Sucede que a 'segunda via', com 62 por cento da população na agricultura e 75 por cento de analfabetos, para não falar da quase completa ausência de uma indústria fabril, era inteiramente ilusória. Tarde ou cedo acabava mal. Acabou cedo. Os políticos da monarquia e o Partido Republicano viram com alívio a morte do rei, que imediatamente os salvava. Mas D. Carlos tornara impraticável um regresso pacífico ao ‘rotativismo’ e, depois de uns meses de absoluta desordem, veio a revolução ..."

[Vasco Pulido Valente, in D. Carlos, jornal Público, 26/02/2008]

J.M.M.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O REGICÍDIO (PARTE I)

NOVIDADES BIBLIOGRÁFICAS

A propósito do Centenário do Regicídio têm sido publicados diversos livros sobre a personalidade do Rei D. Carlos e os factos trágicos que envolvem a sua morte. Nalguns casos recuperaram-se também edições antigas e que há muito tinham saído do mercado.

São diferentes leituras sobre a personalidade, o tempo, os acontecimentos e a vida de um país que estava em profunda turbulência. As conspirações, as sociedades secretas, as tragédias que envolvem todo este período suscitam paixões e ódios que muitas vezes dificultam a vida de quem estuda a época e pretende uma leitura mais neutra dos factos. Mesmo cem anos após os acontecimentos ainda há questões não resolvidas. Este facto alimenta a imaginação dos escritores e obriga-os a estudar novamente a época com outros olhos e uma atitude diferente. Curioso, no entanto, é o facto de, sobre estes acontecimentos, existirem ainda poucos romances que tenham como pano de fundo esta época.

Após a leitura da revista Os Meus Livros, que habitualmente adquirimos, foi possível encontrar um conjunto de referências bibliográficas recentes sobre o Regicídio, algumas que já conhecíamos e outras que, infelizmente, não tivemos conhecimento atempadamente.




- Regicídio. A Contagem Decrescente, por Jorge Morais, já tinhamos conhecimento e divulgamos oportunamente esta obra aqui.








- D. Carlos - A Vida e o Assassinato de um Rei, por José Manuel de Castro Pinto, publicado ainda em 2007, já tivemos oportunidade de o folhear em algumas livrarias.











- Mataram o Rei! O Regicídio na Imprensa Internacional, por Joaquim Vieira e Reto Mónico. Não conhecemos esta obra, no entanto lamentamos ainda não a ter encontrado, pois seria sempre interessante saber o impacto que esta notícia teve noutros países e como foi recebida pela imprensa desses países.









- O Regicídio, por Alice Samara e Rui Tavares. Penso que é uma edição muito recente que ainda não foi possível consultar ou adquirir, porém os seus autores dão garantias de um trabalho bem conseguido. Sobretudo demonstrando capacidade de investigação e interpretação das fontes consultadas. Vamos tentar encontrar e emitir a nossa opinião sobre esta obra nos próximos tempos.






- A República Nunca Existiu!, coordenado por Octávio dos Santos. Conjunto de contos de vários autores, sobre o Regicídio e a Implantação da República por autores de cariz monárquico. Não conhecemos.









- O Regicídio, por Rocha Martins, foi uma das obras que foi recentemente reeditada, a propósito do Centenário. Uma iniciativa feliz, pois são sempre obras bem ilustradas e com um texto jornalístico, muito típico de Rocha Martins, mas que fez bastante sucesso no seu tempo, permitindo-lhe a publicação de númeras obras de pendor histórico, especialmente sobre a queda da Monarquia. A rever com toda a atenção.









Finalmente, aguarda-se com expectativa a obra que o sítio monárquico que assinala o Regicídio tem vindo a divulgar. Esta obra conta com a colaboração de vários autores onde se destacam: Mendo Castro Henriques, Maria João Medeiros, João Mendes Rosa, Jaime Regalado e Luiz Alberto Moniz Bandeira, intitulado Dossier Regicídio - O Processo Desaparecido.

Nos próximos dias continuaremos com outras obras dedicadas ao Regicídio publicadas ao longo do tempo e que temos conhecimento.

A.A.B.M.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O REGICÍDIO - COLÓQUIO


Nos próximos dias 8 e 9 de Fevereiro realizar-se-á, em Lisboa, para assinalar o Centenário do Regicídio (1908-2008) um colóquio que resulta de uma parceria entre Instituto de História Contemporânea e o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX.

São coordenadores científicos do colóquio os Professores Vítor Neto e Maria Alice Samara. Este encontro, com entrada livre, decorrerá na Sala do Conselho – União de Associações do Comércio e Serviços (Rua Castilho, 14) entre as 9.30 h e as 19 h, na sexta-feira e entre as 9.30 h e as 17 h, no sábado.

Os acontecimentos de há cem anos serão analisados em seis campos diferentes, a saber:

I - CONJUNTURA POLÍTICA 1906-1908
II - ACONTECIMENTOS E PROTAGONISTAS
III - DOUTRINAS E ORGANIZAÇÕES
IV - NOTÍCIAS SOBRE O ATENTADO E COMUNIDADE INTERNACIONAL
V - CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS
VI - ANÁLISE COMPARATIVA

Conta com a intervenção de dezoito investigadores nacionais e internacionais onde se destacam: José Miguel Sardica, Miguel Sanches de Baêna e Jorge Morais, António Pedro Vicente, Fernando Catroga, António Ventura, João Madeira, António Lopes, Paulo Jorge Fernandes, Rui Tavares, Maria Alice Samara, Carlos Cordeiro, Vítor Neto, Alberto di Bernardi, Juan Avilés Farré, Steffano Salmi, entre outros.

O programa completo do colóquio pode ser consultado aqui.

A.A.B.M.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

DO 28 DE JANEIRO DE 1908 AO REGICÍDIO DE D. CARLOS


No longo processo que conduz à implantação da República, não podemos deixar de assinalar, o conjunto de factos que aconteciam neste nosso recanto, há um século atrás. Para que não fique dúvidas, assinalamos, não comemoramos. Já que não concordamos com os métodos violentos para alcançar o poder, mas reconhecemos a sua existência e não a podemos omitir. Por outro lado, porque a morte de alguém para conquistar o poder mostrava ainda as dificuldades por que passava o Partido Republicano para se afirmar, mesmo num momento em que os partidos monárquicos se degladiavam entre si, surgindo dissidências que eram muito críticas em relação ao poder estabelecido. D. Carlos acaba por viver tragicamente uma época, onde as ideias políticas eram aproveitadas, tal como ainda hoje, para destruir personalidades e para denegrir com boatos, provocar erros e lançar descrédito.

Na sua chegada ao poder em Outubro de 1889, D. Carlos enfrenta de imediato os graves problemas suscitados pela Inglaterra na região africana (consequência da Conferência de Berlim), que vão culminar de forma pouco edificante no Ultimato Inglês e no tratado secreto com a Grã-Bretanha, onde se procede á entrega dos territórios entre Angola e Moçambique, no convénio de 20 de Agosto de 1890. Segundo afirmou César da Silva, "se o Ultimatum fora um ultraje, o tal projecto de tratado (...) representava coisa muito pior" [César da Silva, A Derrocada de um Trono. Crónica dos Últimos Reinados em Portugal (1889 -1910), João Romano Torres Editores, Lisboa, 1922, p. 57].

A situação política e económica em Portugal torna-se gradualmente mais complexa e tensa. Por um lado, eclode no Porto a revolta republicana de 31 de Janeiro que leva muitos republicanos implicados a viver no exílio ou a serem degredados para as colónias portuguesas. Muitos destes homens que se viram forçados a partir acabaram por nunca perdoar a atitude persecutória da Monarquia simplesmente porque tinham ideias políticas diferentes. Além disso, a situação económica agrava-se muito nesse período, entrando o país em falência. Procede-se à desvalorização da moeda, regista-se o aumento do desemprego e estabelece-se a pauta proteccionista a partir de 1892.

Nos últimos anos do seu reinado, D. Carlos confronta-se com sucessivos escândalos que são aproveitados pela imprensa republicana da época, particularmente O Mundo e A Luta, para incutir os princípios republicanos de governação. A reorganização que o Partido Republicano inicia em 1903, começa a conquistar visibilidade pública e a conquistar eleitores em 1906 com a eleição de quatro deputados republicanos: Afonso Costa, António José de Almeida, Alexandre Braga e João de Meneses.

A entrega do Governo a João Franco, para iniciar uma ditadura, assume também uma importância preponderante, porque as medidas legislativas contra a imprensa para tentar abafar os escândalos como: os sanatórios da Madeira, os monopólios dos fósforos, do tabaco e o problema dos adiantamentos à Casa Real, só contribuíram para fomentar a conspiração e desencadear tentativas de golpe de Estado.

Os republicanos com uma campanha cada vez mais organizada, devido à sua imprensa espalhada por todo o País; bons oradores nos comícios públicos; concertando acções com as sociedades secretas como a Carbonária e a Maçonaria; desenvolvendo um conjunto de iniciativas contra a ditadura de João Franco; e, desmontando e criticando todos os argumentos, por mais inteligentes e inatacáveis que pudessem ser, para os transformar em armas de arremesso contra a Monarquia que era representada naquela época pela personalidade de D. Carlos. Estes factos acabaram por conduzir à tentativa fracassada de 28 de Janeiro de 1908.

Nessa data estava prevista iniciar-se a revolta republicana, mas a polícia tomou conhecimento dos factos e procedeu de imediato a um conjunto de detenções. Em 21 de Janeiro foram detidos: João Chagas, Alfredo Leal, Vítor de Sousa e, dias mais tarde, o Visconde da Ribeira Brava, João Pinto dos Santos, o Dr. Egas Moniz, [em cima, da esquerda para a direita, na foto] que eram dissidentes da Monarquia e dos líderes republicanos Afonso Costa, António José de Almeida e Álvaro Pope que foram presos no Elevador da Biblioteca, de onde deveria partir o sinal para iniciar a revolta. Foram ainda detidos vários populares e houve mesmo tiroteio entre a polícia e alguns grupos suspeitos de que resultaram um morto e vários feridos.

No entanto, a conspiração continuava a avançar nos meandros das sociedades secretas. Os acontecimentos tornam-se ainda mais complexos quando João Franco propõe um decreto que visava a deportação dos anarquistas e republicanos envolvidos em actividades revolucionárias, assinado pelo rei em 31 de Janeiro de 1908, em Vila Viçosa. No dia seguinte, no regresso a Lisboa, desenrolam-se os acontecimentos que ficaram conhecidos como o Regicídio.

Nos próximos dias, o Almanaque Republicano propõe-se recordar alguns títulos, acontecimentos, imagens e biografias dos intervenientes nesta época.

A.A.B.M.

DO 28 DE JANEIRO DE 1908 AO REGICÍDIO


Nos próximos dias 28 e 29 de Janeiro de 2008, no espaço Cidade Universitária da Biblioteca Museu República e Resistência vai realizar-se uma conferência seguida de debate subordinada ao tema Da intentona do Elevador ao Regicídio. Cinco dias que abalaram Portugal. Participam no debate, com as suas reflexões e pesquisa António Reis (Professor de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano) e António Valdemar (jornalista e sócio correspondente da Classe de Letras, na secção de Literatura e Estudos Literários da Academia das Ciências de Lisboa).

Participa como moderador no debate o investigador e escritor Jorge Morais, autor entre outras da obra recentemente publicada Regicídio. A Contagem Decrescente, que o Almanaque Republicano também divulgou aqui.

A sessão terá início pelas 18.30h.

No dia seguinte, no referido espaço e horário, decorrerá nova sessão com a participação de Francisco Carromeu, autor do Dicionário da Carbonária e doutorando da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Este autor vai analisar a repressão do movimento de 28 de Janeiro e sobre o regicídio, no quadro da vigência da ditadura de João Franco.

O Espaço Cidade Universitária da Biblioteca Museu República e Resistência situa-se na Rua Alberto de Sousa, 10A, Zona B do Rêgo, em Lisboa (Telef.: 217802760 e Fax: 217802788).

Um conjunto de sessões a não perder.

A.A.B.M.